Inti Samba

Era absurdo zoar o estilo popular de Lula. Porque vinha de onde vinha, isto é, de um dos mais importantes movimentos progressistas do século 20, o sindicalismo, e por coparir o primeiro Partido brasileiro genuinamente trabalhista, o PT, a gente esclarecida policiava a gente mais espontânea quando esta tossia sua frustração pequeno-burguesa projetando-a num homem supostamente sem preparo, sem elegância, sem noção, improvisador, aquém da altura, enfim, do cargo que ocupava. A gente esclarecida enquadrava qualquer opinião ofensiva à imagem de Lula como ignorância histórica e cegueira social duma classe médiazinha branco-sulista que se confunde com o próprio atraso do país. 

Mas não se tratava de ir ou não ir com a cara do Presidente. Sim de aceitar que, aos trancos e barrancos, Lula dava sequência mais ou menos meritosa à atualização republicana de Itamar e FHC. Se gambiarras imediatistas marcaram algumas das transformações mais importantes de seus dois mandatos, não foi diferente nos anos do PSDB. A própria estabilização da moeda foi (ou não foi?) um ajuste inusitado e arriscado cujo sucesso é esta sorte de alvorada rediviva a nos querer mais maduros do que, até aqui, a história ela mesma nos permite.

Incompetência, pressa, afasia teleológica, rabo preso, orgulho partidário e corrupção repetem-se amiúde baixo os mais neuróticos disfarces. A lição zero um da administração pública, a de que gastamos, nós o Estado, nem muito nem pouco, mas mal, é a mais resfriada das platitudes políticas deste falso paraíso, e bamboleia, clichê mofado ou peça sem encaixe, ao largo dos diagnósticos críticos da situação. Confundimos estratégia e visão de longo prazo com vontade de subir nas pesquisas, vencer discussões, rebater jornalismos, mostrar pra eles como se faz – porque o estágio desta infanta democracia assim requer, ou assim permite. (Mas quem permitirá mesmo não seremos nós, o Estado, quando o emprestamos ao despreparo e ao assalto em nome da governabilidade – este vício medonho que leiloa a razão e envergonha as gerações futuras?)

O mundo deu lá suas voltas, e hoje a gente esclarecida precisa zoar o estilo popular de Bolsonaro contra o absurdo de sua falta de preparo, de elegância, de noção, seus improvisos e sua altura, enfim, aquém do cargo que ocupa. Não zoá-lo é enquadrado como ignorância histórica e cegueira social da classe médiazinha branco-sulista que se confunde com o próprio atraso do país. 

Bolsonaro vem no entanto de um dos mais importantes movimentos republicanos do Brasil, este que, antes mesmo de 1889, acordava cedo, acampava, exercitava o corpo, enfrentava intempéries e temeridades para salvar um rascunho pátrio – nem que a golpes (ou não foi?). Que um dia, garantidas substância e extensão, firmar-se-iam as gerações capazes de vingar a dor, a exploração, o mando perdulário dos que aqui aportavam para tirar para si e para fora sem comungar com parceiros colonos a devoção pela terra. Somos filhos de Lula, este tipo que se vê em quase cada esquina brasileira, o quanto o somos de Bolsonaro, este tipo que em quase cada esquina brasileira se vê.

Nota sobre o cinema do XXI

Onde está o lugar do cinema no bastão da virada do século? Dele, a próxima forma nascerá todos os dias quando engajados caminham os paráclitos do Espírito?

Assistimos a muita coisa.

Ainda assim, seria preciso provar a falsa decadência de uma forma apenas residual, aposentada pela vanguarda, exibindo o fenômeno que a consumou, a saber, a mimese da crítica, bastão esta (um endobastão) do cinema de autor.

Plantada pelos famosos franceses da novelle vague, a tendência concretiza-se na tríade de sumo arquetípico Michel Gondry (1963), Charlie Kaufman (1958) e Spike Jonze (1969).

Serão os três respectivamente i) a atitude do clown, ii) o sopro do ministro, iii) a coragem do repórter. Suas escolas, o experimentalismo vaudevillesco, o judaísmo cosmopolita, o videoclip. Bastam para satisfazer o truco desta completude categórica de avanço universalista no que resta e interessa do cinema dos 2000 para cá.

Gondry cruzou as platitudes suburbanas exigindo mágica da imagem em movimento. Observá-lo como o coach deste vigor mais fresco e original, remando contra a corrente das ‘facilitações’ digitais depõe com brilho a favor do pressuposto mecânico e material da forma expressiva em sua consequência de verdade e duração.

Quem nunca experimentou a construção do cinema em sua concreção analógica não está desautorizado a tentá-lo. Mas porque nasceu como nasceu, o cinema será para sempre avaliado, como experiência estética, a partir do que tenta e consegue em sua essência procedural mínima e comum. Gondry eventualmente não ceder ao truque resfriado da computação gráfica lembrará seus fãs de que contra um mundo desencantado, só o autêntico encanto da arte – os truques quentes da técnica tradicional – salva.

Procedimento e matéria, o enxágue luminário do mundo, serão importantes a ponto de Bergman não alugar ou arrendar, mas definitivamente habitar a ilha que será sua locação. A ponto de Hitchcock dizer que não, não é um pedaço da vida, o cinema. É um pedaço de bolo. A ponto de Tarkovsky esperar meses e meses o trigo plantado pela equipe num prado crescer para, só então, rodar a cena.

Em O Bebê de Rosemary, famosa resta a cena de bastidor, disponível no making of, quando Polanski de novo e de novo rearranja o braço de Mia Farrow sobre a mesa. Não raro atrizes que anos mais tarde afirmarão em entrevistas tocantes a indisponibilidade definitiva de trabalhar com Lars Von Triers.

Teimosias por assim dizer herzoguianas, navios sobre montanhas amazônicas, atiçaram estúdios a enquadrar, encapsular intimoratos artistas em soluções de prateleiras e focus groups de ‘entendimento’ de diálogos e sequências. Não a toa, os filmes daqueles que não se deixam domar são os que seguiremos assistindo e colecionando.

Quando vai tratar a inflação autoral intimorata instituindo o filme da produção executiva, Hollywood trola o talento, num mecanismo perverso de descarte premiado. O assunto é muito bem contado por Lynch no obsessivo “this is the girl” que antecede o empastelamento de um carro de luxo pelo taco de golf do diretor em Mulholland Drive.

É trolagem e descarte premiado porque o cinema de autor norte-americano nasce a um tempo viabilizando e negando o trono da produção executiva. Tubarão, de Spielberg, é o emblema deste tempo novo anunciado na missão renovada, um pouquinho mais complicada, a demandar do artesão, além de técnica, habilidade para calar a boca de quem se faz de mandachuva mas não manja do metiê.

A onda autoral norte-americana de Coppola, Lucas e Scorcese vai dar, graças a uma porção de eventos felizes, no seio de um paradoxo explícito: o mais novo e famoso cinema é dos homens de negócio, estes que não são mais homens de negócio apenas porque não morreram na praia da indiferenciação.

Homens que internalizam o sal tutor de um pai como Akira Kurosawa sem deixar dormir o touro indomável da criação.

Testemunhar a afirmação relevante do discurso post-mortem de uma expressão artística é vê-la florir a despeito de teses e movimentos.

Discurso post-mortem ou sobrevida, posto que o divórcio da vanguarda de modo algum totaliza a negação da tradição. Apenas a põe de lado, bibelô querido num altar, e toca em frente suas aflições, desimpedindo a antiga aliança aos gozos renovados das latências em timbre de homenagem, comemoração, autorreferenciação e metalinguagens pedagógicas.

A crítica do cinema, aqui, é a embocadura mesma deste oroborismo de resto antecipado desde os boons dos franceses aparecendo. Sua evolução, entretanto, extrai a confusão e reforça a essência poética do dizer do cinema. O cinema não é tudo isso, diziam os carriers, porque não vale a pena deixar de brincar. Não vale a pena deixar de brincar, disseram na antessala de Star Wars, mas burlar também é uma arte.

De modo que Kaufmann, leitor de romances, imaginador do teatro e trickster das rádios, manipulará dobras frescas na tradição lastreando-as em seu tronco originário – o texto. Só então albergará o sonho nas limitações brincantes e burlativas das gravações de luz e som e na montagem.

Kaufman faz sem sensacionalismo o bastante para ruborizar um quartel de surrealistas, e perguntamo-nos de onde, de um claro azul de céu sobre a topografia, a crítica hospedada na forma, signo de sua sobrevida cultista, nasce tal sorte de esquematismo virtuoso aliado a inventividade em tal potência que altíssimos investimentos em desenho de produção também restariam constrangidos.

O fenômeno, para variar, não é teoricamente lógico. É, antes, contingência solidária ao estágio tecnológica (no sentido vegetativo) das especificidades do longametragem.

Dos rascunhos à exibição, o cinema imaginativo de Kaufman operará para compensar a culpa da vida insuficiente numa ressurreição paternal. Olhará a tradição como sua filha; proverá o que ela não soube, infelizmente, alcançar. Por isso é crítica, não mais cinema apenas.

Antes da onda francesa, no entanto, houve a Segunda Grande Guerra. Dela, cinematógrafos de pulso semi-suicida retornaram para chutar a porta da gramática temerosa, gravar som diretamente e elencar pescadores para protagonizar falas antes delegadas a atores ‘profissionais’.

Desta estirpe nasce a câmera na mão, a luz natural (coragem que amalgamou o Dogma mas, de forma estupenda, é adotada em 2018 por Eastwood em A Mula), o não ator, o imbricamento dos modos documentais e imaginativos, e logra em seu rebento lúdico, amadoríssimo e hiperdemocrático, a handycam de fatura VHS, o desafio aos realizadores de declararem-se diante de um teto baixo ou de, por que não, de um chão alto.

O videoclip de Praise You, música de Fatboy Slim, ainda não foi superado por flashmob digital nenhuma, e são bilhões tentando diariamente. Por quê?

Spike Jonze, parceiro de Kaufman em Quero ser John Malkovich (1999), aliará a lealdade convicta do truque quente da manobra da gravação à visada etnográfica de quem roda o mundo urbano leve, discreto em sua BMX, reconhecendo das tribos seus códigos mais íntimos e então reproduzindo-os como bem entende ou pode, caindo de pé e adensando o repertório de um tarô deveras singular, mas esponjoso o bastante para torná-lo tesouro da diversidade.

O brilho eterno de uma mente sem lembrança‘ (2004), comédia romântica que une lirismo folk e neurosciência num dos casais mais saudosos do cinema recente, é parceria de Kaufman e Gondry sobre mácula, decepção e fé.

O esquecimento de si, nem em Malkovich, nem em Brilho eterno, resultam condignos de uma humanidade dissipada pelas traições da modernidade.

Clown, ministro e repórter montam nesses dois mundos de invejável simplicidade e sofisticação técnica o adro e senda de um pessimismo alegre, aparentemente labiríntico se o sujeito indispõe da chave-mestra da poesia, cruel se ele a joga fora.

Ser moderno, dificuldade que pressupõe diplomacia cósmica e um querer fundador – carpir ontologias sem deixar de habitar múltiplos objetos – será o dilema filosófico comum às duas peripécias, tão drasticamente diversas na superfície graças às mãos de Jonze e Gondry.

Kaufman coloca a questão da subjetividade esvaziada pela decepção, súbito largada numa beira de estrada, sem ter aonde ir quando cessa o simulacro (comprar isto ou aquilo, ser outro por um tempo, abandonar, mentir, trair, trocar responsabilidade por coletivos etc). Pior: propõe a institucionalização do esquecimento, manobra ardilosa, infelizmente profética, contra a confusão patente entre ‘virar a página’ e ‘não lavar a louça’, síndrome atualíssima entre vídeos que duram cinco segundos e trastes quase humanos que fingem não responder por si.

Retórica filosófica rende mais no Direito

A modernidade, período entre a revolução da Idade Média e a internet caracterizado pela cessão, da Religião à Organização, da fábrica dominante de vocabulários e valorações, pôs três desafios à filosofia: tratar da saúde mental com a psicanálise, desmistificar a política com a sociologia, simplificar o Direito.

As duas primeiras tarefas estão resolvidas. Muito do que era problema mental passou à materialidade da terapêutica preventiva. Paralelo, muito do entulho ideológico rendeu-se à organização empresarial da agência pública.

O desafio diante de nós, desde as profundas raízes filosóficas até seus duvidosos semblantes, agora, é a codificação da vida comum.

Vale a pena ler, em Cinco Nomes Brasileiros, a visão da personagem Gonçalves Ledo sobre a evolução jurídica. Não vou me repetir, mas numa casca de noz sua tese é a de que um Direito que nasce belicoso, adensa-se natural e matura contratualista, pode rumar, tecnologicamente, ao lugar novo do ‘universalismo estimulante’.

Cansado das ineficiências do prestidigitacionismo e do punitivismo (as fraquezas da fala que teme muitos erros e fantasia punições), esta importante ferramenta que garante a prosperidade na complexidade pode exercitar a possibilidade de, sem deixar de balizar, estimular em primeiro lugar.

É importante entretanto que a ânsia não se imponha à espera aplicada.

Pendularmente falando, será ora mais da ponta escolástica da exegese católica que a cadência virá. Ou, mais natureza e ecologia, menos cidade e economia.

A retórica, produto citadino, é um dos objetos que saem perdendo para viver.

O que era um desafio, assim (largar os vícios da psicanálise e da sociologia), viram dois (largar os vícios da psicanálise e da sociologia + fazer sucesso com o filho do Homer Simpson). Não porque de repente ele é capaz de ameaçar, mas pela oportunidade aceleracionista inoculável conforme aproximações felizes aos fluxos hipertextuais.

A perda maior da fala filosófica é a ironia. Toda e cada ambiguidade inoperante assim as acusam bandeiradas graças à prevalência da maior inteligência nas redes neurais.

A segunda perda advém da intolerância deste Espírito Santo que se tornou a inteligência nas redes neurais. Está castrador viver fora do camelô, numa casca de noz.

Então, quando anunciam coordenação de espelhos no espaço para mensurar a massa escura, ou quando pousam robôs em cometas, cada homem e mulher questiona à noite em sua solidão tremenda e bela no milagre da vida o que o camelô teve que ver com tais façanhas.

Nosso poder tocaria projetos tão difíceis? Influenciar estudos de décadas e bilhões nas mãos de poucos, é coisa nossa?

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A fixação pelo poder de não morrer e prosperar (grandes achados da psicanálise e da sociologia) fez a gente confundir, graças ao Direito defensivo demais de um mundo que cresceu, no temor das diferenças, conquistando, soberania do sujeito com chance de submeter: será pela decadência do outro que restarei eu contente.

A culpa é da fala do Direito, cuja maturação em má postura talhou a transgressão à imagem do desejo.

Não é segredo para ninguém que num país como o Brasil, ou se segue as leis certinho, ou se tem muito dinheiro. Nenhuma das duas coisas não dá.

Tal clichê é sintoma da inoperância (erro, excesso, ou bug) deste incesto: as leis são a sala de espera do mercado. De tudo o que a cultura inventou, o mercado escolheu a menos imaginativa das falas para desenhar seu círculo de giz. Dentro, pode brincar conosco. Fora, vença-nos. Por quê?

Porque quando herdou o mundo religioso, a organização econômica comprou, na lebre da influência, o gato do militarismo.

Este ‘fora’, enquanto ‘fora da lei’, não raro sucede, em nosso imaginário, no ferramental militar da execução, da sujeição e da conquista.

O Direito, guarita da vida na cidade, dá forma aos sofrimentos do medo radical de morrer e de ser passado para trás na tensão reta e binária, hierárquica e sumária, entre gozo e transgressão.

Fecha-se, assim, a tríade marmórea, ou material da arte filosófica moderna.

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Dissociar o Direito de seu quadrado romano, porém, não será apenas regredir a conversa ao encantamento da intelectualidade mística, por mais voga que essa contracultura hoje cultue. Será, inclusive, ler nas utopias contemporâneas os futurismos esforçados em fazer mais com menos.

Método, disciplina, mensuração, controle, eclodem dos mosteiros à burguesia mas aqui esmaecem. Por quê? Porque vulgarizam-se quando associados às ansiedades?

O romance, quando equivalente ao Netflix, nasceu didático e não resistiu à decadência e à autoimplosão. Sua jornada tão rica pode ser lida também como sintoma: a tristeza do poeta (o espírito do tempo) diante da apropriação econômica da nobreza das campanhas de conquista de mercados e aculturação via consumo era uma traição militar. Por isso recolheu-se à símile da loucura e do abandono, o romance, até sumir.

O que nem os poetas, no entanto, poderiam imaginar naquela altura, é que a nobreza do Cruzado se safava naquilo tudo o que, em verdade, precedia as campanhas mas nunca as acompanhava. Aquilo tudo que São Inácio vê quando pendura as armas e vai à obra: proceder é

com ordem e concerto, e com a faculdade íntegra para fazermos constituições entre nós, segundo nosso modo de viver julgar mais conveniente

Para que entendamos a importância de se aplicar hierarquia não nas distrações, mas naquilo que importa, leiamos com calma o que diz São Inácio.

Ordem e concerto são o princípio desta recomendação, recolhida de correspondência pessoal datada de 1539, quando nascia a Companhia de Jesus. Conceitos indisputáveis a qualquer razão, ordem e concerto frequentam os cumes da relevância ocidental e também eurasiática e oriental — prova de um universalismo, pretendido ou não, real.

Em seguida, predicado e verbo indicam as duas colunas do engenho civilizacional: apenas o discernimento ideal tirará da ação o bom fruto.

Por fim, um misterioso açular, também confundido, mas sem inoperância, com a facilitação ou o estímulo: nem final, nem teórico, o moralismo do dia a dia é sobretudo contextual.

Lembremos: apontar um sítio não é chegar lá. Jornada é gozo contínuo, mas confronto tende ao elogio da burla.

A espera a que nos guardará a revolução do Direito na era da internet será esta de passos rumo à bioconstrução dos códigos universais, termo a termo, linha a linha, Estado nacional a Estado nacional.

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Da família: capítulo II.3

Na seção II, dedicada ao arquétipo da Mãe, o terceiro capítulo (Mãe Bahia) traz um texto dramático sobre a Insurreição Praieira. Como introito e pano de fundo, comentários sobre o poema Auto do frade, de João Cabral de Melo Neto.

LEIA AQUI O CAPÍTULO II.3 do livro Da família: um longo ensaio imaginativo

Da família: capítulo III.5

Neste capítulo, a ideia da escola é retomada com a ajuda do filósofo e educador norte-americano John Dewey. O elemento central, no entanto, não é a Escola, mas a Previdência. Questão longe de resolução no Brasil e no mundo, a perspectiva pública a uma sociedade que aos poucos envelhece merece novas e mais arejadas formas de ser discutida. Proponho, num breve conto de ficção científica, a criação de uma estatal (OZ) que irá empregar os mais experimentados cérebros da sociedade na função objetiva de regulação econômica.

LEIA AQUI O CAPÍTULO III.5 do livro Da família: um longo ensaio imaginativo

Da família: capítulo I.2

Aproveito o clima de transição, em que os assuntos circulam tensionados nas prioridades evidentes, para alimentar a discussão de uma prioridade implícita e não raro carente da devida atenção: a Escola.

No link abaixo, o capítulo I.2 de meu livro-ensaio publicado em 2017 pode ser lido na íntegra. Entre outros assuntos, começo a esboçar a ideia de uma escola pública, a meu ver, atual e possível.

LEIA AQUI O CAPÍTULO I.2 do livro Da família: um longo ensaio imaginativo

POLIGRADO

Este esboço tenta apresentar uma expressão possível de Razão de Estado.

Parte do pressuposto de que a mais originária relação Estado–povo tende à experiência do aprendizado. Formas eventualmente desastrosas dessa relação ao longo da história tenderiam portanto ao sumiço por não poder entender a natureza do aprendizado.

Para nós e desde já, aprendizado é a poética da organização; são os passos no sentido ao chão melhor.

A interface cidadã de avaliação holística – ou Poligrado – pode ser instalada em governos eletrônicos com forte correlação, por exemplo, a descontos na tributação das pessoas. Ao fim de um exercício, seu coeficiente CIT é multiplicado pela possibilidade de desconto no Imposto Agregado (sobre toda sua renda e todo seu consumo).

O usuário pode ser avaliado momento a momento, dia a dia, semana a semana etc, de acordo com parâmetros emprestados à expectativa epocal e às contingências individuais. Pontua de ZERO a UM, em cada um dos sete aspectos (realms da vida social) do poliedro, sendo reconhecido e/ou recompensado pela média simples e dinâmica CIT.

Idade, ocupação, localização, índices fisiológicos, objetivos para o ano (mudar o índice de colesterol, correr a São Silvestre etc) e situação socioeconômica indicam um regime aconselhável para o corpo. Não em alimentos específicos, mas em nutrientes, quantidades e frequências. O desafio é buscar o necessário sem abrir mão da aventura dos ingredientes, seus múltiplos preparos e funções bioenergéticas.

Idade, ocupação, localização, índices fisiológicos, objetivos para o ano (passar no vestibular, curar dores crônicas etc) indicam o trabalho aconselhável para o corpo. A rotina de exercícios para tonificação muscular, resistência, equilíbrio e qualidade de movimentos observada diária e semanalmente é constantemente atualizada a partir das respostas lidas pelo programa. Além da ginástica propriamente, o usuário pode optar por ser lembrado, ao longo do dia, de oportunidades de ‘exercício fora de hora’ que o ajudarão a antecipar a meta de trabalho em ocasiões como a fila do banco (onde é possível ficar num pé só e recrutar a musculatura transversa), a demora de uma ligação ao telemarketing (em que é possível realizar diversas respirações com a contração do abdômen) etc.

Cuidar do corpo, íntimo habitat, leva o usuário a cuidar da casa, corpo do corpo, morada reclusa para restauros, fazeres domésticos, cultivos próprios. Neste pequeno zoneamento, aprende-se a reconhecer as vias da limpeza, do lugar das coisas, da fluidez e da harmonia espacial. Daí se expande, por apropriação parental, um saber afim do apropriado e do leve estar até outros, mais abrangentes perímetros: o condomínio, o bairro, a cidade, a nação, o planeta, o cosmo. Sob o imperativo da necessidade e a resolução da ordem, habitua-se. Trabalha-se em vigência contínua e irrevogável pela saúde dos corpos que nos contêm. Resíduos, descartes, pegada de carbono, economia energética, inovações pela longevidade da casa. Pontuar, em EKO, é entender-se extensão da matéria comum, uno com todos os corpos.

Sua por assim dizer ocupação profissional não é, nem deve ser, o fim do mundo, do dia, das forças, da sensibilidade. O humano do terceiro milênio não é necessariamente filho de hippie com yuppie porque curte aprender e experimentar novidades, desfrutar do tempo livre para tocar o mundo com curiosidade ingênua e andar a esmo atrás de encanto. Mas dedicará boa fatia do dia à geração de renda, tão boa quanto enxuta e libertadora. Seu trabalho econômico, entretanto, é mais largo que qualquer holerite ou retirada. Incluirá as tantas outras trocas sem valor monetário explícito de que seus interesses e possibilidades são capazes. Aprender, ensinar, doar, compensar, realizar, voluntariar-se, projetar, cooperar, reformar, ceder, consertar, ler, reler e testar. O objetivo de um contato menos dinheirista e mais vantajoso com as trocas será limpar o terreno da angústia da ambição para as riquezas eternas.

Partícipe, o usuário nunca está completamente satisfeito com seu círculo. Sobram semblantes, faltam contatos. Discussões empacam em vícios circulares. Preconceitos se ossificam. O léxico enruga, perde o sabor. O que era festa ganha os ares de fastio. Buscar redes novas e próximas, ainda que a partir da postura muda do etnógrafo, torna vital manter ativo e vibrante o pulso da pertença. Investigar tradições que lhe eram estranhas, abrir caminhos e familiarizar-se expandindo de novo e de novo seu círculo.

Não é porque se trata de um experimento imaturo que abandonaremos a democracia americana ao tombo da revolução. Antes, o amigo do Poligrado verá política qual filho perturbado, sempre próximo mas coitado de tanto bullying, de tanto menos quase de tanto bocó. Sobretudo fará se ver em conversas tocando os problemas que nos tocam. Tomar partido é confiar nos cursos das jornadas concordes pelo que elas dão de horizonte, mas é também publicar um seu pensar na redação e na ação. Votar a cada dois anos não pontua tanto.

Perder-se nos objetos de arte que atraem pelo que negam do mundo em si, pelas mentiras que expõem para desdobrarem-se verdadeiros e manejáveis, pela irrelevância que superam dando vales belos a cumes incríveis. Pontuar em FIC é curar um museu para si, ser crítico e poeta a demorar-se, amoroso, não só no prazer que dá viver dentro de deuses mas também no arrepio do charme à procura de uns anjos.

O humano tem certo afã por aperfeiçoar os modos, evoluir as técnicas, entender por que quer o que queremos. Encanta os corpos e objetos na nobreza simples do pé no chão. Não pretende entregar completamente sua sensibilidade aos algoritmos na medida quase mesma em que não pode dar as costas à legalidade da inteligência artificial. Conquanto não despreze a priori nem abrace sem escolha, jogará criticamente com o advento da performatividade ubíqua. Há beleza na recompensa justa dos esforços. Se a organização dos mundos abre-se à poesia da vida, crescemos como a Natureza, sendo nosso melhor possível.

NEM ME LIXO

Porque:

1) São Paulo tem dificuldades de limpeza;

2) A contratação de “varrimento” (é muito mais que isso) está emperrada por desacordo entre poder público e pessoas jurídicas do direito privado;

3) O lixo acumulado obstrui a mobilidade e o bem-estar;

4) Está mais do que na hora de pensarmos, sociedade civil, num trato maduro com o lixo que nós mesmos produzimos (por que descartamos/aceitamos descartar o que descartamos, para onde vai tanto lixo, por que não tratamos no nível local, por que esperar que outras pessoas cuidem do descarte que é nosso etc)
5) Temos tecnologia de telecomunicação, mobilização, competição, performance, verificação e estímulo e difusão midiática;

6) As telecomunicação, mobilização, competição, performance, verificação e estímulo e difusão midiática da internet atual nos colocam ESTAGNADOS numa ‘caixa de areia’, jogando a versão degustação de sua potência instalada, beirando a neurose que resulta da frustração ou do déficit entre a potência instalada e os atos de transformação do mundo (tentando ‘resolver’ a ansiedade por meio de apelos de transgressão, como quem diz “olhem pra gente, pra nossa coragem, pro nosso tamanho” etc),

sugiro darmos o passo que NÃO SERÁ DADO POR NINGUÉM QUE NÃO NÓS:

DA CAIXA DE AREIA PARA A DEMOCRACIA.

— Como?

Operando a transição ativamente (sem esperar instruções e estímulos prontos, posto que muitas vezes aceitamos segui-los sem entender o sentido daquilo, e como aqiulo de fato colabora com a obra humana no planeta) mas começando devagarinho e docemente.

— Dá um exemplo.

Sim. Vamos crescer a ideia, aqui em sinopse, do jogo

NEM ME LIXO


• Consiste o jogo NEM ME LIXO, primeiramente,
na assunção do problema do lixo
como um problema importante e comum •

Se estivermos de acordo que
i) o problema do lixo é importante e comum,
ii) a situação emergencial justifica intervenção radicalmente inovadora, e
iii) o exercício pode ser um bom laboratório em grande escala da gradual transformação democrática (afinal, por que faríamos política à moda antiga com as ferramentas atuais?),

então, e considerando sempre
que o problema foi considerado comum e importante,
NEM ME LIXO pedirá em seguida que:

A) o contingente populacional interessado em participar se agrupa em categorias de SKILLS (por ex.: desenho e/ou fabrico de transportes leves e ferramentas de coleta; desenho e/ou fabrico de estações portáteis de tratamento (separação, adensamento, eliminação química, geração de material reciclado); desenho e/ou fabrico de objetos reciclados e soluções de reuso; mão na massa (todos));

B) o contingente populacional interessado em participar se agrupa demograficamente (distritos);

C) uma vez agrupado em uma ou mais skills, e pertencente a um distrito, você pode, na fase emergencial do jogo, ganhar preciosos pontos cósmicos (numa outra oportunidade eu revelo os detalhes dessa pontuação) conforme mostre VALOR REAL à comunidade humana e transforme visível e concretamente a situação da vida (o que de modo algum impede que a aliança mercado Estado premie as performances de modo mundano)

Atitude não será obedecer o que nos chega imposto ou pré-formatado. Isso seria tentar forçar virtude libertária em eventos cujos significados profundos, justificações públicas e consequências materiais restassem escondidos ou simplesmente ignorados.

Antes, faremos nós o desenho do jogo a partir da constatação evidente de compartilharmos uma cidade problemática, espaço público adoentado, pessoas jurídicas de direito privado essencialmente apartadas da preocupação humana, e um poder público sobrecarregado por prioridades múltiplas numa organização obsoleta.

NÃO DARÃO ESSE PASSO POR NÓS

Se não nos movermos antes, dignificando a alta potência da internet e sua genial arquitetura com um impacto de transformação em grande escala, concreto e estruturante, restaremos de novo e de novo atrofiando o cérebro na caixa de areia, falsamente livres, mas nas mãos condutoras de atores com interesses não necessariamente coincidentes com o bem comum.

Sendo esta apenas uma semente, sintam-se à vontade para crescer.

Quais os DEZ piores problemas brasileiros?

Em solidariedade à corrente, publico minha lista. A instrução é elencar a hierarquia e redigir um parágrafo a cada problema, com diagnóstico e prescrição.

1) SAÚDE

Problema ecológico central, a saúde é o maior agente econômico. Da saúde dependem a produtividade e a riqueza. O Brasil é vítima da medicina da doença, quando a medicina deve dar as coordenadas ao viço. Não se trata de uma medicina da prevenção, mas medicina do viço. Contra a medicina da doença, pela medicina do viço, está no SUS a principal empresa do Estado. Tecnologia da informação (sensores, inteligência artificial, nanorrobótica, edição genética) e revolução agronômica podem dar ao povo a mais concreta soberania da terra, a saúde do corpo. Para isso, o Estado deve antecipar, ou jogar junto a, a entrada das grandes corporações de serviços da nova medicina. Se não o fizer, apenas os mesmos 5% terão acesso às novidades. O resto terá de esperar as obsolescências dirimirem as margens de lucro e chegar, como sempre, atrasado.

2) EDUCAÇÃO

Azedo, o termo desperta pesadelos em adeptos das liberalidades da formação. Ideias como pós-schooling, self-schooling, e mesmo no-schooling, confundem-se com decisões desimportantes como escovar os dentes com cúrcuma e o movimento no-poo, que abre mão dos shampoos. Mas escola não é paranoia. É cerne estratégico do desenvolvimento, e dela dependem mão-de-obra, pesquisa, policiamento e refinamento humano e cultural. Prescrição à Nova Escola fiz neste livro. Faltou comentar a Universidade e a educação continuada. A Universidade fica, mas estritamente federal e para 30% da população (quem quer e consegue). O restante pode ser técnico, artista, desenhista, faz-tudo, roceiro, diarista, atleta e feliz longe das teses e arengadas. Além disso, imagino uma instância ainda inexistente, também pública e também excelente, responsável pela educação continuada. A escola perpétua, disponível a qualquer trabalhador afim de reciclar seus saberes e aprender, usando a novidade digital, novas artes e conceitos.

3) INFRAESTRUTURA

As redes brasileiras despencam, e a cada furo damos novos e seguros passos de submissão ao neo-colonialismo. O problema, antes de governança errática, é déficit de engenheiros e cientistas. A solução é formar profissionais de ponta no médio prazo. No curto, importar saber junto às concessões. Que as empresas que cá venham subir pontes, portos, estradas, esgotos e teles prestem-se a abrir os códigos e capacitar nosso humilde contingente.

4) ORGANIZAÇÃO DO ESTADO

Legislativo e executivo não respondem à premência de um corpo estatal forte e ágil. O Estado é letárgico e custoso, e a culpa é menos de seus ocupantes do que do desenho em que se apoia. Uma nova forma (ler postagens anteriores como esta e esta) implica usar a) o suprassumo da possibilidade digital para discussão, deliberação e efetivação parlamentar, e b) a moderna governança corporativa para um poder executivo impessoal e levíssimo, condutor de um orçamento e de um cronograma, auditável e transparente como qualquer empresa viva. O lastro restaria no Senado, reconfigurado como Conselho Administrativo eleito anualmente, com poder de veto e impeachment, ocupado por senhores e senhoras nos quais vemos nossos mais virtuosos pais e mães.

5) ECOLOGIA

Erramos no destrato ignorante e não raro cruel da natureza que Deus nos deu. É nosso maior pecado, e a cada dia em que se repete (resíduos, extração irresponsável, maus tratos, extermínios), nos afastamos do congraçamento cósmico. Toda a força militar de um país na nova era (pós-Singapura) pode ser direcionada à salvaguarda do santuário planetária do território. Cada bioma é um órgão sagrado e feliz do organismo nacional, e dele somos membros em unidade e gratidão. A chave para o reequilíbrio econômico (preços, taxa de lucro e salários) está no enaltecimento ecológico.

6) ECONOMIA

O Estado letárgico e custoso emperra a circulação de bens e valores num ponto distante demais do ótimo, mas a crítica chega invariavelmente tarde e aponta os sintomas linguísticos antes das causas fulcrais. Se é coluna gêmea à Ecologia, a Economia muda de roupa. Joga fora os trapos fedorentos (“crescimento do PIB”) e aprende a formular novas e mais interessantes métricas. Hoje, toda a teoria e comentário são escravos de métricas pensadas antes da primeira guerra. É tempo de cogitar modelos mais desafiadores da mesura do bem-estar, da alegria, do conforto, da satisfação, da realização, da vitória e do consumo.

7) CIDADES

Desde a Constituição de 1988, criar cidades tornou-se gincana de currais e coronéis. A atitude das câmaras de vereança nos rincões é um vexame avassalador. Também nas grandes cidades vê-se distância e esfriamento do povo ante as políticas locais, e as eleições às prefeituras são dramaturgia esquizofrênica. Mas a política será cada vez mais local. Urge plantar a semente do engajamento cidadão. Na esteira do clarão do SUS com a saúde do corpo, o corpo doméstico, do bairro e da cidade merecerão cuidado tátil e maternal. É vivendo e usando o espaço público que entendo entende na prática o que é o bem comum. Por dela me servir, cuido. A cidade deixa de ser de ninguém para ser de todos.

8) ENERGIA

Combustíveis fósseis e carvão matam. Hidrelétricas ferem e traumatizam. Linhas quilométricas de transmissão são tão inteligentes quanto pedir que passem o sal de lá do outro lado da rua. Saleiro é coisa pequena, melhor ter em casa ou pegar no vizinho. A energia está no ar, no sol, no vento e em todos os corpos e coisas. Linha de transmissão é incompreensão biofísica. Pagar por energia é ruborizar o Imposto de Renda, pois é tão grátis quanto um chumaço de cabelo. Aí, o caso é pensar novo bem novo, investindo em laboratórios avançados. Antes, fazer a lição básica e urgente: trocar tudo por geração fotovoltaica e eólica da forma mais local possível.

9) PESQUISA E DESENVOLVIMENTO

Onde está, e o que é, a vida? Água escorrendo num balde é vida? Estamos fora ou dentro do Universo? Somos que sorte de experimento? Como conversar com a inteligência cósmica? O que é o desejo? Como burilá-lo? Como transformar o desejo na mão que a luva do trabalho vestirá? Como faço para construir minha própria casa e ser feliz fazendo o que bem quero da vida? Onde está meu jet-pack propulsivo para um rolezinho em sobrevoo no vale do Paraíba? Ficamos de braços cruzados esperando alguém resolver?

10) AMÉRICA LATINA E LUSOFONIA

La Mancha e Bahia, Cervantes e Camões, Tamanduaré e Pastinha. Villa-Lobos é pura Nova Espanha, faz-se ótimo samba na Colômbia, Angola tem mestres poetas, e o portunhol é mais fácil e bonito do que muito paredão do BBB. Hoje numa livraria não há seção lusófona, não há ensaísmo da nova voz venezuelana. A política externa reserva-se a grandes tratados comerciais e eventos brocochôs. Quero ver minha filha de motocicleta cruzando o continente, ouvindo despreocupada um batuque moçambicano, parando para cozinhar frijoles, beber um mate, mordiscar uns milhos.

Ainda sobre a razão do Estado

Foram tantos os pedidos, e alguns até sinceros, que dominei o asco do sábado operoso e cá voltei disposto a polir atritos. Leitores engajados escrevem da impraticabilidade do exercício democrático sem partidos políticos, “porque é na expressão polarizada que as ideias amadurecem”. Quanto ao razoável reclame, tenho duas respostas:

1 – Na postagem de setembro de 2017, escrevo,

cada assunto específico merece, no grau zero do Congresso, as melhores cabeças disponíveis. Sem partidos que não os que aquele assunto mereça. Partidos cujos nomes e slogans se formam não previamente, mas em consequência dos dilemas tangíveis e tecnicamente defensáveis.

Partidos políticos costumam trazer ao chão do Congresso suas grandes decisões pré-fixadas. É por isso que, em 1997, a reforma da Previdência foi inviabilizada, e é por isso que, vinte anos depois, ela ainda não aconteceu. Ali, abrem-se os partidos apenas a negociação de minúcias, às vaidades dos ocupantes que confundem a fala política com uma carreira profissional, e, no comum dos casos, ao oportunismo. Mas entendo, ante a tenra idade da democracia brasileira, sua dentição infanta, incapaz de triturar desafios nervosos desde o empenho mandibular de um jaguar azul escuro. O que nos leva à segunda resposta, uma espécie de papinha de bebê a par a nossa realidade por assim dizer ‘gengivosa’, contando aí amplos setores da imprensa conservadora, das elites, e entre elas especialmente a paulista – fonte da cisão ilusória e ressentida que apartou PT e PSDB e atrasou o Brasil –, bem como os medrosos fracos em geral.

2 – E se cogitarmos um parlamento dinâmico desde que a realidade partidária fique como está? Possível, porque a extinção dos partidos é menos importante que a aceleração dos projetos consensualmente prioritários. Daí, um grande número de eleitores seria impelido à filiação. Isto é, em vez de extinguirem-se, os partidos são ocupados pelo povo. Em tantas castas de ofício quanto possível, contribuintes eleitores seriam encorajados à filiação partidária para, em seguida, habilitarem-se ao serviço de deputação. A saber, representar o povo nas pautas abertas do Congresso Nacional. As duas vantagens principais do parlamento dinâmico, ainda assim, permanecem, pois elas são, a) maior velocidade e objetividade na discussão, posto que tocada por especialistas; b) concomitância de mais de uma pauta, pois se é dinâmico e operacionalmente digital, diferentes discussões e votações podem se dar ao mesmo tempo. Para tanto, porém, reafirmo a importância de que o maior número de cidadãos escolham uma sigla e filiem-se. Assim, as 700 cadeiras do Congresso são ocupadas, a cada votação, por contingente proporcional às filiações. Se a pauta é, para mantermos o exemplo do texto de setembro, a bioética e a edição genética por empresas privadas, cada partido apresenta sua lista de deputados pré-qualificados para o assunto, a partir de um critério único de qualificação. Em seguida são sorteados, entre os pré-qualificados, os ocupantes das cadeiras. A discussão acontece via internet, e cada partido aponta seu redator-chefe. Juntos, têm a missão de conduzir o texto do projeto. É a assembleia documentada em todas as suas comunicações e acompanhada passo a passo pelos cidadãos.

Resta lembrar que o parlamento dinâmico resolve parte do problema da reforma política aqui imaginada. A outra estaria em mexer no executivo por meio de um drástico enxugamento organizacional. Um presidente e quatro diretores (Ecologia, Economia, Redes, Escolas) são subordinados ao Conselho de Administração, o novo Senado. Este deixa de existir como cancela arrastada da Câmara e assume a voz sábia do ancião nacional macho-fêmea. O time de cinco executivos, alocado com seus gerentes num prédio por exemplo da nova Faria Lima, daria conta de tocar o Orçamento e administrar os problemas da União. O que me leva à conclusão, provocativa mas a sério:

Por que não esvaziar Brasília da política, cedendo as edificações ora ocupadas pelo poder público para a iniciativa privada? Uma licitação de ocupação restrita à área de tecnologia pode fomentar, na cidade sobre solo tão próspero em minérios e de arquitetura idílico-futurista, uma espécie de vale do silício brasileiro, com Universidades, laboratórios da vida digital, da nova medicina, da realidade aumentada e da inteligência artificial, com amplo trânsito de start-ups, ted talkers, venture capitalists e anjos.

Declaração de eleitor: qual a razão de ser do Estado?

Não há, na hierarquia democrática, instância superior ao povo. Isto está implícito no radical ‘demos’. No entanto, a impressão é que tudo se passa ao largo de sua vontade, como se fosse o povo irrelevante ou mesmo inexistente. Prova disso é a abominação dos jovens e o cinismo dos mais velhos quando o assunto é a República. Ninguém, tirando políticos e jornalistas, parece levar a sério o assunto mais sério do país.

Diria que estamos cansados e chateados com a possibilidade de mais uma mera encenação eleitoral. Nela, partidos tentam colocar as forças carismáticas dos candidatos na frente do poder das ideias. Trocamos discussões sérias por slogans, pautas mecanizadas, e, o pior, por falsos conflitos que visam alimentar o embate meramente dramático, mas contraproducente, entre ‘oponentes históricos’.

No caso brasileiro, sabemos bem onde isso acaba: desperdício, arengada na tv, vitimização do executivo pela grotesca ideia de uma ‘governabilidade’ construída na base da chantagem, e um legislativo ocupado pela velhacaria, generalista em seus saberes mas muito específica no abocanhar dos privilégios.

Neste contexto, repito a pergunta do título, legítima a um eleitor preocupado: qual a razão de ser do Estado? A obra definidora de um povo reunido num perímetro territorial a comungar história, língua e Constituição, não deve ser compreendida como a obra das obras? A primeira? Mais importante? Donde todas as outras derivam e pela qual validam-se? Ora, como prestar atenção em qualquer trabalho quando olhamos para o retrato do Brasil, da redemocratização para cá, e percebemos a sinuca de bico de sua fundamental situação?

Antes de desesperar, jogar tudo na mão de um santo ou partir para o estrangeiro, arrisquemos um diagnóstico. Se os poderes da expressão do Estado funcionam tão mal e são tão mal avaliados por nós, o problema será exclusivamente das pessoas que ocupam seus cargos? Ou haverá algo de drasticamente obsoleto no desenho de seus mecanismos e processos? Defendo a segunda hipótese.

Acredito estarmos presos numa vala circular de desperdício, ineficácia e sucessivos simulacros e soluções tópicas, especialmente na relação mais impactante entre Executivo e Legislativo. Está aí, a meu ver, a raiz do problema que enfraquece o Estado e abre espaço para as muitas ameaças de anarquizações e neocolonizações. O motivo da prisão nesta vala nefasta e viciosa, eis um palpite, seriam os maus hábitos da política feita por partidos – e não por nós.

Como proceder? Se o palpite estiver certo, o próximo passo seria cogitar, seriamente, o fim dos partidos políticos, e a consequente reconquista da política pelo povo, maduro e informado como nunca. Por exemplo via plebiscito: os partidos políticos merecem viver ou devem ser extintos? Se a primeira opção ganha, seguimos participando como hoje. Talvez melhorando um pouquinho o Congresso a cada dezesseis anos, talvez entregando o executivo a uma aliança menos neurótica a cada vinte.

Caso a segunda opção vença, e julguemos possível renovar radicalmente o funcionamento do Legislativo e do Executivo sem a intermediação partidária, teríamos pela frente um trabalho novo e estimulante. Um trabalho capaz de reaproximar a política não de um povo que aparece uma vez a cada quatro anos para votar, mas que vive e influencia a política e seus assuntos diariamente. Não um povo ‘representado’ por políticos de carreira, mas o povo ele mesmo a sentar no Congresso e conduzir as discussões. O povo ele mesmo, e não uns jogadores de partidos, a cuidar do orçamento e dos cronogramas, da transparência e da cobrança.

É provável que os partidos tenham sido importantes para a maturação democrática em tempos passados, quando era larga a desconexão e irregulares as ilhas de acesso a informação. Hoje não é o caso. O acesso à informação quebrou barreiras e a teoria avançou. Quem estuda e articula sem cinismo nem má fé enxerga a dissolução ou união de antagonismos europeizantes e mofados em autoevidentes e urgentes prioridades. Em setembro do ano passado, esbocei as ideias do parlamento dinâmico e do executivo tecnocrata. Sigo acreditando. Contra o Brasil atrasado, pelo fim dos partidos.

Declaração de eleitor II

Porque:

1) Desde o impedimento parlamentar da Sra. Presidente Dilma Rousseff o governo federal assumiu viés centrista;

2) O viés centrista, por natureza, trabalha por transição impondo, antes de agendas, algum temperamento à ordem civil;

3) Usamos, cidadãos e empresas, ordem civil temperada para contrastar e discutir alternativas aos problemas centrais da Nação;

4) Tais alternativas serão, daqui em diante, desenvolvidas e apresentadas por quatro oposições ao centro atual, na forma de concorrentes planos de governo;

5) E porque não diremos situação versus oposição, mas oposição versus oposição,
eu, na qualidade de cidadão e livre pensador, proponho as seguintes chapas, além das duas já apresentadas, sendo elas quatro e apenas quatro para evitarmos o desperdício de tempo e paciência em desvios, delírios, falsos problemas e pequenezas:

Chapa SB: Marina Silva + Joaquim Barbosa

Chapa DB: Manuela D’Ávila + Guilherme Boulos


Porque:

1) Marina, além de mulher séria e de palavra, é sensível e elegante, qualidades que urgem num país em processo de embrutecimento. // Magistrado e herói nacional, Barbosa é capaz de espantar a desconfiança da direita pragmática aos “amigos da floresta” com sua aliança ao capitalismo solene. // A esquerda natural, não cooptada por militância de cartilha, compartilha com Marina o anseio pela viravolta ecológica da política, rigorosamente humana e igualitária. // Barbosa, à mesma esquerda difusa, não é motivo de repulsa, não sendo em si capitalista, mas antes homem de ofício com história de vida inspiradora, tal e qual Marina.

2) Manuela e Boulos, lideranças relevantes da nova esquerda teórica e prática, são os únicos entre os oito candidatos capazes de imaginar a renovação radical e abrangente da política. // Diz-se não teriam chances em 2018, mas sem eles o debate giraria em falso, extorquindo do eleitor o sonho e a chance de imaginar com sanidade e alegria o futuro de uma democracia agonizante. // Suficientemente corajosos e sem rabo preso com o passado vicioso das instituições, seriam capazes de abrir o governo ao redesenho do Estado, mais que tocar a passos de cágados uma agenda de reformas eufemísticas e praticar fisiologismo.

3) A chapa SB tem contra si alguns preconceitos obsoletos mas que ainda rondam certos setores das elites. Marina, por ser adepta de uma religião, não seria capaz de governar. Barbosa, por ser Magistrado, não teria competência para o Executivo. Os argumentos são frágeis, mas em tempos de fake news, podem frutificar. A favor, gozam de popularidade e confortável desconexão da cansada polaridade PT–PSDB. // A chapa DB tem contra si, i) o pendor às diatribes genéricas contra o mercado do qual todos dependemos; e ii) o ressentimento ainda carente de trabalho de superação por todos nós contra o fantasma “eles”, útil para atiçar beligerância aos convertidos mas inútil para persuadir indecisos. A favor, um insuspeito mas potente trunfo: sendo jovens atuais poderosos e atraentes, poderiam, salvando-lhes do relativismo epistêmico, seduzir à fé socialista ampla massa de seres inoculados na revolução digital, hoje ladeada ao mercado apenas por falta de melhor oferta. // De lado a lado, as duas oposições têm, dentro de si, seus piores inimigos. Quem os podem derrotar são suas próprias lacunas, teimosias, comunicação incompetente, falta de humildade e de autocrítica, promessas vãs ou fantasiosas, argumentação leviana e, do lado SB, excessivo apego às frescuras vigentes que nos atrapalham, equivalendo, do lado DB, excessivo desapego à ordenação transitória de uma República, num momento tão sensível quanto oportuno.

ideia de bandeira

Porque indignação e imaginação hão de juntas caminhar, mode que aquela não discrepe sem razão, e esta não fabrique parva, exercito, a par de propostas como a nova previdência (OZ), a nova escola mafaldina, o parlamento dinâmico, o poder executivo incorporado em quatro diretorias, e o regime de tributação efetiva, propostas tais encontradas em meu livro e neste sítio, a ideia também de uma nova bandeira nacional.

Entendi que a atual teve sua importância, e jamais deixou de ser bela, e se algures, qualquer infeliz tatambica, em arroubo de vilipêndio, tenha lha difamado, que leve a mão à consciência e deixe de brincar com as coisas da nação. Não somos, entretanto, local de antiquíssimo cultivo das folhas quadriculadas. Cá aprendeu e ministrou Anchieta nas areias da praia. Dos povos assim chamados ameríndios, avós da gente, leis, códigos e ritos eram jamais grafados ou cartoriados, e suas veras bandeiras, pintadas no corpo, faziam-nas ao olho nu, na simetria que cabe à perfeição endógena, e não exógena, da natureza da qual somos filhos.

O símbolo premente, motivo da ficada colonizadora, que queiramos ou não nos fez em povo vário, é a árvore da tintura brasílica, como bem se vê pelos dois espinhaços duros. Assim dispostos, creio aludem respeito ao losango pretérito. Pois está o símbolo primeiro da espoliação dos que não nos reconhecem e assim não nos respeitam (em seguida ludibriaram e adoeceram e exterminaram as nações nativas, cá trouxeram presos em escravidão irmãos da África, e urbanizamo-nos iníquos, desumanos, imersos em erros, feiúras, mais exploração e maus desenhos), limpando a terra da árvore sagrada e forte, para que jamais nos esqueçamos de que se trata participar da história desta obra chamada Brasil.

Resta o pau sobre a imagem pitoresca de uma praia? Pode ser. Aí é bom cabeças componham interpretações, melhorem a ideia, discutam. A moldura representa o perspectivismo, filosofia da baixa Amazônia que impinge todas as coisas de humanidade e pontos-de-vista igualmente válidos, convidando o simpósio da civilização deste novo mundo à constante diplomacia com a graça do cosmo.

sobre o sentido da vida

1 Coríntios 3 : 21

Não busque no do outro seu orgulho, é tudo nosso.

2 Coríntios 8 : 13

Não sofra se o outro se conforta, haja igualdade.

Parto destas expressões paulinas, por mim traduzidas em segunda mão, para entender melhor, via empenho poético, dois deveres fundamentais:

1) Renasço todos os dias da Jerusalém livre para, desde minha memória, colaborar a carne apurada na construção da Jerusalém cativa.

2) Trabalho na força dos corpos para cultivar e criar, na Jerusalém cativa, os sinais da Cidade de Deus, que as artes componham união na diversidade.

O tarô que oferta Santo Agostinho, dizendo haver profecias acima, de uma parte, e acima e abaixo juntas, de outra, conforta o cristão de ignorar o sentido da vida. Não havendo profecias reservadas exclusivamente abaixo (Jerusalém cativa), o tempo encarnado do Espírito, tempo salvo e crismado na Paixão, exime-se de confusão ontológica ou caos maligno: diz respeito ao aperfeiçoamento individual em voz e ofício, mas também à engenharia de uma adequação: que tudo seja nosso pois não há, em verdade, desigualdade.

Manifesto Comunista e República Popular da China

No aniversário de 170 anos do Manifesto Comunista, duas tarefas se impõem:

1) Reler e comentar o texto de Marx e Engels bem como as ideias por trás; e

2) Olhar para a China, que, após uma série de esforços de Mao para cá, anuncia hoje (25) via Comitê Central do Partido Comunista a possível inclusão do Pensamento de Xi Jinping sobre o Socialismo com Características Chinesas para a Nova Era na Constituição do País.

Pronunciando pelo Presidente Xi em 2017 no 19º Congresso do Partido, o Pensamento de Xi tem 14 pontos (adaptados aqui em segunda mão do inglês):

1) Liderança do Partido sobre todas as formas de trabalho da China
2) Interesse público centrado nas pessoas
3) Continuidade na agenda de reformas estruturais
4) Inovação com tecnologia, sustentabilidade e compartilhamento
5) Povo no poder
6) Governança nas regras da lei
7) Prática do Socialismo raiz comunista
8) Garantia e melhora da qualidade de vida via desenvolvimento
9) Harmonia entre humanos e natureza
10) Segurança nacional forte e holística
11) Exército do povo sob controle estrito do Partido
12) Promoção da reunificação nacional (Hong Kong e Macau)
13) Comunhão pacífica do povo chinês com o ambiente internacional
14) Exercício da disciplina e da governança

Olhar para a China não apenas pela direção que lhe confere o Manifesto 170 anos depois, mas por ser, hoje, aquela a mais interessante e forte economia do mundo. País que gerou ~ 126 GW de energia fotovoltaica em 2017 (o Brasil tropical, com 160 GW de capacidade instalada, promete 3,7 GW para 2020). País que acaba de incluir, no juramento que devem prestar todos os funcionários públicos, o tão politicamente infrequente termo “beleza”. Sim, pois a sentença final do juramento diz:

… e tornar a China um país socialista moderno próspero, forte, democrático, culturalmente avançado, harmonioso e belo, e rejuvenescer a nação.

Se a China, que forma centenas de milhares de engenheiros de ponta todos os anos, estiver a entender deveras de que se trata a nova era, e tudo indica que sim, os países em desenvolvimento têm um novo modelo onde inspirar sua política e suas aspirações.

CSC [beta]

E se o que entendemos por cidadania fosse produto de um esforço de localização entre seis modos? Bem estar, ou estar situado em equidistância aos seis modos indispensáveis à cidadania seria:

1) ser capaz de descrever, justificar e fruir seus valores e funções

2) participar ativamente de suas dinâmicas de adaptação e crescimento

Dois atos, como vemos, práticos discursivos, propositivos ou responsais, i) esfriados na busca abstrata da mera conceituação, ou ii) quentes porque em atrito numa discussão para resolver um problema.

Esforço de localização, jamais superável, seres móveis e instáveis que somos. Será preciso, a cada confusão, grande evento ou fim de jornada que prepara a próxima, rebuscar as coordenadas. Novamente situar-se num local fora de seus domínios (posto serem caprichosos e vaidosos, os modos) mas ao alcance de nossos comandos e devassas.

˚ ˚ ˚

Bem. A vida é muito mais que cidadania. Esta é uma redução necessária para que a civilidade não suma, engasgada, morta, amofinada, no interior da urbanidade esquecida de critérios e senso. Quando escalo a trilha deslizante que me leva à cachoeira, dou bananas à cidadania. Ali, quero a ficção do príncipe selvagem, alucinado devorador de cogumelos incapaz de preencher um formulário.

Eis que a vida na cidade complicou-se. Nossa culpa fez dela uma entrega desmedida à função socioeconômica da força. Quem tenta enquadrar nosso cada instante numa célula de aferição em bigdata de fato venceu. Mas a vitória só foi possível dado o charme irresistível de seu ponto fraco: juntar-se a quem quer que esteja bem na foto.

Recuperar a dignidade plural do emprego da força. Nutrição, potência, postura, ato e consequência não estão, apenas, a serviço de uma carreira de sucesso, de artigos comprados para a inveja do vizinho. Devemos a força sagrada dos corpos alimentados pelos frutos da terra, também, ao exercício eclesiástico (em sentido largo) da aventura. Aqui, não há ranking, mesmo que haja risco. Não há salário, mesmo que a recompensa seja linda. Não há, tampouco, comparação ou competição, ainda que gostemos de nos superar e combater o marasmo com ineditismo.

A dignidade plural do emprego da força, no entanto, não virá com a tradução literal dos sonhos. A tradução, antes e infelizmente, é anti-poética, mais difícil e indigesta que a tradução literal. Os grandes culpados eram bonecos de olinda pilotados por nós mesmos. Ficou, ao mesmo tempo, mais fácil e mais difícil remontar o paraíso nos termos da conciliação. O divórcio não era apenas um gozo irresponsável. Era também a ilusão de consertar um erro com outro erro.

A tradução anti-poética dos sonhos requer a união de muitas Artes. Organização (em sentido largo) e equilíbrio, ou cada coisa em seu lugar além de nada sobrando ou faltando. O carnaval e o despertar trágico eram só mais um sabor de picolé?

Agora, contudo, resta a busca negociada de um amplo, semprevacilante equilíbrio. Nele, enquanto se ature, será mais fácil conceituar, discutir e decidir. Muitas das decisões que nos aguardam são  difíceis. Mas não será pedindo esse favor a alguém que ficaremos satisfeitos.

Organização e equilíbrio começam na primeira casa, o corpo do indivíduo. Conforme a prática se repita, um costume frutificante, generativo, pode nascer em rede. Situar-se pois, em mão dupla e acesso livre aos seis modos, é ativar-se de forma ligada (em rede) e autônoma (capaz).

LEG, JUD, EXE

Respondem tais três modos pela condução do serviço estatal, comprado por nós em comum acordo. Somos o Estado, ocupamos o Legislativo, orientamos o Judiciário e verificamos o Executivo. De novo, não é um boneco de olinda. Somos nós, sempre seremos.

IMP, ESC, IGR

Tais três modos respondem pelos quarto e quinto poderes, Imprensa livre, e Escola da qual ninguém se livra, mas que, numa fase da vida, é locus específico de formação mais ou menos dirigida. Igreja ponho aqui em sentido largo por tratar-se de apropriação idiossincrática, inventiva, no mais das contas reduzida ao cosmos em suas formas de silêncio, atenção, cuidado, cultivo e edificação.

˚ ˚ ˚

Buscar o centro exato do Círculo Situante Cidadão será tão vão quanto belo saber-se melhor hoje do que ontem, isto é, mais próximo, ‘mais equidistante’ dos seis modos, sabendo melhor descrevê-los e melhor usá-los hoje do que ontem.

Sou artífice de minha Igreja, assim como sou do Judiciário do meu país. Se necessário, cancelo um barzinho para meditar a São Bento ou Cosminho. Se necessário, não faço janta, peço um japonês e elaboro uma crítica a uma decisão do Supremo. Se necessário, pulo o futebol para interpelar o MEC quanto ao vício do vestibular, e não atendo, se necessário, a namorada para sugerir uma denúncia ao wikileaks.

Este breve, ligeiro, quase irresponsável esboço de teoria social tem, para além de sua missão primeira (tirar da bagunça mental um improviso quem sabe útil e me forçar, redigindo, a entendê-lo ou quase), uma missão segunda: provocar no leitor o autoexame: estou em dia com o bem estar cidadão? Situado estou em equidistância dos seis modos? Considero-os inescapáveis ou estranhos? Sou capaz de descrever, justificar e fruir seus valores e funções? Participo ativamente em casa, na rua e na cidade deste estado do Brasil, de suas dinâmicas de adaptação e crescimento?

Declaração de eleitor

Porque:

1) Desde o impedimento popular da Sra. Presidente Dilma Rousseff o governo federal assumiu viés centrista;

2) O viés centrista, por natureza, trabalha pelo bem da transição, impondo, antes de agendas, o temperamento da ordem civil;

3) Usamos, cidadãos e empresas, o temperamento da ordem civil para contrastar e discutir alternativas aos problemas centrais da Nação;

4) Tais alternativas serão, daqui em diante, desenvolvidas e apresentadas, na forma de concorrentes planos de governo, por duas oposições ao centro atual;

5) E porque não diremos situação versus oposição, mas oposição versus oposição,

eu, na qualidade de cidadão e livre pensador, proponho as seguintes chapas, sendo elas duas e apenas duas para evitarmos o desperdício de tempo e paciência em desvios, delírios, falsos problemas e pequenezas:

Chapa AV: Geraldo Alckmin + Luislinda Valois

Chapa GH: Ciro Gomes + Fernando Haddad


Porque:

1) Alckmin é um gestor sério e provado, mas precisa, a seu lado, dalguém a lembrar-lhe do que foi feito o Brasil. // A história de Luislinda é mais bela que a de Lula. // O impedimento popular da Sra. Presidente Rousseff não foi bem aceito por uma minoria, entre ela as próprias mulheres e alguns adeptos do lulismo. // Estes talvez encontrem em Luislinda, assim que ela puder falar serena e sinceramente, o aconchego de uma representação autêntica, popular e sênior, no Executivo;

2) Ciro tem cacife para barganhar os votos de Lula no Nordeste (se Luislinda não o fizer antes). // Ele pode usar o fato de ser esfinge ideológica em favor de um discurso pragmático, tendência irreversível. // De pulso e fala firmes, compensa a hesitação preferia-não-ser-político do professor Haddad, que, por sua vez, tem charme e seduz a militância jovem. // Com ele a chapa evoca o novo e o vigoroso, e talvez construa num vazio ainda sem nome da expectativa nacional;

3) A chapa AV tem contra si o fantasma do continuísmo, o velho mais do mesmo capaz de unir o país em repulsa e escárnio. A favor, tem os cofres sãos de São Paulo e uma mulher negra juíza e neta de escravos. // A chapa GH tem contra si a verborragia sebosa que derrubou a esquerda quando esta trocou compromisso por cinismo. A favor, tem o sonho de refundação, em novos termos e cores, do projeto petista de dignificar a política brasileira e levar o povo ao poder. // De lado a lado, as duas oposições tem dentro de si seus piores inimigos. Quem os podem derrotar são suas próprias lacunas, teimosias, maquiagens marqueteiras, falta de humildade e de autocrítica, promessas vãs, argumentação leviana e mentiras deslavadas e ridículas que insistem em contar, deturpando a história e embelezando os fatos como se esta fosse a pátria da burrice e do esquecimento.

Boquinha versus corpo

No informativo e bonito documentário Yoga – Arquitetura da paz, deparamos com aspectos estarrecedores do estilo de vida desses mestres da mente e do corpo. Ultrapassam os cem anos sem qualquer complicação de saúde, desejos e vontades sob o controle estrito da renúncia enriquecida pela meditação. Em verdade, chegam aos cento e poucos anos enxutos, fortes, em plena comunhão espiritual com a matéria, sem reclamar das miudezas de poder e frustração que tanto dano causam à fortuna do antigo ocidente. Um ocidente envergonhado que nos deu o aspirador de pó e os aparelhos de laser disc, mas sobretudo as guerras modernas, que confundem virilidade com a colonização do outro.

No capítulo dois, seção cinco, do meu mais recente livro, escrevo:

Homens e mulheres brilhantes, honestos, dedicados à família e ao trabalho muitas vezes passavam da juventude à vida adulta sem sequer um dia parar para cuidar da respiração e da alimentação como um adepto em busca do Ser. Julgavam-se ligados graças a gadgets e aparelhinhos, mas não estavam ligados coisa nenhuma; estavam, se tanto, presos. Você pode correr vinte minutos numa esteira ouvindo lambada enquanto pensa no seu patrão ou na sua amante, mas isso não será, nem por decreto, cuidar da respiração. No médio e no longo prazo, dirá o adepto, este sujeito não saberá dizer se vive a vida alegre e sem arroubo dos seres ligados, ainda que seus índices de colesterol estejam na média e sua rede social bombe de amigos.

Planos de saúde, consultórios de psicanálise, tabelas de performance, medicação psiquiátrica, hábitos deselegantes, gastos que geram mais gastos, consumos exibicionistas, produção de lixo, desprezo ambiental, hipocrisia familiar, não raro, seriam os reais sucessos de uma sociedade despreocupada em cogitar, profunda e autenticamente, a disciplina crítica da força motriz dos desejos. Lembremos o farmacêutico mineiro tão discreto e assertivo, poeta cuja inspiração e realização casaram-se, na história da literatura brasileira, como a aliança quase perfeita da eficácia semiótica, humildade na partida, e impacto na chegada, Carlos Drummond de Andrade, em seu manifesto iogue tão famoso e estudado chamado ‘Máquina do Mundo’. Neste poema, ponto alto do brilhantemente irregular livro Claro Enigma, ao deparar-se com a abertura do ‘reino augusto’ da máquina do mundo, sorte de aleph moderno, Drummond diz,

baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando a colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.

A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,

se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas.

Quando repele a máquina do mundo, o poeta revela, em gesto, a alma que, porque soube renunciar, está agora disposta à recomposição miúda.

É lícito dizer que a vida do iogue, tal e qual exibida no documentário, será um bocado difícil de realizar neste atual estado de distrações e tentações. Mas os exemplos e as lições de vida servem não como algoritmos dogmáticos de performance, mas como inspiração para melhorarmos um pouquinho. Um pouquinho todos os dias, recusando, via raciocínio e dados, os hábitos arraigados pela ignorância e pelo comodismo frouxo. Hábitos que tornaram as grandes cidades circos entristecidos de consumo impulsivo, manadas zumbis e aculturação pelo supérfluo e pelo esquecimento.

Se a respiração, treinada e exercitada, é o primeiro passo para o reencontro do corpo com o Ser (termo corrente num dos pilares do hinduísmo, os Upanishads), o outro passo, tão importante quanto, é a alimentação, repensada em suas virtudes energéticas e processuais.

Hoje, a alimentação comum sofre da inércia empobrecida que corrompeu o século XX com a lógica imoral do domínio mercante, quando a assim dita praticidade empurrou-nos, literalmente goela abaixo, as falsas gostosuras das besteiras processadas e as falsas recompensas da gastronomia luxuriante.

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Reverter prejudicial postura exigirá novos paradigmas na ponta da produção, cultivo e comércio. Mas a indústria, escorada na busca insensível do lucro, dificilmente dará o braço a torcer sem a pressão pública e informada na ponta do consumo. Nós, sentados à mesa ou no chão, comendo com garfos ou com a fabulosa pinça dos dedos, ditaremos o progresso da indústria da comida, negando e acusando disciplinada e coletivamente os maus alimentos, as más práticas e as seduções que nos pretendem fazer crer que a comida acaba na boquinha. Não. A comida se come com todo o corpo. O que parece irresistível à boquinha pode ser, ao fim e ao cabo, uma traição contra os órgãos, células, tecidos e sistemas sanguíneo, ósseo, digestório e nervoso.

Cá no Bistrô Bengala, comemos com o corpo. Conversamos com a comida, apresentamos os ingredientes uns aos outros como novos coleguinhas de classe e temperamos, no colorido doce e picante das muitas manhãs que florescem dia adentro para despertar, aquecer e ativar o corpo, nutrindo sem pesar nem condená-lo à leseira arrependida.

Nosso Berço de broto tropical leva:
– Broto de alfafa fresco
– Abacaxi
– Figo
– Raspa de limão
– Azeite extra virgem

Nossa Bala de coco leva:
– Lascas de coco
– Flocos de aveia
– Uvas-passa
– Goiabas desidratadas
– Páprica picante
– Gengibre ralado
– Cacau em pó
– Amendoim
– Mel de laranjeira
– Tudo empapado na infusão de canela

Bom apetite!

Da inteligência

Brotaram flores
nos meus pés.
E o quotidiano
na minha vida
complicou-se.

– Hilda Hilst

Nunca foi tão difícil driblar a inteligência, mas o motivo é simples. Nos séculos passados da era moderna, quando experimentamos a convivência plural com mobilidade social, a face impessoal da inteligência era irreconhecível. Misturavam-se os conceitos de habilidade e inteligência, e o clichê era dar àquela o nome desta. Alguns seriam mais, outros menos inteligentes, donde a inevitável desigualdade rancorosa, e não raro deturpada, no mercado dos méritos.

Corre o tempo em que descobrimos, ainda sem coordenar dignamente potência e produção, a inteligência em trama dinâmica e crescente, universalmente acessível e absolutamente impessoal. Os efeitos da descoberta poderão ajudar-nos a relaxar as falsas tensões da competição, reforçando as autênticas, e dissolver os falsos dilemas do desejo, tornando mais duros, múltiplos e coesos os autênticos.

Entender e determinar por que lutar e como curtir a vida, sem precisar reinventar a crise romântica diariamente, tornará a realização política da convivência, bem como a autonomia espiritual da vida leve, tarefas mais abertas à novidade e menos entulhadas das manhas pré-fixadas que, outrora, invocávamos para dirimir os riscos e aumentar a previsibilidade dos empenhos. Mais equilibrados e menos temerosos, faremos mais com menos.

Está em nossas discussões e mentes não mais saber qual lado ocupar antes da luta, nem tampouco saber onde balizar, fora de si, as manobras da vontade. Antes, a tarefa seria saber manter e contrastar, atender e coligar as prioridades eventuais. Livres das supernarrativas que cuidavam, a depender das contingências do indivíduo, de restringir suas potências a certos modelos de submissão ou contravenção.

Na prática, vive-se individualmente num corpo que se quer produtivo e singular. Tal corpo pertence a algumas jurisdições variáveis mas comunga, ainda e de forma crucial, a língua e os códigos de convivência de um território dito nacional. Atentar a esta premissa, por difícil que seja num momento de globalização digital e tentações anarquizantes, seria a língua franca da ética da transição. Não por orgulho ou saudosismo, mas por facilitar os processos e liberar tempo de rinha para invenções frutificantes, ócio alegre e a infinita descoberta de si.

Na prática, portanto, almeja-se convergir a energia despendida no acesso à face impessoal da inteligência para dar cabo de tarefas necessárias consideradas impensáveis nos séculos passados: reformar uma constituição nacional em poucos meses, redesenhar completamente a atuação da governança pública, tornar os cidadãos proprietários efetivos das cidades, revolucionar o ensino no espaço de uma geração, para ficarmos nalguns exemplos óbvios.

Está em nossas discussões e mentes não mais contrapor ideias fundamentais sobre para onde ir, mas escolher a velocidade com que queremos ir.

tratado das três faces

Doria, Silvio Santos e Zé Celso entram numa sala de reunião. A força histórica do encontro é mais importante que as miudezas do assunto. Sentam à mesa o típico capitalista brasileiro, riqueza ciosa de si e de sua perspectiva inflexível porque veio de baixo; o típico poeta brasileiro, popularíssima erudição mais ou menos desperdiçada, mais ou menos desenganada; enquanto media ou não media o tempo o típico político brasileiro, capaz de pensar, a cada passo, na própria carreira antes de pensar na coisa pública. Um roteirista premiado seria incapaz de atribuir as falas, tempos e deixas melhor que o que de fato aconteceu. A cena, captada em vídeo digital, foi publicada na internet.

Por que a força histórica é mais importante que o assunto em si?

Bem, não bastasse a representatividade generosa, atual e precisamente encarnada de tipos nacionais protagonistas de nossa formação, o jogo de tensões representado, mas não encenado, ajuda a visualizarmos os credos de cada um. Melhor que um alentado estudo sociológico, as falas espontâneas de Doria, Silvio Santos e Zé Celso, apontam com depuração arquetípica e eficácia semiótica, às vezes num simples trejeito, num ato falho, no modo com que provocam, se deixam provocar ou respondem a uma provocação, no modo com que anunciam seus desejos e restrições, escondem ou revelam seus ressentimentos, diluem ou acentuam os conflitos, algumas das estruturas essenciais da dinâmica de poderes em certame no Brasil. O vídeo, amador, poderia desde já ser colocado ao lado de Casa Grande & Senzala, Raízes do Brasil e Os Donos do Poder, como um documento de acurada síntese de nossas forças e fraquezas, ameaças e oportunidades.

O poeta quer que todos sejamos poetas, e que troquemos a ganância particular por uma vida boa na cidade aberta. O capitalista não quer ver seu esforço desmerecido de repente e do nada, como se todo seu trabalho pudesse ser diluído da noite para o dia. O político não pode ser o anjo de que gostaríamos, pois crê ter altos planos para nosso futuro, planos que só ele será capaz de concretizar, e deve ser maquiavélico antes de esbanjar bom coração. O capitalista, a um só tempo, desmerece e idolatra o dinheiro, e mascara-se inúmeras vezes no eufemismo do clichê preconceituoso para contrastar a vida vadia, licenciosa e ‘mal sucedida’ do poeta. O poeta é leitor da cultura universal, e porque um capitalista resta há tempos decifrado e repisado, esquiva-se dos golpes baixos com facilidade, mas é incapaz de vestir-se nos termos do oponente, acentuando, na ingenuidade de suas demandas, o abismo irrevogável entre as duas visões de mundo. O político tem assuntos mais importantes para tratar antes de apaziguar um choque de vaidades entre senhores cujos legados estão para lá de concretos, de modo que responde mecânica e desapaixonadamente, entoando um ‘qualquer coisa’ para sair logo dali. A rigidez do capitalista, sua inabilidade em pensar fora do próprio bolso, a fragilidade declarada do poeta, a serviço de seu desprezo atávico pelos gananciosos, e a frieza do pragmatismo superficial do político, concentrado em expandir seu domínio sobre nós, custam aos habitantes e trabalhadores da cidade tempo e saúde irrecuperáveis. Perdemos todos, mas a lição é boa.

uma ideia para ‘minha casa, minha vida’

As fotos que vi dos projetos de habitação popular recendem o futum da imaginação pobre. Ninguém merece uma casa fria, insossa, em nada orgânica. Que dirá das famílias a habitar o bojo vasto do precariado, num país de patrícios insensíveis e políticagem espúria.

Nossa ideia para extorquir o programa Minha casa, minha vida de seu futum recendido via tristes imagens de esquadrias de alumínio por onde se passa um bebê e nada mais, cômodos minúsculos, profusão de paredes, porcelanatos horrendos, e frieza de cal e de morte, esboça-se a seguir:

É uma casa onde se toma juízo da arte da domesticidade essencial: a terra, o céu, a água, o fogo, o dia, a noite, e as plantas.

Num terreno de 9 por 9 metros, constroem-se 70 metros quadrados, sendo 50 (~7×7) no piso térreo, e 20 (~3×7) em patamar.

Ao centro, FOGO: forno a lenha, chapa e bocas, em adobe de radiação, e evacuação superior de fumaça.

Atrás, ÁGUA: pedras onde se lavam corpos, vestes e utensílios, com filtragem, reuso, e quedas em volumes vários.

Nas laterais, JANELÕES: enormes molduras de madeira a vidros em temperamento e difusão ótica, basculantes.

Em frente aos janelões, PLANTAS: espécimes da flora local em vasta jardineira modular de cerâmica.

À frente, PÓRTICO: enorme moldura de madeira a trabalho entalhado e único em madeira, em trilho.

À frente do pórtico, SOLEIRA: híbrido interior/exterior em pedra e madeira, ajardinado.

Entre água e fogo, CASA NOTURNA: espaço de ceia, leitura, jogos íntimos, meditação e sono. Piso de junco recolhível sobre concreto.

Entre fogo e pórtico, CASA DIURNA: espaço de trabalho, exercícios biomecânicos, atividades de manutenção e confraternização. Piso de concreto.

Sobre a casa noturna, SOLARIUM: mezanino amadeirado com cisterna, horta, ponto de energia e telecom e área livre.

No suporte, VIGAS MESTRAS: fortes toras a demarcar o limite da unidade, sustentar paredes, patamar e telhado.

12 unidades com ÁGUA voltada para dentro formam um amplo círculo, chamado “QUADRA”, em cujo centro arborizado há recanto para aves e insetos, micro-unidade de tratamento de descartes, e espaço para confraternização. Seis “quadras” unidas podem dar num quarteirão, servido enfim por vias por onde passa o transporte público e os veículos de serviço.

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Para solicitações e perguntas, casa@tourobengala.com