Dar sentido ao movimento, obra do nascimento, dá desejo ao mistério dos possíveis. Por seu turno, o desejo traduzido em valor muitas vezes para, em sua jornada restauradora do ser, numa alfândega de hipocrisia incompetente. Antes da hora, portanto, donde nem necessário, nem efetivo, a vasta atividade das obras insuficientes-em-si são a brecha propedêutica da crítica. Já não entra o viajante na terra pretendida: não terá sido escolhido?

Por ela, por esta tensa vaga, metem-se dedos aliados, elogiosos à vida vasta mas distante dos objetos. Onde aprendemos a demorar, provando, será também a plácida sede do amor?

O comando, porque encobre a chance do afeto, trocará, vejo, desejo por consequência. O mundo mantém-se ritimado, correm suas leis. Mas nada realmente novo acontece1.

Neste indício, cresce o tempo do hermeneuta; ali ele especula, coroado a dar com noite na taça da sombra. Por quê, diz, não aceitar nas fórmicas da alfândega o ponto final da maravilhosa aventura? Deambula, terrâneo, forâneo, terrâneo, forâneo…

Tanto incômodo e feiúra tapam os mais exatos contornos do que usamos. Subsiste2, no entanto, o que manejamos nem sempre em uso, amiúde em inocência.

_______________

  1. A leitura de Paulo Arantes de Hegel remete o pensamento ao problema da formação da consciência, isto é, ao desejo de ter sua consciência a passar de ‘em-si’ a ‘para-si‘. Tanto é o Querer, querer “tornar-se seu próprio objeto” e “distinguir-se para reportar-se ao diferente aí posto como a si mesmo.” A mais própria potência, quando inocentada por qualquer agência, não realiza (de potência a ato, de forma a fato) a pergunta essencial da hermenêutica, dando ao trom do movimento o desconsolo de uma já natural combinatória. Para recobrar entretanto seu vigor originário e dar “a produção do tempo” ao paço “presencizante” da gravação histórica, a resolução hermenêutica deve opor-se aos desejos apenas comandados, ainda irrefletidos. Aí, então, mais propriamente acercada do ser, a pergunta dirá, do espaço, a verdade ‘luminosa’ e fiscal da correta diferença. Contra a identidade “formal ou vazia”, prossegue-se “ao infinito” o anulamento deste oposto, ora alheado, de sorte que o estágio anterior já se não reconstitui. (Hegel – A ordem do tempo, 2ª edição, Editora Hucitec, Editora Polis, 2000; ver pp. 203–240).
  2. “que a pergunta pelo ôntico é a pergunta ontológica pela constituição-de-ser do ente não-conforme-ao-Dasein, do subsistente em sentido amplo”. Eis, numa palavra, a grandeza intelectual de Ser e Tempo (p. 1091, Editora da Unicamp, Editora Vozes, 2021).