Existe o justranscendentalismo?

Este ator creía orgânico e acelerável o passo de um direito positivo, prática defasada das nações, ao horizonte totalmente compreensivo de um direito universal. Era para onde parecia convergir o progresso jurisprudencial. Era a constância reveladora e imperiosa da natureza, face a uma cultura parcialmente arruinada pela pretensão privatista.

Será preciso pensar no entanto na invalidação do pêndulo natureza–cultura para este fim. Aquela parece não revelar, antes reproduzir certas notas da cultura. E tanto ela faz com propriedade extrema. A natureza expõe a fala da cultura em sua vanguarda funcional e contraditória.

Potência deliberativa não pressupõe autonomia física:

Desde Aristóteles, lembra-nos Michel Villey, um direito qual ditames na natureza (physei) não basta para o conceito do legal (nomikon). O que há, para o primeiro grande pensador grego do fim da privacidade, é tão somente uma trama de relações sociais que se dão com e para a linguagem. O ente de direito será pois coordenador historial das grandes conversas públicas. Seu projeto de vida privada cederá à ‘nossidade’ temporalizada pelas memórias abissais e demais sabores que um povo compartilha.

Estado e Sujeito, objetos em franca construção, lidam COM e PARA as regras:

A regulação das paixões servirá o convívio da multiplicidade dos modos sem que pressupostos morais tomem da reflexão e da história dignidade taxativa. A construção do amplexo político moderno, portanto, cobrará menos e menos observação à norma que se impõe, mais às regras que se aprendem. Relembrar, como nos lembra Chauí, o ‘adequatio’ espinosano não será, porém, reanimar o utilitarismo que exterioriza a valoração afetiva. As regras nos unem, mas a marcha é interior.

As regras avançam como RETORNASSEM ao codex mundi, obsceno e original:

Este ‘como se’, lembra-nos Giannotti em sua leitura cristalina de Heidegger e Wittgenstein, é a senda do vigor que faz necessário o diuturno teste de resistência dos jogos apofânticos. Pensar e fazer também são atos de fala (atos de conformação lógica), mas a luminosa verdade jaz abscôndita, sentada na beira dos mundos. Acercar-se da verdade, na trilha virtuosa do viver, é realizar em si o movimento de retorno à originalidade obscena da força – ver e julgar o próprio desejo ‘sub specie aeternitatis’.

Retornam como deixassem para trás o entulho, o mais antes do menos impróprio, reordenando-se:

Com Rorty, teremos “dúvidas radicais e contínuas sobre os vocabulários finais” (ver ‘Private Irony and Liberal Hope’). Inclinados a filosofar, instados a decidir, usaremos a caixa de ferramentas da linguagem sem tomar palavra alguma como fundamental. Ciosos da contingência e da fragilidade das descrições correntes, aprenderemos que as justificações mais persuasivas não o são de fora para dentro, mas de dentro para fora – são “poetic achievements” cunhados pelas mentes de grandes pensadores com talento para redescrição.

APRIMORANDO código em concórdia – lúcida e estimulante:

Haverá, pergunta o ator, entre o direito positivo e o direito universal a brecha propositiva de um direito transcedental que amplie o quórum geracional e mantenha o ideal do justo ‘uno apud omnes’? O conceito de limite, por exemplo, serve ao conforto do outro ou ao destaque de si? Este ator crê na segunda hipótese, sendo a verdade do direito não a contrição, mas o estímulo à produção.

Tornando o que dizemos ‘nós’ um grupo cada vez mais abrangente ao incluir MODOS DIGNOS DE SI – desde aquilo que os especifica e interessa-nos

Multimotívica composição pública, a construção política da cidade dissolve Estado e Sujeito na mediação técnica e narrativa das falas, abrindo o mundo aos que se abrem. Surge o que há de ser das tramas do dizer. É o “chamado dos deuses”, diz Gannotti, “que, mesmo distanciando-se ou afastando-se, atinge a terra sempre em luta amorosa com o céu, aquela se recolhendo, este elevando os entes até o vagar do sol e o luminar das estrelas.”

BR22

Até as eleições de 2022, o eleitor poderá conversar ou estudar, descrever a si e aos próximos, uma teoria de Estado: o que queremos do Estado e por quê.

Gosto de enfrentar questões difíceis desenhando esquemas. Quando não sei o nome exato de uma ideia, tento aproximá-la de um arquétipo. Aos poucos, esquemas arquetípicos revelam, nos meandros de seus nexos, conceitos e proposições mais úteis, que não chegariam de imediato.

São três, assim, as ontologias estatizantes possíveis ao objeto BR22. Direi LATAM, para designar a história da América Latina; EUA, para designar a superpotência norte-americana; BRICS, para designar o avanço chinês.

Não aposto ser possível pedir uma, em negação às outras. O mais provável é o país equilibrar-se, como quem corrige de novo e de novo o centro de massa enquanto encena danças.

LATAM :: faz do Estado o contínuo Europeu Cristão cioso da Física (ressurgimento ecológico e urgência ambiental)

EUA :: faz do Estado a guarda imperial da Obra e da Formação (esperanto socioeconômico e transformação do acesso ao Saber)

BRICS :: faz do Estado o movimento audaz e familiar da Invenção (da força do empirismo, o evangelho do convívio)

Não escolher será cultivar os três modos. Compor, nas Câmaras como nas Côrtes e na Execução, quadros e projetos capazes de aliar agenda nacional a sensibilidade global.

Consequentemente, o eleitor aproveitará o assunto para aprofundar a conversa em direção a uma teoria do Direito. Este é assunto para outra postagem, mas favor antecipar as seguintes provocações:

– Potência deliberativa não pressupõe autonomia física;

– Estado e Sujeito, objetos em franca construção, lidam COM e PARA as regras;

– As regras avançam como RETORNASSEM ao codex mundi, obsceno e original;

– Retornam como deixassem para trás o entulho, o mais antes do menos impróprio, reordenando-se;

– APRIMORANDO código em concórdia – lúcida e estimulante

– Tornando o que dizemos ‘nós’ um grupo cada vez mais abrangente ao incluir MODOS DIGNOS DE SI – desde aquilo que os especifica e interessa-nos

Duas Sicílias

É com fruída alegria que comunicamos o lançamento deste novíssimo poemário. São 40 páginas em 11×16 cm impressas em tipo Sirenne Eighteen fechadas em costura francesa na prestativa e atenciosa gráfica Cinelândia, há mais de 90 anos no centro de São Paulo.

Aqui você clica e lê a íntegra das páginas. Gostando e querendo um, escreva para casa@tourobengala.com e encomende o seu. Boa leitura! 🙂

se as polaróides do kóvski numa noite de inverno um entanto