Alto e hábil

Se a quem escreve no que faz não valerá viver só de viés, rebatida, pré-texto, viver de sincera fala, de dito nenhum, por hábito construtor valher-lhe-á lapidar habilidades. Partícipe da história e cuidador das regras é a agência havendo-se altaneira da força passageira. Porque faz, é fáctil e fiscal, mas é também entrância na grande conversa. Esta abertura ao que se abre admite e amansa, ainda que a bestial violência se faça encaixar, árduas passsagens de troca e comunicação, na concessão à sintomática da agonia. O homem vencido pela história procura na forma a nova amante. Ela foge e é vingativa. Dela ele não há senão o calo; dele ela não quer porque já tem. Fadada à nova: a reencenação do abandono.

Quando é por seu turno pragmática, informa a agonia ser melhor não buscar fora o que é de dentro. Pragmática agonia: liberdade para amanhecer tendo deixado o que ora avanço. Neste corpo será a vida corpórea. Idioma ergonômico na eficácia da modificação. Dissimular a profecia do Desafastamento em clássica competição.

Não há dessarte um ‘contra abstrato tempo’ como se forma e devir custassem menos que ideia e ordem. Antes, seu corpo a padecer dará mais privação a ver do que existência; da morte que acorda postergar do que das sanjas da natividade; do estático dado em presença do que do real maravilhoso. Porque sabe o seu, ela procurará perpetuamente ao novo equilíbrio a persentida errância dos jogos sociais, seus límiles dínamos de contar e de conta.

Sem pensar, ganha o objeto o próprio dos afins ambientais. O movimento é conflagração centrípeta indiferente entre vontade e entendimento. Noticiado, o sucesso inspira os mitos. Derrama-se o sangue proverbial do sacrifício, dictum deísta que pare, rapta, representa e sopra vida. A agência legisladora do alto hábil ao mais alto e mais profundo esperará na queda da pétala o desenho de punho dum botão, ingênuo à ela e à floração… e à mente sua. Quando viço e propriedade eram tudo.

Não fará o fácil da criança. Fará o superior da faculdade incessante. Mais cioso do cômodo e do incômodo1 do ridículo desejo de servir2. Golpe paradoxal da fortuna, enfim poder já não tanto pensar… de tanto que pensaram! Encaixado no ferro, este no fogo, desafastado signo deste móvel, rímica bela do estio.

Amiúde entanto volta o pescador à cave santa. Seu índio tem fome, as crias, e ela. Altura herdada em obra dorme bem no bom casulo, as águas em remo trovadas, a brasa diuturna sopitada.

Prepara o recobro do calo insistente porque nela a morte morre antes das onze. Há também o jovem que desova sol a pino. Ordinária, ordenadamente geômetras3 no labor artístico dos corpos, passos gradados espectralmente para o real composicional. Ocupam como sem pensar coordenadas de ternária dívida, em trina compostura.

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1. “comodis vel incomodis”, MPF, p. 160
2. Conforme canção ‘O haver’. A declamação de Vinicius de Moraes leva o leitor aos pórticos cabalísticos da Einbildungskrafte, a Uni-info(r)-mática kantiana (“a coerção legal da mais alta cultura com a força e correção da natureza livre que sente seu próprio valor”, Crítica da faculdade de julgar, trad. Fernando Costa Mattos, Editora Vozes, Editora Universitária São Francisco, 2021) reatar por ideal coletivista a mesma aduaneira política atribuída ao liceu ateniense. Eis a força do desempate de Descartes, conquanto o idealismo da fé e o rigor da publicidade destravem suas posições desde o adendo ora ensaiado. Foi posto sedimento entulhado das leviandades fracas e afasta mecanicamente o cogito da ‘res’ cartesiana incorruptível e indefinível (MPF, p. 36) o falatório, mas é mesmo por certo, que se faz.
3. MPF, p. 36

Um ócio desgraçado

Há poucos dias publiquei no twitter o desenho inicial de um Sistema Filosófico. Tive que abandonar diversos projetos para viabilizá-lo e sua maturação vem vindo lenta e firme como se décadas virassem meses.

Porque leio pouco mas atentamente, foi o caso renunciar também a incontáveis leituras. Assumidas escolas, sendo que o que têm são métodos, jamais conteúdos que se distingam.

Fora da escola, porém, já não se perde mais, a preocupação com o próximo. Da síntese e do esquema a disciplina anula o desvio das ondas e o que resta mais se assemelhará a morder frutos da poesia que é, a da gravação do verbo. Verbo, termo que já foi assunto da Ciência, como no ensaio categorial pré-cristão; que hoje é sensação apenas, tal e qual na notícia joanina1.

O habitat horizontino do verbo, lógicas lojas por que correm os corres, padecerá entretanto hipocraticamente de um distúrbio que nós, os cultores desta responsabilidade, nele atuaremos como perguntássemos: estaremos a pleno, a remediar as muitas estases por trás das quais decai abandonado o pulso da Natividade?

Tamanha aflição, tão parco tempo…

Um tempo que aos poucos percebi… só passava no relógio! Quando, eu quis saber, quando e por que passaria também este meu tempo na História, lapidada caligrafia a copiar versos raros e belos, de tão brumado e longe, tempo que mais parecia o grosso silêncio do espaço?

As buscas levaram a uma importante atualização no cânone; esta, passo a compartilhar com o devido cuidado. A aflição, encontrada pela resoluta tença hermenêutica, deu para ganhar os rastos de um contorno fugidio. Desenho a crescer, conforme seus afins, e a repelir também sem penso, naturalizando cultura por assim dizer às cegas.

Já era mais que nada – crescer opondo o texto ao grave tronco –, mas não era, visto por si, concreto. Eis a desgraçada, vontade é seu nome, inteligência a alfândega. Assim, pensa quem escreve no que faz, assim será viver só de viés, de rebatida, de pré-texto, de sincera fala, de dito nenhum. Verbo construtor, neste ócio, será na mais bela hipótese fática fé2, e na dada circunstância de preparo que vivemos, preguiça.

A busca quando diz propicia, no horizonte, o verbo de um nascido instante. Tal mito contará, como sempre tentou, a agonia de servir para algo quando se vem do futuro. O que a sistemática filosófica cristã portanto não tragara seria menos celebração da forma, cada uma a renascer do inverno, mais a ergonomia da récita depois da reticência que perpassa todas as estações, alargando-as e unindo-as.

Se pode afugentar a pressa e surfar as estruturas, o orientalismo de cepa milenarista, como o tradicional, em absoluto desagarrará do cinismo que de barra a volante fez-se à literatura desenganada mas excessivamente pós-guerreana.

Cansados para voltar ao campo, os sistemas filosóficos centenários desfizeram-se em extremosa militância por campanhas editoriais e publicização corporativa. Mas por que apareceu-me claramente atravessável a diferença pré-Cartesiana, ainda inercialmente científica, da exegese cristã, e a pós-Cartesiana, afoitamente poética, algo haveria de haver nos dois primários exemplos de dúvida do autor, em suas Meditações (i) como sei que 2+3 será sempre igual a 5?; ii) como sei que o triângulo SEMPRE terá soma interna de ângulos igual a 180 graus?)3 que destravassem, tirassem a empresa do sistema filosófico dos armários envergonhados e tornassem a renascença digital do terceiro milênio um corpo cioso de que é função de sua potência, a aceleração, antes que fruto da imaginação.

Este curso deveria, além de um passo pois do orientalismo iogue em suas duas vertentes, de um passo no sentido de dignificação ao assombrado ensaio de filosofia, sujeitar-se por tradição às lógicas ociosas dos métodos. Sem maiores reclamações, o ócio do dia a dia fere o mundo desgostoso por ter tanto a quase-hackear, a quase-usar. E justo a plácida pescaria metodorial (internet, dicionários, um caderno) causará, do jeito que as coisas hão de caminhar, mais e mais convites a sumários abandonos por ainda mais correções na errância significativa do trabalho.

A dialética pré-cartesiana (cristã, grega e hebraica (céu e terra, nômo e rêma, pai e filho))4, como a dialética pós-cartesiana (teoria e prática)5 ganha aqui um circuito ternário, veremos nas postagens a seguir, em que o objeto e o sujeito serão tão importantes quanto a natividade e a nutrição.

A história pregressa do objeto é a nostalgia fundadora da inconstância volitiva do sujeito que só fará melhor ou piores nutrições – fixando, entretanto, na concomitância entre contingência e pervivência, seu amor no sucesso incontestável do antecessor. Porque tenta mas não consegue voltar a ser objeto, o sujeito ato contínuo se apoia na flutuação espumácea da Qualidade. O objeto, por sua vez, ganhou o que ganhou sem pensar.

Tal é o transtorno. Sublimada ou não sublimada nas armas que se acusam, cada aflição é feita busca mas haver-se-á nas torções a si famosas, buscando buscas conhecidas e torcendo mais um pouco um tronco lento para a história, lânguido para a forma, de pouco estadeando, haurindo luz da luz como abrindo trechos novos nos bosques para uso.

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  1. “In principio erat Verbum et Verbum erat apud Deum et Deus erat Verbum”, p. 1658, Biblia Sacra, Iuxta Vulgatam Versione, Robert Weber, Roger Gryson, Sociedade Bíblica do Brasil, Deutsche Bibel Gesellschaft, 2007
  2. O Dasein “já projetou pré-ontologicamente algo como existência e ser”, ênfase nossa, p. 859, Sein und Zeit, 19ª edição, Max Niemeyer Verlag, 2006, vertida por Fausto Castilho, Editora da Unicamp, Editora Vozes, 2021
  3. Ver “consuetudine credendi”, Meditationes de prima philosophia, René Descartes, Fausto Castilho, Editora da Unicamp, 2013 (doravante MPF)
  4. Ver, respectivamente, Gênesis (Velho Testamento), Da Hermenêutica (Aristóteles), Evangelho (Novo Testamento)
  5. Ver a terceira crítica de Kant