Vênus & Vulcano

Nem Odorico Mendes, nem Carlos Alberto Nunes conseguiram, a nosso ver, gravar em alta fidelidade o núcleo lógico deste modesto cenáculo que precede o fabrico das armas de Enéias na frágua arquifamosa de Vulcano.

Estamos num tenso estágio da epopeia. Em sono visitado pela divindade tiberina, o herói recebe a nota oracular de preste, renhida luta, resolvida entretanto pela providência arquetípica da mãe. Ele sacrifica a leitoa profetizada, mãe de trinta porquinhos; quem por ele apruma o estro do combate é também mãe, Vênus. Ela faz sua parte para que Vulcano faça a dele.

Virgílio graceja no feitiço matricial e logo documenta o despertar de marido e mulher. É como se tudo se passasse numa casa de família comum. Cubile coniugis aqui a nosso ver está para ‘casa de família’.

É preciso perguntar se quem acorda antes do sol e atiça o fogo, instrumento central dos trabalhos do lar, o faz para manter arrumado o ‘leito’ (termo adotado nas duas Eneidas brasileiras) ou a casa inteira. Cremos que o fogo alto será mister nas lides de limpeza e cozimento, ou seja, manutenção diária de um lar.

Outra dificuldade que passa em branco nas traduções é o termo lumina longo. Num jogo lesto de transferência do pequeno fogareiro ao próprio sol, o poeta diz que a faina doméstica, iniciada no fogo da casa, vai até o pôr-do-sol, quando esse (outro) lume estará distante.

É o que o idioma hoje diria, por Vênus, ‘trabalhar de sol a sol’, com a pequena correção da estreia em medio noctis. Nada de novo, pois se não afama o cancioneiro popular brasileiro os versos:

A estrela d’alva lá no céu brilhou
brilhou, brilhou, já é madrugada!
Acorda, vaqueiro, e vai ‘pra malhada

A forja de Vulcano, sabemos, empregará as melhores ligas para guardar Enéias num escudo complicado. O bonito deste livro, no entanto, está nesta breve reportagem da vida como ela é, no tempo e no lugar do autor, numa casa de família. Minerva já não faz sentido para nós, nem na vingança troiana tem peso, a não ser como símbolo indisputável da diarista.

Os versos vão da linha 407 à linha 415 do livro VIII. Assim traduziríamos:

Inde ubi prima quies medio iam noctis abactae
curriculo expulerat somnum, cum femina primum,
cui tolerare colo vitam tenuique Minerva
impositum, cinerem et sopitos suscitat ignes,
noctem addens operi, famulasque ad lumina longo
exercet penso, castum ut servare cubile
coniugis et possit parvos educere natos:
haud secus Ignipotens nec tempore segnior illo
mollibus e stratis opera ad fabrilia surgit.

Lá donde corre, noite fora aviado
o sono, faz a esposa a estrénua estreia
daqueles a quem lide egrégia é dado:
– Atice a brasa em cinza sopitada!
A faina lavra, da noite até a ceia
e assim dá pé de casta e serva casa
de família e piás sem ter ideia:
se tal qual faz o esposo quando sai
da cama entusiasmado e ofício emprega.

 

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