Variação sobre o arroz com feijão – I

Um bom dicionário de português brasileiro não mostrará menos que 150 entradas para o verbete feijão. Feijão-baru, feijão-congo, feijão-corda, feijão-cru, feijão-peludo, feijão-mula. A lista impressiona.

No entanto, um mercado comum não disporá além de duas ou três variedades em suas gôndolas, sendo em larga e curiosa onipresença o preto, o carioca e o fradinho a graçar.

Outro dia, achei num mercadinho expresso um saco do encarnado. Sorri e comprei. Foi ‘o’ assunto na fila do caixa. Trago amiúde o branco, parrudo e pedidor de mais alento no pré-molho. Aqui aliás a dica. Ninguém precisa de panela de pressão para fazer feijão. Basta ser generoso no pré-molho.

Fato é que anda o espectro do feijão demasiado estreito, estigmatizado por certas presenças monopolizantes. Por ser caractere fundamental da comida brasileira, estranha não se ouvir falar em sart-ups de feijão. A ideia, simples mas charmosa, poderia contar com a seguinte formatação:

Um ponto comercial aberto no nível da calçada chamado por exemplo Três Feijões. A ironia é essa: entrando, o consumidor dá não com três mas com centenas. De onde, então, viria o três?

Seria a start-up conduzida, desde a traseira do fogaréu a lenha, pela tradição de três cozinheiras, também pilares da mesa atlântica e sertaneja: uma das Minas Gerais, uma da Bahia, uma caipira. Três modos à brasileira de abordar o feijão, com suas peculiares picâncias, texturas, temperos, acompanhamentos e acabamentos.

No mix de produtos da loja, feijões para comer na hora, em diversas formas, mas principalmente para levar para casa, congelados em porções para um, dois, três ou quantos forem.

Em São Paulo, cidade de estudantes, iniciantes, aventureiros em quitinetes, casais nas primeiras horas, a loja teria, creio, um bom giro, retornando o investimento em menos de um ano. Além disso, toda uma miríade de modismos e experimentos, bem à moda do orgulho max-min da geração digital, carregaria o feijão às possibilidades lúdicas da rica leguminosa, formando tira-gostos, doces, quitutes profanas, invencionices k-pops, neo-glitch, proto-grunge, sertafunk, glitter, dark, pós-punk, etc.

Uma loja de feijão. No Brasil. {{ NSSP }}

Neste arroz com feijão, usei:
– Feijão preto
– Bifun (macarrão de arroz)
– Batata-doce
– Munguzá (canjica amarela)
– Missô
– Linguiças de soja

Temperei com:
– Cúrcuma in natura
– Seu irmão (da Cúrcuma), o Gengibre, in natura
– Um pau de canela
– Três bagos de pimenta cumari
– Páprika picante
– Shoyo
– Curry

Bom apetite!

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