Quatro questões sobre as ‘Meditações metafísicas’

1

À luz deste excerto, examinar possível impulso ao passo que levaria a Filosofia ao campo onto-fenomenológico da pragmática, desatando-a da ontologia antiga.

et quamvis ex quo de omnibus volui dubitare nihil adhuc praeter me, et Deum existere certo cognovi, non possum tamen, ex quo immensam Dei potentiam animadverti, negare quin multa alia ab illo facta sint, vel saltem fieri possint, adeo ut ego rationem partis in rerum universitate obtineam.
– –
Et quoique depuis que j’ai fait dessein de douter de toutes choses, je n’ai connu certainement que mon existence et celle de Dieu, toutefois aussi, depuis que j’ai reconnu l’infinie puissance de Dieu, je ne saurais nier qu’il n’ait produit beaucoup d’autres choses, ou du moins qu’il n’en puisse produire, en sorte que j’existe et sois placé dans le monde, comme faisant partie de l’universalité de tous les êtres.

2

À luz deste excerto, exemplifique o ato de deliberar.

quae non intelligo extendo [voluntas]
– –
la volonté étant beaucoup plus ample et plus étendue que l’entendement

3

À luz deste excerto, ensaie o porquê do que se entende por verdade não ser sempre verificável como objetiva referenciação.

… facile tamen potest accidere ut dubitem an sit vera, si quidem Deum ignorem. Et ainsi je n’aurais jamais une vraie et certaine science d’aucune chose que ce soit, mais seulement de vagues et inconstantes opinions.

4

Em VI.4, Descartes compara dois modi cogitandi: a pura intelecção e a imaginação. Tornado a si mesmo, e não ao ‘corpo’, o pensamento (mens), na pura intelecção, não chegaria a nada diferente de si; já tornando-se ao ‘corpo’, possível seria que o pensamento chegasse, imaginando, a alguma ideia pronta que tenha de si, ou a alguma confusão dos sentidos. Qual a força ética possível a tal comparação?

Nem tão póstumas…

Mencionei, neste dia, o trecho em que glosa Brás Cubas Pandora. De então coubesse aqui, cogitei, mostrá-lo como nele meditar um bocadinho.

Aí vinham a cobiça que devora, a cólera que inflama, a inveja que baba, e a enxada e a pena, úmidas de suor, e a ambição, a fome, a vaidade, a melancolia, a riqueza, o amor, e todos agitavam o homem, como um chocalho, até destruí-lo, como um farrapo. Eram as formas várias de um mal, que ora mordia a víscera, ora mordia o pensamento, e passeava eternamente as suas vestes de arlequim, em derredor da espécie humana. A dor cedia alguma vez, mas cedia à indiferença, que era um sono sem sonhos, ou ao prazer, que era uma dor bastarda. Então o homem, flagelado e rebelde, corria diante da fatalidade das cousas, atrás de uma figura nebulosa e esquiva, feita de retalhos, um retalho de impalpável, outro de improvável, outro de invisível, cosidos todos a ponto precário, com a agulha da imaginação…

Pandora sem Zeus nem Prometeu, Pandora sem a judicialização do mito, Pandora sem o barro nem a borra. Não está senão a manchar o corpo machadiano como um convite à mesura de quem quer que sonhe com isto de tocar juízo à obra lendo e relendo, descendo no trecho o corpo da leitura, nela estando em imersão sem muito foco, como se a investigação sem crime solicitasse um modo postural à experiência estética, esta que enriquece estar aqui.

A miração do verme é licorosa. Credo maciço e bem talhado. Num breve trecho dá matéria de compêndios e vestes de arlequim à pena funda. Do mundo faz palco, das vidas sete e dos nexos milhares do saber clamor turvado em som e fúria, pois que um homem abre os olhos flagelado.

Um homem abre os olhos flagelado e rebelde porque nem a mais real realidade, o tango contínuo do corpo, servirá de fundação. Diligente investiga, constante atende à espera, desnudo considera, senão do intelecto liberto penetra o espaço da dúvida. Cogita a nova ideia se à memória estende a mão. A dor deixada a si, derrui; ao fim o prazer, do túnel, ilude. O fato equívoco da fala diz do parto das horas este tonto esperanto: tic, tac. Impalpável, improvável, invisível, sou matéria aonde penso, fôlego da busca, quase sem anúncio.

Este mesmo narrador-personagem dará à felicidade o epíteto polêmico ‘quimera’. Consulte-se. Traz a historiografia do termo duas ou três cabeças, corpo composto entre as sanjas, dorsos e panças de grandes felinos, caprinos, anfíbios, ora a exalar grunhidos, ora a chamas e crueldade espalhar e confusão. Serão mal entendidas, as duas ou três cabeças, postas em golpes do fio tipo arturial, não raro impiedosamente, ao chão de remoque e chalaça onde buliam. Que a tal quimera, para Brás Cubas,

Ou lhe fugia perpetuamente, ou deixava-se apanhar pela fralda, e o homem a cingia no peito, e então ela ria, como um escárnio, e sumia-se, como uma ilusão.

Luxo de Pandora: um transe da imaginação à ilusão sem que o logro da manhã alivie do abutre bico da desgraça este corpo que perece acorrentado ao prosaísmo.

Gran’Filô – tábula 3

Resolvi fazer um esquema de uma das anotações de Confrontos, bastante incrementada com neuroses esquemáticas deste leitor.

O título-enigma tenta condensar laudas e laudas de uma resenha relegada.

Nota a uma canção

A exiguidade e a repetitividade nesta peça desviarão o leitor moderno, sôfrego por pipocações, de um foco prático e atual ali velado?

Servem, exiguidade e repetição, de manejáveis à então operosa conduta ética do rei-autor, soldado-padrão, filósofo-trovador?

Esta conduta, por seu turno, substancia o dito foco prático que ora escape à lida frágil, pouco vígil, do consumo aligeirado dos textos de toda monta nesta uma época de contratual desassombro? Época em que não por acaso o poema vem ceder à ruína para apequenar-se e pertencer? Dizer: conduta cuja ética – magnânimas obrigações, obtenções magérrimas – sucederá em poética?

O procedimento que guardará o princípio da trova em questão é o do enxerto e da extração, procedimento dos intercalados ocultamentos entre compromissos rimários, quando abre-se em jogo o que a transformação mínima das cópulas encerrará em sentido.

Eis a canção (fonte: ‘Cancioneiro‘ de D. Dinis; Org. de Nuno Júdice; Lisboa: Editorial Teorema, 1998; B 568; V 171)

Ai flores, ai flores do verde pino,
se sabedes novas do meu amigo!
Ai Deus, e u é?
                                                            
Ai flores, ai flores do verde ramo,
se sabedes novas do meu amado!
Ai Deus, e u é?
                                                            
Se sabedes novas do meu amigo,
aquel que mentiu do que pôs comigo?
Ai Deus, e u é?
                                                            
Se sabedes novas do meu amado,
aquel que mentiu do que m’há jurado,
Ai Deus, e u é?
                                                            
Vós me perguntades polo voss’amigo?
E eu bem vos digo que é san’ e vivo.
Ai Deus, e u é?
                                                            
Vós me perguntades polo voss’amado?
E eu bem vos digo que é viv’ e sano
Ai Deus, e u é?
                                                            
E eu bem vos digo que é san’ e vivo,
e será vosc’ ant’ o prazo saído.
Ai Deus, e u é?
                                                            
E eu bem vos digo que é viv’e sano,
e será vosc’ ant’ o prazo passado.
Ai Deus, e u é?

‘Amigo’ e ‘amado’ copulam (encaixam-se ou rimam, ou conjuntam-se; evitaremos, por tautológico, o conceito de ‘paralelismo’) com ‘verde pino’ e ‘verde ramo’. Amigo e amado perseveram, das estrofes I e II às estrofes III e IV, mas deixam cair o apelo às flores. O ponto de partida que situa – é primavera? – já não bastará qual motor dramático? Enxertam-se, nas vagas ou rimas perseverantes de pino e ramo – outro passo –, da natureza exterior para a natureza ingênua, ‘pôs comigo’ e ‘me há jurado’. De amigo a amado – binômio essencial do poema – há um passo do vulgar ao íntimo, do conhecer ao saber. De pino a ramo, óbvio idem, da formalidade à verdade. Por mais que o verde persevere, olha-se um pino de longe; vê-se um ramo como à mão. Quem põe comigo o faz na grande e laica economia. Já quem me há jurado, quem sabe eu não veja lá fora. Consiste, pois, um passo, e o passo se faz, quando compõe, princípio. Enxertos e extrações vão velando o que só sua leitura mais tocante desvela. Tentâmen: rogo a Deus saber se a espera que se cumpre antes da morte estará – só? – dentro de mim. E u é?

Perseveram amigo e amado nas estrofes V e VI. Aí o poeta não folga, mas dá-se nalgo de lúdico, que enigmático: quiasma. Manobra crua, não fosse sugestiva. Será o poeta Poeta quando enfático seu dito cantado, o for de certa ideia decantada? Sano e vivo é o amigo – nós – posto tantos vão e vêm mas é o corpo historial do Outro – um povo? – quem persevera. Portanto sano, amigo, e então vivo. Vivo e sano é o amado – Eu – este estando aí em lugar nenhum senão ingenuamente, este quando em mergulho e retração vejo vindo a ser. Portanto vivo, eu, e então são. Nas VII e VIII, extraem-se amigo e amado para que a morte – prazo – enxerte-se com nada a definir antes da espera que é de todos. E ao poeta faz-se a espera o compasso principal. Antes que do prazo ‘saído’ (seja tu), será teu o amigo que não era. Antes do prazo (em si) passado, será teu, ainda, o eu que era sempre.

Existe o justranscendentalismo?

Este ator creía orgânico e acelerável o passo de um direito positivo, prática defasada das nações, ao horizonte totalmente compreensivo de um direito universal. Era para onde parecia convergir o progresso jurisprudencial. Era a constância reveladora e imperiosa da natureza, face a uma cultura parcialmente arruinada pela pretensão privatista.

Será preciso pensar no entanto na invalidação do pêndulo natureza–cultura para este fim. Aquela parece não revelar, antes reproduzir certas notas da cultura. E tanto ela faz com propriedade extrema. A natureza expõe a fala da cultura em sua vanguarda funcional e contraditória.

Potência deliberativa não pressupõe autonomia física:

Desde Aristóteles, lembra-nos Michel Villey, um direito qual ditames na natureza (physei) não basta para o conceito do legal (nomikon). O que há, para o primeiro grande pensador grego do fim da privacidade, é tão somente uma trama de relações sociais que se dão com e para a linguagem. O ente de direito será pois coordenador historial das grandes conversas públicas. Seu projeto de vida privada cederá à ‘nossidade’ temporalizada pelas memórias abissais e demais sabores que um povo compartilha.

Estado e Sujeito, objetos em franca construção, lidam COM e PARA as regras:

A regulação das paixões servirá o convívio da multiplicidade dos modos sem que pressupostos morais tomem da reflexão e da história dignidade taxativa. A construção do amplexo político moderno, portanto, cobrará menos e menos observação à norma que se impõe, mais às regras que se aprendem. Relembrar, como nos lembra Chauí, o ‘adequatio’ espinosano não será, porém, reanimar o utilitarismo que exterioriza a valoração afetiva. As regras nos unem, mas a marcha é interior.

As regras avançam como RETORNASSEM ao codex mundi, obsceno e original:

Este ‘como se’, lembra-nos Giannotti em sua leitura cristalina de Heidegger e Wittgenstein, é a senda do vigor que faz necessário o diuturno teste de resistência dos jogos apofânticos. Pensar e fazer também são atos de fala (atos de conformação lógica), mas a luminosa verdade jaz abscôndita, sentada na beira dos mundos. Acercar-se da verdade, na trilha virtuosa do viver, é realizar em si o movimento de retorno à originalidade obscena da força – ver e julgar o próprio desejo ‘sub specie aeternitatis’.

Retornam como deixassem para trás o entulho, o mais antes do menos impróprio, reordenando-se:

Com Rorty, teremos “dúvidas radicais e contínuas sobre os vocabulários finais” (ver ‘Private Irony and Liberal Hope’). Inclinados a filosofar, instados a decidir, usaremos a caixa de ferramentas da linguagem sem tomar palavra alguma como fundamental. Ciosos da contingência e da fragilidade das descrições correntes, aprenderemos que as justificações mais persuasivas não o são de fora para dentro, mas de dentro para fora – são “poetic achievements” cunhados pelas mentes de grandes pensadores com talento para redescrição.

APRIMORANDO código em concórdia – lúcida e estimulante:

Haverá, pergunta o ator, entre o direito positivo e o direito universal a brecha propositiva de um direito transcedental que amplie o quórum geracional e mantenha o ideal do justo ‘uno apud omnes’? O conceito de limite, por exemplo, serve ao conforto do outro ou ao destaque de si? Este ator crê na segunda hipótese, sendo a verdade do direito não a contrição, mas o estímulo à produção.

Tornando o que dizemos ‘nós’ um grupo cada vez mais abrangente ao incluir MODOS DIGNOS DE SI – desde aquilo que os especifica e interessa-nos

Multimotívica composição pública, a construção política da cidade dissolve Estado e Sujeito na mediação técnica e narrativa das falas, abrindo o mundo aos que se abrem. Surge o que há de ser das tramas do dizer. É o “chamado dos deuses”, diz Gannotti, “que, mesmo distanciando-se ou afastando-se, atinge a terra sempre em luta amorosa com o céu, aquela se recolhendo, este elevando os entes até o vagar do sol e o luminar das estrelas.”