Existe o justranscendentalismo?

Este ator creía orgânico e acelerável o passo de um direito positivo, prática defasada das nações, ao horizonte totalmente compreensivo de um direito universal. Era para onde parecia convergir o progresso jurisprudencial. Era a constância reveladora e imperiosa da natureza, face a uma cultura parcialmente arruinada pela pretensão privatista.

Será preciso pensar no entanto na invalidação do pêndulo natureza–cultura para este fim. Aquela parece não revelar, antes reproduzir certas notas da cultura. E tanto ela faz com propriedade extrema. A natureza expõe a fala da cultura em sua vanguarda funcional e contraditória.

Potência deliberativa não pressupõe autonomia física:

Desde Aristóteles, lembra-nos Michel Villey, um direito qual ditames na natureza (physei) não basta para o conceito do legal (nomikon). O que há, para o primeiro grande pensador grego do fim da privacidade, é tão somente uma trama de relações sociais que se dão com e para a linguagem. O ente de direito será pois coordenador historial das grandes conversas públicas. Seu projeto de vida privada cederá à ‘nossidade’ temporalizada pelas memórias abissais e demais sabores que um povo compartilha.

Estado e Sujeito, objetos em franca construção, lidam COM e PARA as regras:

A regulação das paixões servirá o convívio da multiplicidade dos modos sem que pressupostos morais tomem da reflexão e da história dignidade taxativa. A construção do amplexo político moderno, portanto, cobrará menos e menos observação à norma que se impõe, mais às regras que se aprendem. Relembrar, como nos lembra Chauí, o ‘adequatio’ espinosano não será, porém, reanimar o utilitarismo que exterioriza a valoração afetiva. As regras nos unem, mas a marcha é interior.

As regras avançam como RETORNASSEM ao codex mundi, obsceno e original:

Este ‘como se’, lembra-nos Giannotti em sua leitura cristalina de Heidegger e Wittgenstein, é a senda do vigor que faz necessário o diuturno teste de resistência dos jogos apofânticos. Pensar e fazer também são atos de fala (atos de conformação lógica), mas a luminosa verdade jaz abscôndita, sentada na beira dos mundos. Acercar-se da verdade, na trilha virtuosa do viver, é realizar em si o movimento de retorno à originalidade obscena da força – ver e julgar o próprio desejo ‘sub specie aeternitatis’.

Retornam como deixassem para trás o entulho, o mais antes do menos impróprio, reordenando-se:

Com Rorty, teremos “dúvidas radicais e contínuas sobre os vocabulários finais” (ver ‘Private Irony and Liberal Hope’). Inclinados a filosofar, instados a decidir, usaremos a caixa de ferramentas da linguagem sem tomar palavra alguma como fundamental. Ciosos da contingência e da fragilidade das descrições correntes, aprenderemos que as justificações mais persuasivas não o são de fora para dentro, mas de dentro para fora – são “poetic achievements” cunhados pelas mentes de grandes pensadores com talento para redescrição.

APRIMORANDO código em concórdia – lúcida e estimulante:

Haverá, pergunta o ator, entre o direito positivo e o direito universal a brecha propositiva de um direito transcedental que amplie o quórum geracional e mantenha o ideal do justo ‘uno apud omnes’? O conceito de limite, por exemplo, serve ao conforto do outro ou ao destaque de si? Este ator crê na segunda hipótese, sendo a verdade do direito não a contrição, mas o estímulo à produção.

Tornando o que dizemos ‘nós’ um grupo cada vez mais abrangente ao incluir MODOS DIGNOS DE SI – desde aquilo que os especifica e interessa-nos

Multimotívica composição pública, a construção política da cidade dissolve Estado e Sujeito na mediação técnica e narrativa das falas, abrindo o mundo aos que se abrem. Surge o que há de ser das tramas do dizer. É o “chamado dos deuses”, diz Gannotti, “que, mesmo distanciando-se ou afastando-se, atinge a terra sempre em luta amorosa com o céu, aquela se recolhendo, este elevando os entes até o vagar do sol e o luminar das estrelas.”

BR22

Até as eleições de 2022, o eleitor poderá conversar ou estudar, descrever a si e aos próximos, uma teoria de Estado: o que queremos do Estado e por quê.

Gosto de enfrentar questões difíceis desenhando esquemas. Quando não sei o nome exato de uma ideia, tento aproximá-la de um arquétipo. Aos poucos, esquemas arquetípicos revelam, nos meandros de seus nexos, conceitos e proposições mais úteis, que não chegariam de imediato.

São três, assim, as ontologias estatizantes possíveis ao objeto BR22. Direi LATAM, para designar a história da América Latina; EUA, para designar a superpotência norte-americana; BRICS, para designar o avanço chinês.

Não aposto ser possível pedir uma, em negação às outras. O mais provável é o país equilibrar-se, como quem corrige de novo e de novo o centro de massa enquanto encena danças.

LATAM :: faz do Estado o contínuo Europeu Cristão cioso da Física (ressurgimento ecológico e urgência ambiental)

EUA :: faz do Estado a guarda imperial da Obra e da Formação (esperanto socioeconômico e transformação do acesso ao Saber)

BRICS :: faz do Estado o movimento audaz e familiar da Invenção (da força do empirismo, o evangelho do convívio)

Não escolher será cultivar os três modos. Compor, nas Câmaras como nas Côrtes e na Execução, quadros e projetos capazes de aliar agenda nacional a sensibilidade global.

Consequentemente, o eleitor aproveitará o assunto para aprofundar a conversa em direção a uma teoria do Direito. Este é assunto para outra postagem, mas favor antecipar as seguintes provocações:

– Potência deliberativa não pressupõe autonomia física;

– Estado e Sujeito, objetos em franca construção, lidam COM e PARA as regras;

– As regras avançam como RETORNASSEM ao codex mundi, obsceno e original;

– Retornam como deixassem para trás o entulho, o mais antes do menos impróprio, reordenando-se;

– APRIMORANDO código em concórdia – lúcida e estimulante

– Tornando o que dizemos ‘nós’ um grupo cada vez mais abrangente ao incluir MODOS DIGNOS DE SI – desde aquilo que os especifica e interessa-nos

Deixar entrar

A história das ideias se confunde com a história das formas de pensar. A diferença entre as duas será hierárquica: a história das ideias parece conter as diversas formas de pensar que, ao longo das gerações, funcionaram.

A imagem nos deixaria em paz se o problema da precarização não cruzasse a atualidade, fazendo-nos desconfiar do progresso bem como das conquistas da época moderna.

Entenda-se por precarização aquilo que abarca sua significação radical, sem que se perca o tino dos usos correntes, a saber, um estado de desespero peticional que desafia o senso comum em apelo à esperança revolucionária.

Que a precarização, seja nas relações econômicas iníquas, seja na saúde mental amiúde refém de purgatórios artificiais, propicie o tom dessa época brumosa, não é mais novidade. A época é brumosa porque a ignomínia dos mal ocultos custos de progressos e conquistas centrais como os transportes e as fronteiras nacionais – aqueles à expensa do ambiente, estas à expensa da paz – não garante a crítica competente de suas processualidades constitutivas. Claro, pois que a ignomínia pretende obliterar cadeias produtivas de passivos fundadores – a biruta do clima e a crise dos refugiados, por exemplo – cujos movimentos coadunar-se-ão à sombra da modernidade via regressos e despossessões em escala global. A novidade, aqui, parece estar na chance de um chamado à face afogada na forma, porque ciosa demais da história, das ideias.

A crítica competende das processualidades constitutivas da época moderna (a construção do Estado Democrático, o reconhecimento do sujeito de direitos, a transnacionalização dos contratos etc) pedirá à sensibilidade, assim, duas atitudes complementares: i) distanciamento da forma; ii) reordenação da história.

Se é verdade que a história das ideias contém as formas de pensar, não será mau lembrar que a forma das formas de pensar, por sua vez, contém a história. 

O grupo abrangente do móbile psíquico capaz da cronologia descritiva será o mesmo, ao fim e ao cabo, capaz de codificar os nexos pragmáticos em vias de deslindes totalizantes – exaurindo a evocação semântica dos acontecimentos – de modo a expor as ignomínias e acoplar, em suas devidas processualidades, os custos antes ocultos que burlavam a responsabilidade de conquistas e progressos de suas consequentes despossessões e regressos.

Curiosamente, as atitudes do distanciamento e da reordenação são mais ou menos naturais ao estágio a que nos trouxe o próprio conceito de pradarias filosóficas genealogicamente encadeadas. Quando o esforço analítico tanto e tão disciplinadamente voltado a si e à dignidade linguística como que num mito originário ancestral fecunda-se e rebenta no pragmatismo da eventualidade, resta à forma atual da interdisciplinaridade aplicada o ensejo lúcido de deitar ao chão o espelhinho de rosto e performar não na linha de frente ou no limiar do movimento histórico, mas antes a dança austera e beneficente que busca reanimar o que eram corpos insepultos, pois não se está diante de fim algum e somos jovens e potentes, e trocar luto por graça e resignação por força e luz.

Em outras palavras, se a história das ideias vinha estática porque demasiado afogadas vinham as faces nossas nas formas de operar a superfície do real em comunicação alerta e repertorial, mas sistemicamente vítima das ignomínias constitutivas de processualidades apenas parcialmente consideradas, as atitudes i e ii, por sua vez, legar-nos-ão a chance de, com as mãos pensas e o pensar desanuviado, procurar à propriedade dos dizeres as competências eventuais E totalizantes dos processos em mais grave inflamação. Que progresso nenhum e conquista nenhuma sejam aceitos ou consumidos sem a devida reflexão da ignomínia que o viabilizou, sem seu reingresso animado e clínico, sua sagração em rediviva e adaptativa adoção. Antes de marcos legais, multas e tributos, aponta-se algo tão simples quanto a honesta descrição da história constitutiva do que ora nos rege, conduz e subjuga – mesmo no aparente conforto.

O mal estar da ignomínia, coisa que se sente em degradê à ofensa, não deve ser confundido com os clichês da ignorância (a maldade paulina) e do esquecimento (a maldade hegeliana). Se contra a primeira criou-se a pedagogia da opressão, contra a segunda o choque de estado, e ambas vêm ajudando no pós-guerra, não é de dentro delas que se caça a ignomínia.

Claro que tampouco dentro dos favores apaziguantes da direita como a combinatória, o volume de metadados e a transparência, esta caça ou query estará domiciliado em campo frutuoso.

De dentro de onde, precisamente, será difícil dizer? O objeto da busca é a ocultação que já pode ter sido não saber, que provável já foi o esquecer, sendo no sentimento de ignomínia o desconforto um desconforto latente mas tácito, inflamado mas formigando.

Por que, por exemplo, a rede hidrológica planaltina (Piratininga) não informou o desenho das vias de rodagem e nem sequer a elas uniu-se em expansão da rede de transportes? Se foi ignorância ou esquecimento hoje é menos urgente dizer que a ignomínia buscar, deste um custo grave que se oculta. Desocultar é o movimento que trará à investigação ou query sua potência humana. Está-se diante de um quebra-cabeças com peças ocultas muitas das quais associadas à sensação de ignomínia quando se percebe a rede hidrológica soterrada a nada de aproveitável senão dejeto transportar. Por que, portanto, a ideia de ‘aproveitar’ a rede para ‘tratar’ os dejetos foi capaz de ocultar o problema do soterramento dos leitos contra seu efetivo uso? Um passo a mais e trago à reflexão um conceito não considerado em sua completude, a saber, o conceito mesmo de dejeto. Não considerado por conceito lateral, no caso da rede viária o dejeto fez da query query incompleta; esta, quase mecanicamente retorna ao investigador uma questão contra a incompetência da própria reflexão, mas dificilmente ingênua: lugar de dejeto é longe?

O conforto de dar descarga e ver o bolo fecal ir embora, por exemplo, ilumina o quê? E se fôssemos pensar a superquadra autossuficiente em tratamento de resíduos, quais seriam as implicações construtivas?

Deixar entrar é dar à combinatória, ao volume de metadados e à transparência a postura de afastamento e reordenação que possibilite novas descrições de antigos problemas.

Queríamos que fosse diferente!

Para Buarque de Holanda em Raízes do Brasil, espanhóis e portugueses seriam diferentes de “outros povos” não pela ganância ou avareza, mas pela “incapacidade (…) de fazer prevalecer qualquer forma de ordenação impessoal e mecânica sobre as relações de caráter orgânico e comunal, como o são as que se fundam no parentesco, na vizinhança e na amizade.”

O defeito torna mais custoso construir o Estado, pois este não é a mera “ampliação do círculo familiar” e não há, “entre o círculo familiar e o Estado, uma gradação, mas antes uma descontinuidade e até uma oposição.” É ao transgredir a ordem familiar, diz Holanda, que fazemos nascer o Estado.

Já Darcy Ribeiro dirá haver por aqui um “velho uso” de “incorporar estranhos à sua comunidade” que fará do parentesco a razão de ser fundamental da gente da terra. Seria o ‘cunhadismo’ nada menos que a “instituição social que possibilitou a formação do povo brasileiro”, prática sem a qual o país seria “impraticável”. No cunhadismo, se caso com uma moça, tenho a mim, no pai dela, um novo pai; e nos parceiros do pai dela, idem. Para Ribeiro, o defeito do costume era um só: acessível demais, a todo e qualquer um, e mesmo “a qualquer europeu desembarcado junto às aldeias”.

O bocado que houver em Holanda de ressentimento teuto ou utopia negativa indignada com o mau desenho dos mecanismos civilizatórios brasileiros, há de em sinal invertido haver em Ribeiro em esperança nativista? Difícil dizer. Ao cabo da leitura atenta e refletida, ambos cumprem certa totalização pendular entre crítica e orientação e funcionam bem, mesmo hoje, como vozes à tarefa brumosa de pescar na turbulência o que é sentido e valoroso.

A “disciplina da concórdia” que marca o sujeito brasileiro cordial e emotivo o fará, na visão do historiador paulista, menos propenso ao raciocínio abstrato, aos raciocínios que “não tenham como fundamento (…) as comunidades de sangue, de lugar ou de espírito”. Para o antropólogo mineiro, no entanto, será abusando desta licenciosidade que o povo aqui criará, com seu cunhadismo, “um gênero humano novo, que não era, nem se reconhecia e nem era visto como tal” pelas famosas três raças e que, instado a deixar para trás sua “ninguendade”, passará a lutar para “construir sua identidade” de brasileiro.

Holanda percebe que “a ideologia impessoal do liberalismo democrático jamais se naturalizou entre nós”. Deste modo, homens e mulheres desejosos de fazer a vida na cidade e nela atuar e operar como cidadãos e eleitores condignos amiúde se frustravam, seja por não conseguir acessar as rodas do conluio, seja por, alérgicos, detestá-las. “Pujança e compostura”, pede Holanda, “grandeza e solicitude”, fazem-se assim misteres incontornáveis para que o Estado respeitável se coloque, e funcione, sem preferência interesseira nem enjeitos, com “harmonia e garbo”, diante de um conjunto complexo marcado por exclusão atávica e privilégios arcaizantes.

Conjunto complexo, lembrará Ribeiro, de “classe dominante de caráter consular-gerencial, socialmente irresponsável, frente a um povo-massa tratado como escravaria, que produz o que não consome e só se exerce culturalmente como uma marginália, fora da civilização letrada em que está imersa.”

A história nos fez, “pelo esforço de nossos antepassados, detentores de um território prodigiosamente rico”, pondera Ribeiro, mas a gente está “metida no atraso” e “sedenta de modernidade e de progresso”. Daí o risco é entregar o assunto e a coisa pública ao nefando “espontaneísmo”.

Este curioso -ismo aparece quatro vezes n’O povo brasileiro, sempre associado ao deixe estar-deixe passar da mentalidade mercantil, esta crente numa sorte de supremacia econômica. Tal espontaneísmo, no entanto, seria atitude abstrata e liberal, em nada sanguínea, em nada pessoal. Se real e brasileira, faria refutar os dois competentes, provados diagnósticos.

É preciso, pois, entender, quando um liberal brasileiro diz faltar mercado no Brasil, que o mercado no Brasil não sobra; entender mesmo sua simples crença de que há mercado e que este mercado sente, deseja e reage. Será similar ao resmungo dos constitucionalistas, nunca enjoativo, de que falta observação à Carta, e não que ela sobra. Falta mercado, portante, é dizer ou lembrar de dizer: não falta urgência à transversal sensibilização diante do sofrimento social encarnado na iniquidade e na carência.

Ora, do ponto de vista do Estado o assunto será tudo menos como gostaríamos, isto é, apenas orgânico e comunal como o afeto familiar da solidariedade. Não há cordialidade que o vença, e não há papai na medida mesma em que mamãe não há. Antes, o tema é um de estudo e mesura. Busca-se visão capaz de ampliar a abrangência de conceitos sim econômicos como a riqueza, e mesmo a igualdade, para aspectos e condições que não estaríamos, talvez, historicamente aptos a notar e valorar. Mas este já é assunto para outra postagem.

Ser de desejo, ser de mediações, o homem encontra nas mediações, isto é, em sua ação, o que nele há de divino. Porque deseja — carente, mediato, movente-movido, imitador —, o homem se diviniza, pois nasceu com a tendência — hormé, oréxis, bóulesis — para compreender e agir. Ou, como dizem as primeiras linhas da Metafísica, “todos os homens têm por natureza o desejo [hormé] de conhecer”, ou, como lemos no primeiro livro da Política, a finalidade [télos] da pólis é a autarquia e o bem-viver e, por isso, “o homem é por natureza animal político [politikón zôon]” e, como repete Aristóteles na Ética a Eudemo e na Ética a Nicômaco, a amizade [philía] é a virtude que melhor imita a autarquia do Bem ou do divino, pois cada amigo supre as carências dos outros e, juntos, tornam-se mais perfeitos do que separados.

Este é um dos trechos que colhi ao ler Desejo, paixão e ação da ética de Espinoza.

Na pequena resenha de comprador no site da Amazon, escrevi:

Em rara destreza na condução da matéria, Chauí dá com originalidade e eficácia pedagógicas o sumo importante dum filósofo que teria propulsionado o pensamento ocidental das amarras da teologia para a aplicabilidade desassombrada do moderno pragmatismo.


Não foi pouco o que realizou a revolução espinosiana, tocando com engenho e humaníssima lucidez problemas difíceis como o do livre-arbítrio, da dúvida alma-corpo, do dilema medo-esperança, da autonomia política do homem numa Natureza que não o reconhece com a excepcionalidade que outrora gostaríamos, etc.

Amiúde repisando genealogias da evolução de sistemas proposicionais com segurança e vigor sintético, de Aristóteles e Plotino a Hobbes e Descartes, sublinhando e conectando o que se salva ou nos serve, a professora cativa e satisfaz mesmo o não iniciado com generosidade de mãe, cadência de poeta, e rigor de inquisidor.


Saímos do livro convencidos da relevância deste lugar de correção de curso que ocupa Espinosa e sua Ética, contribuição de forte e perene influência para a construção da modernidade e surpreendentemente atual para melhor descrevermos e enfrentarmos os desafios, em especial na evolução tecnológica do Direito, que nos espreitam neste um novo milênio de matiz internacionalizante.


Devo chamar a atenção para pequenas diferenças de revisão entre as versões para Kindle e a impressa, mas nada que prejudicasse a leitura.

Você pode ler aqui o documento com todos os trechos colhidos.

Janela sem fumaça

A CRISE DA Ciência está exposta quando o chefe do Poder Executivo de uma democracia moderna faz pouco dos alertas pandêmicos e contraria as recomendações sanitárias. Vivemos, fica a impressão, um absurdo desmentido dos últimos 300 anos de Luzes.

O impulso ingênuo da crítica será indicar algum incesto, culpa da religião, a atravancar o progresso. No varejão jornaleiro, vênia à arte do quarto poder que ora flui melhor nos camelôs digitais de zap, o produto é nímia, obsoleta bruma.

Estaríamos diante de um mágico de crianças enquanto o grosso da conversação sitiada nas distrações do performer deixa o truque passar em branco?

E se houver, digamos, boa chance de não haver truque?

Nem procederia, assim, o arrependimento bolsonarista (este arrependimento seria uma ficção à wishful thinking), nem seria possível desqualificar a seriedade e a responsabilidade da equipe econômica (vide sucesso de terapias setoriais, arranjo juro–câmbio, articulação condigna do Renda Brasil, tonificação fiscal via austeridade organizacional etc).

Então será encanto? Um tanto amargo à inércia árida da reclamação tradicional, dramatúrgica, da etiqueta política, mais ou menos alienígena à fraternidade brasileira?

Arrisco um palpite.

Para tanto usarei duas metáforas, uma dentro da outra.

Nesta fotografia banal, um acontecimento chama a atenção.

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O porta-livros, objeto K, reflete-se na porta de vidro do armário. No objeto K’, segundo porta-livros, este que se vê no espaço refletido, incide, atenção, a imagem da janela original. Esta imagem, um quadrado de luz, que, nesta perspectiva, K’ reflete, não incide entretanto em K. O objeto K’, para este observador, exibe portanto a forma de K, mas numa luz nova. O reflexo na folha de vidro deixa sua condição inane, por assim dizer, simulacral, e ganha a condição de realidade virtual. Isto porque, apesar de ser forma, ‘age’, ou responde, como matéria. Sua potência, ao prolongar o espaço e colher luz nas mesmas condições mecânicas da realidade concreta, dá-se em Revelação ao observador. Este pode ver, sem se deslocar, um mundo maior; ou, pode ver K e K’ em situações diferentes.

Um plano reflexivo disposto no espaço pode dar ao observador mais que um inane simulacro; pode dar uma realidade virtual. A potência desta realidade virtual será Revelação ao observador em tal ou tal posto situado; será, isto é, enriquecimento inopinado de sua experiência.

Se quisesse conhecer K a refletir o quadrado de luz da janela, o observador teria de se deslocar a um novo posto.

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Aqui, vê-se, em K incide a imagem luminosa da janela. Mas eis que se perde a visualização de K’. Há, no movimento, emprego de energia e empobrecimento da experiência.

Eis comum façanha da caneta vermelha, no Brasil, esta capaz de trair a família real sem ter o que colocar no lugar. É preciso no entanto perguntar se nossa obra será capaz de estudar enquanto os pais trabalham.

Posso olhar para o plano reflexivo, dimensão concretamente formal mas mecanicamente material, como quem olha para a história?

DE ONDE ESTOU, olho para a crítica social, objeto K, com as mãos para trás. Percebo-a dura, monotemática, assertiva, praticamente unânime. A leitura desta opinião não me seduz, intuitivamente, em seu engajamento. Seu temps de bouche é aligeirado e suas notas me levam ao resmungo estético que empanzinou a pseudo-polarização PT-PSDB. Sua negação, no entanto, bloqueia-me certa lealdade nutricional: quem a profere come à mesa da estirpe urbana que me deu de comer. Aliás, verdadeiramente republicana. Resisto à diatribe; volto-me ao studium. Na história, 60 anos atrás: eis K’.

Plano Nacional de Educação, III Conferência Nacional de Saúde, relações comerciais com a República Popular da China, intercâmbio com países africanos, Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura e Estatuto do Trabalhador Rural, Código Brasileiro de Telecomunicações, sistema Eletrobrás, Usiminas, porto de Tubarão, Companhia Siderúrgica Paulista.

Nem a auesteridade fiscal do ministro Furtado foi entretanto capaz de iluminar a crítica, que insistia teimosamente no descabido populismo (ou seria um delirante medo da ameaça vermelha?) da empresa goulartiana.

A forte contrariedade opinativa que sofreu o governo Jango, ou K’, exibe a confusão interpretativa que hoje não se dá à luz devido as contingências do acontecimento Bolsonaro. A novidade deste acontecimento, e sua eficácia em distrair os apressados, vem roubando a análise de seu bojo, a ciência de sua dignidade ontológica.

Quando escancara a fraqueza do Presidencialismo e nos deixa antever a caducidade inerente da expectativa meramente estética diante de uma organização especialmente empresarial como o Poder Executivo, Bolsonaro não convida ninguém ao oblívio da habilidade negocial, da acuidade em diagnóstico, e do comprometimento autêntico que destravaram as atualizações trabalhista e previdenciária, tímidas porém frescas diante do pântano.

Posso, como observador, empregar energia sem perder de vista a história.

Dar à atualidade participação situacional sem importe categorial (ou predicativista) redutor do escopo epistêmico.

Ser analítico e pragmático ou nada dizer e voltar-me, mãos para trás, à história. Aí sim, solicitar à Ciência sua excelência e propor ao ensaio crítico contribuição geracional. Algo bem diverso de dar a última ou ‘mais verdadeira’ palavra sobre o que quer que seja, este deslize de domínio que ilude a participação de um discurso com a imposição e o juízo da própria Lógica. Antes, testo metódica e comparativamente hipóteses interessantes porque posso ver K’. E porque vejo também K, dirijo-me à atualidade em contrição urbana, em observação poética do que está porque o estudo crítico deixa.

Força e entendimento

Diferença é ser para o outro. Diferença não disto ou daquilo, mas diferença em si – equivalência universal de Força. Para que possa ser, Força há de estar livre do pensar. Há de estar colocada, antes, como substância da diferença, inteiramente.

Por si, tem dois momentos: i) manter-se Força (Noção de Força); ii) desdobrar-se em coisas (que parecerão coisas mas serão expressão de Força).

Não pode estar Força num momento sem estar no outro, ou deixaria de ser Força.

O que pode e acontece é Força solicitar Força. Força pensada a livrar-se do pensar e a expressar Força na coisa que segue. Em verdade, porém, só sabemos Força no pensamento.

– – –

O breve desenho hegeliano é metódico. Para o leitor, resta continuar, prolongar o que diz o filósofo. Compor o entendimento é tarefa de uma mente. Quanto mais importante o tema, mais importante continuá-lo.

Onde está a diferença, ao fim? Na coisa que segue. Porque Força, não mais pensada, e ainda Noção de Força, desdobrou-se.

Dizer entretanto inteiramente colocada como substância da diferença parece desmerecer a dignidade existencial do momento i. Ou haverei de cogitar Noção como a história de uma noção.

Pois se está colocada inteiramente como substância da diferença, Força parecerá coisa. É preciso perguntar se tal processo avariaria a chance construtiva da noção do que não é coisa.

O fluxo filosófico (Arfeu) persegue a coisa (Aretusa) para que a Fama espalhe a boa nova: o que era potência atualizou-se.

Não se faz contudo Itália de Noções. Antes, Itália é ela mesma coisa de coisas, completamente; que tampouco seria sem Força.

Ora, se Itália tem a coisa história da Itália, por aí pressuponho um caminho.

Na história dessas coisas, nada leviano contará que perdure, uma vez que o historiador exaure o pão filosófico da dúvida. Então, coisa que segue foi diferença – consubstanciada.

Momentos ii saltarão ao cenáculo. A disciplina solidária crescerá, da petrificação meramente germinativa da marcação orgânica Força nas buscas do historiador, sua Noção.

Donde fica demonstrada, na arte de Hegel, a priorização secundária de i (Noção de Força) graças a ii (expressão), chance ilesa dessa construção.

Mas: ponta solta: por que, livra-se do pensar? Porque coisa nenhuma comunica. Simulacro nenhum ganha força. Força pensada seria Força na proeza absurda de já não ser i e não ser já ii.

Se vossa ideia é criticar os modos contemporâneos, o fluxo filosófico dá-se em ponto de partida? Pergunte: a coisa comunica ou apenas aparenta? Desconfie que, muito provavelmente, apenas aparenta. Nossa forte crença é que coisa nenhuma comunica, simulacro nenhum ganha força.

Nossa forte crença é que o que há são diferenças nas quais Força, livre do pensar, desdobra-se em coisas.

Travas na língua

Isidoro Martins Junior faz publicar, a 10 de novembro de 1893 no Recife, sua nota de repúdio à parte da ocupação da baía da Capital da República. Antes, porém, é bom lembrar: a inteligência brasileira, tortuosamente novomundista desde sua certidão de nascimento em 1824, quando uma Constituição liberal segue a dissolução de sua própria Assembleia, não chega a incorporar o clássico, eficaz conservadorismo. A tensão política, aqui, se deu porque só soube se dar do centro à esquerda. A disputa, amiúde pueril e sem estofo, pela posse dum autêntico espírito social e transformador, toma o quanto pode das polêmicas a aderência que o bate-boca perde em pseudo-argumentação de pureza de origem. Como se o liberalismo, a orientação pela crescente emancipação social e os demais atributos das inovações políticas franco-americanas fossem fatos sanguíneos ou hereditários, e não meramente racionais. Tal marca seguirá, acompanhada da figura desconfiada e jacobinizante do Poder Moderador e do encardido espectro da Questão Militar, como se vê, até nossos dias.

Quando outorga o Imperador e Defensor perpétuo do Brasil o diploma constituinte de 25 de março de 1824, o gesto é revolucionário porque compreende, contra a obsolescência da organização provincial dos donos de terra, as qualidades capazes de consubstanciar a atualização urbana dos conceitos de poder, respeitabilidade, obediência e coesão. A coloração da longeva e enfática realidade colonial,”aristocrática e personalista” nas palavras de Sérgio Buarque de Holanda no livro Raízes do Brasil,  não deixa que a cidade nasça e prospere, pois cria atração magnética à Casa Grande. Em torno dela, os pobres ofícios e o comércio marginal estarão em completa subordinação ou sedento, quiçá sedicioso improviso.

Nossa Carta inaugural, todavia, decide apostar no que era até então, como lembrará Brasil Bandecchi no livro O município no Brasil e sua função política, a única estância de autêntica representação do povo – as Câmaras Municipais. Não será, da parte da Carta, um não senso; antes, quem sabe, um contrassenso. E talvez esteja aí, no título sétimo, capítulo II, artigo 169, que dita,

O exercicio de suas [das cidades e vilas] funcções municipaes, formação das suas Posturas policiaes, applicação das suas rendas, e todas as suas particulares, e uteis attribuições, serão decretadas por uma Lei regulamentar.

– lei regulamentar, isto é, com autonomia não só diante do governo central, mas especialmente ante a Província –, pois talvez esteja aí, nesta chaga ou nesta luz, a Constituição brasileira a negar de abjeção (ao menos em letra, num contágio que há de ser lento em ambiência rural) o vício estrutural mais arcaico da terra, a psykhé pré-moderna e de jeito nenhum tradicional dos donos de fato da ocupação territorial.

Quatro anos depois, por óbvia pressão do Legislativo que não sabe representar um povo que não existe, lavra-se a Lei de primeiro de outubro de 1828. Inconstitucional, na leitura de Bandecchi e também na nossa, ela pretende revogar a bela característica de estímulo à autoridade municipal de 1824. Em detrimento da força da cidade, a Lei de primeiro de outubro dá dois passos para trás. Dita, no artigo 78, que:

E’ prohibido porém todo o ajuntamento para tratar, ou decidir negocios não comprehendidos neste Regimento, como proposições, deliberações, e decisões feitas em nome do povo, e por isso nullos, incompetentes, e contrarios á Constituição, art. 167, e muito menos para depôr autoridades, ficando entendido, que são subordinadas aos Presidentes das provincias, primeiros administradores dellas.

Deliberação local nenhuma, sequer “em nome do povo” (sic), seria possível sem o aval da autoridade provincial. Atentemos aqui para a abrupta aparição do termo “contrários à Constituição”, que no Brasil significará não raro ‘contrários à nossa vontade’, sendo de parte a parte evocado sem mesura como uma acusação última, passível de agressão ou ameaça da parte acusatória. Salientemos, martelando e contrastando com noção de integridade, que um mesmo objeto não pode ser A e não ser A. Pois que a não contradição, por antiga e evidente, não foi familiar às discussões que, do centro à esquerda, abarrotaram ou vêm abarrotando nossas folhas e sessões parlamentares.

Nem central, nem local, o poder da província operará por muito tempo como um negócio um bocado obscuro e autárquico, capaz de contrapesos e pressões que tanto marcarão o árduo processo emancipatório e de unificação nacional. Eis que a fazenda escravista de monocultura fornece, em virtualidade e nova roupagem, a contradição brasileira ao estrato burocraticamente válido da Província.

É preciso insistir na tipificação de uma postura, entre a fidalguia bastarda e o arrivismo perdulário, a caracterizar homens de quem Buarque de Holanda dirá “adventícios ambiciosos de riquezas e de enobrecimento”, com a mesma frieza que Lenin adotará, mais adiante, para observar os capitalistas financeiros. “Não partilham o mundo”, dirá o ensaísta popular, “levados por uma particular perversidade, mas porque o grau de concentração a que se chegou os obriga a seguir esse caminho para obterem lucros”. Este tipo – nem fazendeiro, nem escravo, nem afeito à oficina – é um dos fundamentais arquétipos brasileiros.

A depender da contingência, sorte ou falta de sítio aonde ir, o tipo achará em breve, na organização militar, a ‘mersa cavernis’ de Arfeu e Aretusa. Far-se-á um, não com este ou aquele saber fazer, mas pura e simplesmente com a segurança completa do dono de terra, lembrança talvez carimbada no semblante daqueles que, intimoratos e enfáticos, controlam e sentenciam.

Comentando, em janeiro de 1889, a difusa incompreensão dos movimentos do republicanismo brasileiro, o Journal des Debats, em coleta de Delso Renault no livro O dia-a-dia no Rio de Janeiro segundo os jornais, 1870 – 1889, dirá:

Quando se souber que o Exército brasileiro conta com 1 oficial para 13 soldados, compreender-se-á facilmente como os republicanos intransigentes, bacharéis, advogados e jornalistas – na sua maioria – sonhando tão só em chegar ao poder encontram fáceis adesões entre os chefes de tropas e, sobretudo, entre generais ambiciosos que brigam pelas altas dignidades.

Dos 52 militares congressistas em 1890, 9 eram do Sul ou da Corte, 4 do Sudeste, 15 de “outros lugares” e 24 do Nordeste, informa Murilo de Carvalho no livro Forças Armadas e política no Brasil. Os dados demonstram a tradicional conexão entre a grande propriedade agrária do Nordeste e sua transformação em influência provincial; demonstram esta sorte de duplicação do honorífico senhor de engenho no ambicioso oficial militar.

A afronta à orla carioca de 1893 que por seis meses e sete dias desorganizou o comércio e o ir e vir naquele município é um objeto de interesse histórico porque nos chega eivado de equivocidades categoriais e prenhe de, num microcosmo, iluminações sobre os multívocos e conflitantes desejos da alma brasileira em seus primeiros passos republicanos. O livro de Villalba traz, como dizíamos, um depoimento de notável equilíbrio.

Isidoro Martins Junior, acadêmico pernambucano e republicano de positivista jaez, faz publicar, a 10 de novembro de 1893 no Recife, sua nota de repúdio à parte da ocupação da baía da Capital:

Os que os promovem [os intuitos do movimento setembrino, na leitura de Martins e também na nossa, uma revolta] esquecem-se de que as revoluções não se inventam, não soem ser o resultado da vontade de um homem e sim o produto de toda uma época ou de muitas épocas históricas, através das quais se foram estratificando lentamente as cóleras e as aspirações sociais, até chegar o momento de fazerem voar a crosta do mundo político n’uma explosão vencedora e definitiva. Assim a revolução francesa, assim a revolução americana, assim o 15 de Novembro.

A 4 de setembro de 1850, um objeto jurídico de sintética, reveladora importância, vem à luz na forma da Lei 581. Diz seu artigo primeiro:

As embarcações brasileiras encontradas em qualquer parte, e as estrangeiras encontradas nos portos, enseadas, ancoradouros, ou mares territoriaes do Brasil, tendo a seu bordo escravos, cuja importação he prohibida pela Lei de sete de Novembro de mil oitocentos trinta e hum, ou havendo-os desembarcado, serão apprehendidas pelas Autoridades, ou pelos Navios de guerra brasileiros, e consideradas importadoras de escravos.

Aquellas que não tiverem escravos a bordo, nem os houverem proximamente desembarcado, porêm que se encontrarem com os signaes de se empregarem no trafico de escravos, serão igualmente apprehendidas, e consideradas em tentativa de importação de escravos.

Vinte anos depois de proibida, a importação de escravos seguia. A lei de 1850 cria, talvez pela primeira vez em nossa história de forma tão contundente, um estado de exceção, de guerra tácita e repressão estatal, no caso contra os operadores do tráfico de africanos. A reação, em terra, a reboque dos primeiros casos de intervenção em mar e apreensão de embarcações, foi das mais esganiçadas entre o dinheiro antigo e seus patrocinados. Como seria possível o Império dispor brasileiros contra brasileiros em prejuízo do bom andamento dos negócios?

Caio Prado Jr., no livro História econômica do Brasil, tem como um dos veios centrais de sua disciplinadamente dialética mesura expositiva, a decadência econômica da grande propriedade do Norte. O autor cita, além do contexto internacional a criar concorrências vantajosas à cana brasileira, a lei de 1850 como um dos golpes que abalariam o regime produtivo da monocultura escravista. A crise do açúcar entretanto só se concretiza quando um novo personagem da terra mostra-se potente o bastante para disputar o protagonismo. O café, diz Caio Prado

em confronto com a cana-de-açúcar, é uma planta delicada. Os limites de temperatura dentro dos quais prospera favoravelmente são muito estreitos: 5 a 33 C. O cafeeiro é muito sensível tanto às geadas como ao calor e à insolação excessivos. Requer doutro lado chuvas regulares e bem distribuídas, e é muito exigente com relação à qualidade do solo. Finalmente, ao contrário da cana-de-açúcar e também ao algodão, é uma planta permanente e tem de atravessar por isso todas as estações e anos sucessivos sem substituição. Outra dificuldade da lavoura cafeeira é que a planta somente começa a produzir ao cabo de 4 a 5 anos de crescimento; é um longo prazo de espera que exige pois maiores inversões de capital.

Deste modo, physis altera praxis, exigindo ao trabalho mais ciência e ao capital mais vigília ao estágio de financeirização internacional. O fazendeiro do café, diferente do anterior, haverá, por exemplo, de ler jornal. É provável que, uma vez que foi à banca, em alternância ao campo, deseje ficar e fruir da cidade que passará, de roça carola, a cidade do bonde elétrico em 1900. Esta nova elite, passo a passo, religará o ímpeto municipalista, artificialmente originário (uma vez contrário à essência provincial da nação), frustrado em 1828. O microcosmo paulistano, cidade do Modernismo que, ao menos até o Estado Novo, fiar-se-á numa espécie de cosmopolitismo distanciado do nobiliarquismo oficialesco, cavando entretanto a nobreza do homem comum, migrante, imigrante, forâneo, patriota, construtor e, a seu modo, vencedor sobrevivente no ecletismo antropofágico da cultura utópica, feita sua por rigor obstinado, fará portanto a ponte entre a má consciência militar, o republicanismo corrompido pelo falso republicanismo, e os novos compromissos do Estado Novo.

أمير البح

Em grossas linhas, o mito de Aretusa é um metamito. Sua mais emblemática aparição, prove-se contrário, são os versos 639, 640 e 641 do livro V de nossa Metamorfose, aqui em edição alemã de 1977:

Delia rupit humum, caecisque ego mersa cavernis
advehor Ortygiam, quae me cognomine divae
grata meae superas eduxit prima sub auras.

Casta e amedrontada, a Ninfa por Diana consolada em densa nuvem precipita. Seu medo, Arfeu, persegue-a – porque nua.

Ao ver Aretusa em água – por ter ou querer, quem sabe nele, a Desejada –, faz-se Arfeu na coisa amada. São ele e ela água inseparáveis; ele que a culpa saudava, ela que um fluxo temia.

Não é secreta, a cripta aonde descem. É antes cega, diz Ovídio – como a Justiça –, a nova assembleia. Leito doce & submarino a fluir frescor ao substrato, farão rica, os amantes, a ilhéu Sicília.

Misérrimo Arfeu, Aretusa infensa: o infortúnio do desejo, a iniquidade do dínamo, a providência da autoridade, a alteração material, a redução à origem, o renascer.

Antes cega porque, como dirá Lao Tsé, “doa-se sem disputa”. Estamos no poema 8 d’A Marcha Ingênua:

Ver da água sua fluência
Lá onde os homens não querem
A água quer: sem preferência
Como o Tao, a água está perto
Do chão; flui sem pretensão
Não controla e não compete
Move um leve coração
Porque doa-se sem disputa
Contra está à oposição

Metamito porque se prestam, os versos de 639 a 641 do livro V de nossa Metamorfose, sem penduricalhos, à simples espécie εῖδος Mito, cujo princípio – um mito é a atualização de um mito – não pode, por mito algum, negar-se.

perspectiva artística da então sitiada Rio de Janeiro | autor desconhecido

Coisa diferente será ler a história, que exigirá do filósofo i) a responsabilidade tátil do escrutínio comum; ii) a tessitura, contra a fantasia edificante e ad hoc do Mito, em doses iguais de escrúpulo e desinteresse.

Tentemos um ensaio.

À página 97 do livro A revolta da armada, de Epaminondas Villalba, disponível aqui, lê-se:

Às 3h30 da tarde do dia 3 [de novembro de 1893] foi observada para os lados da ilha do Governador uma negra coluna de fumo elevar-se na atmosfera e sentido logo em seguida um terrível estampido que, abalando o solo em um âmbito bastante considerável, pôs todos os moradores das circunvizinhanças sobressaltados. Eram os paióis de pólvora da ponta do Matoso que explodiam. Não estando ainda bem averiguadas as causas deste desastre a que parece não ser estranha a intervenção de uma máquina infernal, nem determinadamente avaliado o número de vítimas, sabe-se que dentre estas figuram […]

a que se segue a nomeação de oficiais.

Quando objetos concorrentes à história da gestação republicana no Brasil como proprietários de terra do Sul e do Norte, jornalistas mais ou menos autônomos, militares mais ou menos nobres, intelectuais mais ou menos radicais e a família monárquica atuam na complexa emulsão de um passado decisivo, o esperado conúbio não é outro: intuição – pulga exacerbada pela medicinal solicitude da anamnese –, e coleta – esquematização sistêmica de leituras congênitas – em prol duma só água que de sua mais franca ‘aguidade’ não prescinda.

É preciso perguntar: como os seis meses e sete dias da ocupação da baía de Guanabara contra o governo de Floriano Peixoto, conduzida pelo então Contra-almirante Custódio José de Mello, podem ser lidos de modo a mitigar a difusa incompreensão do evento República Velha?

Qual dulçoroso leito

Baixo muito mais suor porque no curso crosta-magma os achados estarão ‘ex oculi’?

É como ater-se em garbo inquisidor de volta à história, mas neste caso a história não dos fatos, que documentos proveria ao tato, e sim das formas, que nada à mão fiável provê.

A tarefa da tenção filosófica, salvífica no que confere torque às atualizações necessárias, imitará Cristo também no que descende à mansão dos mortos sem qualquer protocolo de segurança além do aguerrido duma fé praticamente mística:

si modo quod memoras factum fortuna sequatur

diz Virgílio no quase perfeito verso 109 do livro IV de nossa Eneida.

O episódio central, aí, é a união erótica de Dido e Enéias. À moda do que a εῖδος epopeia marcara a psykhé modernizante dos latinos, o principal autor literário do Ocidente memora a mais que proba manha grega, o Narrar Dramático.

O narrar dramático está contido na mais grega das técnicas, lógos, ou a arte do discurso.

A mitografia hélade, de início oral, isto é, escrita somente na mente, não só foi a responsável pelo nascimento da filosofia, posto prestar-se invariavelmente em télos cosmogônico ou originário-organizacional, mas fez também com que ela, a filosofia, quando a vanguarda do interesse artístico na Atenas pré-Peloponeso assume, englobasse, a si e ao mito, na categoria ou conjunto superior do Discurso – ordenação sistêmica de unidades terminológicas, Nomes, com fins proposicionais – e estes com fim dialético.

Memora Virgílio Homero ao dar a deuses e similares a maquinação da fortuna dos homens. O verso 109 sai da boca de ninguém menos que Vênus, império da formosura, à face artimanhosa de Juno, que por sua vez armará as condições ambientais para que Enéias inocente e misérrima Dido caiam presas do amor.

O plano dá certo.

À entrega do casal, diz-nos prenhe de ático espanto o verso 172,

coniugium vocat hoc praetexit nomine culpam

O princípio desta busca é voltar à crosta salvo – mas também salvando. De mais ricos solos trará o filósofo mãos cheias. Mas não dum composto qualquer. Antes de physis* – natural cultura humana – decomposta e lida.

A moto segue, vagarosa e circulando, pois que teima analisar. Felídeas mãos, agora que em faro e mandíbula fez sua parte a arma lupina. A emergência do impensado rima, lembremos, o que está por vir e aquele que pensa. Harmoniza o que ainda não é com o que cabe em meu querer. Antes da prova, ou junto dela, experimento:

chamam conúbio, querem desvelar

O ato é de amor porque nem nada escondem quando i) se arriscam, Dido e Enéias, obliterando política por êxtase; e ii) reduzem corpos historicamente engrandecidos por discursos à anomia erótica.

Lembram homem e mulher de uma fulcral segurança inominável no amor? Ou quem ama é Eros, tradicional εῖδος grega ofertada no Banquete de Platão? Se sou capaz de dizer e pensar ‘anomia’, a anomia existe?

“O que ama o Amor?”, pergunta a filósofa (CHAUI, M., Introdução à história da filosofia. São Paulo, Cia. das Letras, 2002).  E responde:

O que dura, o perene, imortal. Ama o bem, pois amar é desejar que o bom nos pertença para sempre. Por isso Eros cria nos corpos o desejo sexual e o desejo da procriação, que imortaliza os mortais. O que o Amor ama nos corpos bons? Sua beleza exterior e interior. Amando o belo exterior, Eros nos faz desejar as coisas belas; amando o belo interior, Eros nos faz desejar as almas belas.

Prenhe de ático espanto é o verso 172 da Eneida porque pode ser lido, em contínuo ganho escolástico, como a cópula originária duma εῖδος primordial, misérrimas luvas, inocentes mãos, aliadas em função eclesiástica do que ascende – da morte à eternidade.

Segue entretanto do gozo um novo espanto. Agora a cena é quase tão rica quanto a Pandora de Machado de Assis, emblema supremo de nossa Memórias Póstumas. Aqui, é a Fama. Em metonímica coreografia, a personagem espalha a energia da boa nova num corpo de elástica plástica:

ingrediturque solo et caput nubila condit

este sim um verso perfeito (177).

Sente o leitor a influência de Aretusa? A seguir trataremos dela. Antes, ensaio:

A grados pisa o chão, mente nas nuvens.

Não é outra a fama do que floresce, filhas as flores de terroir e atmosfera, húmus e altura. Dedáleas entretanto se desdobram, e assim entretêm, nossas histórias desde Homero. No que gozam, complicam-se; e nisto ativam sombras e uns escândalos.

É a vez de Mercúrio, extremoso de apolínea culpa, cobrar do homem insuficiente – multá-lo? – seu compromisso, labor construtivo amestrado, ou nada na história de Troia vingar-se-ia. Não porque Apolo assim deseja, mas porque falha, aqui e ali, a nossa Eneida. Eram, pergunte-se, amor e obra, excludentes?

Em nada arrependido, antes vestido no púrpuro da virtude amorosa, está Enéias. À praia, contempla. Em triste viravolta, o mensageiro o amarga. Traz-lhe a antiga sombra da inveja, brumada e temerosa. Toma de assalto, seu cogito, a moderna confusão duma clivagem:

atque animum nunc hoc celerem nunc divit illuc
in partesque rapit varias perque omnia versat

A mente vagueia, incerta e incapaz. É de novo o homem um barco sem porto. Vale dizer: a moto do filósofo não teme conhecer o tanto que teme parar. Familiarizar-se com um mundo a cada passo mais largo não supõe trocar o reino infinito pela monografia do conforto.

Pese o baque, o amor e a dor, o livro IV traz ainda uma bem realizada cena de DR, que nada fica devendo ao melhor cinema do gênero (comédia romântica). Construir a Itália, diz Enéias e Dido,

hic Amor, haec patria est

Não é sobre você, Dido, é sobre a Itália. Prenhe outra vez da sophía da Academia e do Liceu, o dictum de Enéias o faz Virgílio antes político que maldoso. Resignado, o filósofo retorna, pés no chão e a mente em branco, enquanto o corpus social frui das ricas florações da cidade. Em seu antebraço, em pedaço, ou imperfeito para a época de Virgílio mas redondo para a época de João Cabral, um octassílabo (verso 361):

Italiam non sponte sequor

Com Odorico Mendes,

Não espontâneo para Itália sigo.

Com Carlos Alberto Nunes,

Não busco a Itália por gosto.

Ou ainda,

À Itália não é meu querer.

Vigor Vestibular e Progresso

É preciso perguntar se a mais marcante expressão da geração nascida com a República foi seu compromisso com o autoritarismo do Estado Novo. A pressão, que não deixa dormir esta pequena pulga, diz respeito ao que chamaríamos jocosamente propedêutica euclidiana. Simplesmente: teoria dos conjuntos.

Houve esta ambição: generalizar em plano federal os melhores experimentos da inovação escolar dos anos 1920 (citados aqui e criticados aqui).

Quando dissemos, há pouco, “substrato continuado em interesse estético”, procuramos atentar o leitor à causalidade tradicional a unir substrato e floração. Ou dizer que não há erro neste silogismo: de mais ricos solos, mais ricas florações.

Quando o assunto é teoria do ensino, perscruta-se entretanto a compreensão do termo ‘rico solo’ baixo muito mais suor.

Por que teoria dos conjuntos? Porque ‘constitucionalismo’ não está contido em ‘progresso’, mas ‘carro na frente dos bois’ está muito menos. O bem comum não está quando alguns estão praticamente excluídos. Mas o bem comum está muito menos quando alguns estão arbitrariamente excluídos.

Ora, que os paulistas chorassem porque ‘nós que gostamos do povo de verdade’ saberemos o que é melhor não é senão colocar o carro na frente dos bois. Mas o que o choro paulista representa é um conjunto menor a tentar conter um maior: irracionalidade.

Cremos na indução e praticamos a dedução, mas sedução tem limites que sua própria essência brinca de brumar. E por quê? Porque não é de si a procriação, e sim e antes um ganho privado. O princípio da sedução contraria absolutamente a εῖδος República. Demonstra-se, assim, que a expressão mais marcante da geração nascida com a República foi seu compromisso com o autoritarismo do Estado Novo.

Quando entretemos pares de oposição dialética, a primeira e talvez única regra é não entrar comprado no jogo. Não vale, como fez o quase pragmático socialismo brasileiro dos anos 1930, dicotomizar Tradicional–Moderno sem que ambos os termos estivessem considerados integralmente. Num mundo reduzido de saída, a dialética descansa e manda a campo seu simulacro – a velha rinha entre o galo branco e o preto onde um é o bom mas o malvado e perverso é o outro.

O sujeito político é livre para consumir em méthexis aditiva E subtrativa porque interesse estético está contido em ambiência ética. Daí, coincidentemente, diremos não só que estética está contida em ética, mas que interesse está contido em ambiência. Isto porque a εῖδος interesse pressupõe o ‘interesse’ de boa parte dum real que não nos cabe, physis em ὕλη impredicável. Só sabemos de ‘interesse’ o que à limitada humana cultura interessa, enquanto de ‘ambiência’ sabemos com segurança que há muito mais que nós.

Ambiência é amb-ire, sorte complicada de redundância etimológica que se traduziria como ‘ir por aqui como por ali porque vou ir’, ou, talvez melhor, ‘tantas veredas, eu só um’.

Deste adorável prefixo, ‘amb-‘, não é tão curioso apontar seu préstimo a outro termo, ambição.

Ambicionar é mão dupla
Encontro do seu querer
Com outro, meio biruta
Querer do mundo a correr

Nesta pílula ética, Lao Tsé alerta a posteridade dalgo como: ‘seu pai e sua mãe voltarão para puxar seu pé se e apenas se de dentro de si você os livrar’.

Interesse estético a guiar consumo cidadão em meio à variegada floração porque Estado Contínuo é physis*; isto é, a jogo comprado há de tornar jogo comprado*.

An innate and irrepressible desire to judge before he understands (KUNDERA, The Art of the Novel, apud RORTY)

Mas se o labor da physis, sua prática poética diuturna, é passar-nos ὕλη (matéria “cujo ser é outro que não o de cada uma das coisas que se predicam” – Met. Ζ3, 1029 a.) em εῖδος (objeto ontologicamente orientado), cabe perguntar: qual o labor social?

Voltemo-nos ao εῖδος República brasileira.

Foi teimosia sua cesária, erupta na Questão Militar em meio ao seio do segundo Império? Se sim, por que se traça o Mapa Astral do Brasil desde os não menos atribulados eventos de setembro de 1822 em solo paulista, isto é, sessenta e sete anos antes daquele 15 de novembro em solo carioca?

A polêmica nos acompanhará, acampada nas bordas da compreensão, a missões realizar quando de uns transes nasçam cresçam florações – substrato continuado em interesse estético.

A dia-gnose deste jovem projeto democrático categoriza golpes, abusos, fracassos, conspirações e impaciência para que aprendamos a recomeçar com aprendizado e cura ou para que a tentação da exceção se renove?

Cultivar o espírito constituinte, eis uma das marcas políticas mais antigas. E por que, lendo a história, aprendemos que o estado constitucional samba amiúde em negação, quando a exceção é “o horizonte sempre dilatado da normalidade institucional, que por sua vez se expressa na ordem estatal, ela mesma composta por essa coabitação entre Constituição e sua anulação rotineira?” (ARANTES, P. Extinção. São Paulo, Boitempo, 2007)

Se a realidade dual do Estar parece εῖδος inarredável, o desafio será este de não ambular retoricamente dentro da caverna protopolítica. Labor social é compor a Política – sem jamais esquecer de que a alma tende à participação nas e pelas florações. Estudando-as, oferecendo-as e consumindo-as em méthexis aditiva E subtrativa.

Qual o labor social? Resposta: ir buscar, na εῖδος talvez mais distante, a psykhé, sua feição de contragolpe: materializar. É que em Nosso mundo, nada será Não predicável. A via láctea estará “celeste”, o olimpo “extremo”, e os astros a ter “calor”, em termos aqui de Parmênides. Porque celeste, extremo e calor, segue o bardo eleata, “têm o ímpeto a tornar-se”. Emergência do impensado, prática poética diuturna do corpo social, este que rima “o que está por vir e aquele que pensa” (SAFATLE, V. Dar corpo ao impossível. Belo Horizonte, Autêntica, 2019).

Operar Cria e primor é responder physis com physis*. Porque o mais distante aonde vamos, εῖδος psykhé, é lá de onde se vê as outras muitas ideias, libérrimas em nexos, forças e solicitudes, antes que as reconheçamos em physis* e, governantes-governados, as consumamos.

Finito e Ocupado

Ser em Estar – eis a famosa questão pré-socrática (ser ou não ser) atualizada pela física moderna. Com efeito, da ontogênese parmenidiana (eón > noûs > tó eón (dóxa) > kínesis > lógos > eón* (alétheia?) > noûs* >…) à relatividade einsteniana (Tempo está contido no Espaço), crescemos duma questão em negação maiêutica a uma afirmação prescritiva implicada. Será um câmbio mais culinário que dietético ou mais dietético que culinário? Como for, puxará a seu reboque e exemplo, a sua tração e luz, inumeráveis maneiras novas de fabrico e análise?

O dado fundamental deste estágio (estágio que, apesar de todo nosso divinal desejo dum saber imediato, será, como cada passo firme da ciência, apenas literário) é a hipótese forte (praticamente tácita) do continuum quarto-dimensional.

Perceber sua Forma tem sofrido todavia desserviço, infelizmente, graças às distrações que tornam a mesma física – ou o discurso Referencialista  específica. A saber, i) seu pueril cosmologismo axiomático da representação; e ii) sua falta de musculatura, que a não sustenta em paridade aos contumazes inquilinos financeiros e mais ou menos políticos.

Nossa opinião: o continuum quarto-dimensional é indicial e não etéreo (não ocupa nem preenche, mas perpassa). E, arriscaríamos, não é – mas está. Indicial porque faz mídia consequente. Está porque implica-se – não com nada mas especificamente conosco (poderia entretanto persistir ante nossa extinção, e servir-se de coisa vária e melhor). Faz mídia consequente porque foi cativado pela tecnologia psíquica. A inteligência humana, quando buscou nomear, usar e alterar o inteligível, passou a gravar neste continuum. Fenômeno tátil e lógico-construtivo. De certa forma adotados, seríamos componentes Responsáveis e operadores de Cria e primor.

Até a física moderna, portanto, a preocupação filosófica cuidava da ética do Ser. O projeto enriqueceu-nos mas meio que frustrou-se quando realizou seu único rebento: a nada desprezível mas verticalíssima psicanálise do espírito (trauma, pedagogia, reconhecimento…). Do mundo quântico em diante, o pensamento ocidental passa a cogitar não mais a praxe ‘logo será’, mas este estranho ‘já está’.

As consequências desta visão podem robustecer o caminho da ciência (tratada aqui em seu sentido estrito de infanta de 300 anos), mostrando a ela que o sabor do saber é incontornavelmente poético, e que é bom que seja assim. Pode também, porém, conferir à premência política a transição dietética capaz de enfrentar a tensão colocada entre localismo e globalismo. Por exemplo, na organização democrática atual.

região de Campos Elísios em São Paulo | @tourobengala

Em quase absoluta estase e vítima das quarentenas categóricas da conivência do Direito e da ganância, da gestão despudorada e das particularizações exageradas, a organização democrática atual gira em falso, geração trás geração, desperdiçando dínamo em técnica ossificada. Se, contudo, tomada filosoficamente como realidade psíquica do Estado Contínuo, pensar e fazer hão de operar em simbiose à boa e velha maneira ‘oriental’ (aqui no largo sentido ‘orientalista’ das religiões meditativas e minimalistas e ainda assim totalizantes, desprendidas e não dogmáticas e ainda assim disciplinadas) ao compor um desejo político em que a importante Conquista será mais estar do que ser. Já estará, mais do que logo virá a ser.

Pergunta-se: além do alvorecer da delicadeza conectada, a Cidade buscará mais eficiência a partir de menos efetividade?

RAM

Eis que entre plúmbeos, capitosos nhenhenhéns perante as óbvias providências de labor quando de um monstro não sabemos mais que a vida normal nas alemanhas, os trilhões americanos, & as arruaças das baladas italianas, exsurge e prepondera um fato estranho: a força, que força julgávamos, mas força por quiçá talvez não seja – procura nos dizer a virose aquariana –  é – queiramos ou não – ela mesma: a luz elétrica. oo Um governo forte conciliaria os desânimos portanto se convocasse, sem demora, às casas domésticas de famílias, a voluntariedade, por ufana e cidadã, patriótica e solidária, dum curfew irrestrito. Mas sim, das luzes elétricas – este fogo, se nada, fátuo quando oscuro do que o paga.

Por essa, diga você mesmo, pouquíssimas esperávamos. Que das vagas anti-horárias dum frutículo bosquídeo ventosiano convidados fôssemos a retomar, e humildemente, se mais luz elétrica que o arrazoado juízo prudencia vamos lá lançando mão; e, se sim, quanto mais, e – precisamente –, se ainda sim, por quê.

Susanne Ussing | via @saatchi_gallery

Ela desapareceu ia nua – diz no verso quinto de sua ‘Estrela da manhã’ Manuel Bandeira. Não pode ser, lido hoje, que trate doutra coisa que não da luz elétrica, exclamação em si para que a gula de ver quando nem deuses ousariam – e nós, baixíssimos, mortalíssimos, jogando caixeta à luz elétrica, à luz elétrica groselhando polititicas sem ter as Cartas a Lucílio em boa, corada conta –, e daquela sua pseudoengenhosa lâmpada a esturricar mansardas, objeto que com tantos pecou e se objeta hoje em procura: substituir-me ou fazer outras coisas? Uma delas – dormir – pressuporia rombos orçamentários em frascos Weleda – pois que é tua, a parca saúde; outra, cozer às destras mãos que tudo veem, violões dedilhar e trovar à luz da lua, até que alternativas nativas exsurjam e possamos, os notívagos ou todos os em dupla jornada, vagar contrários nos eirados quando o sistema pede silêncio e espera.

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Habacuc é um poeta singular. Escriba a serviço de YHWH no século 6 antes da era Cristã, integra o antigo testamento com três petardos que iriam, na opinião do tradutor, contra a maré profética deuteronomística (esta que prega que a má sorte judaica é castigo), exortando os que às abjeções babilônias sofriam, o aguerrido duma fé praticamente mística:

O Santo virá de uma montanha arborizada, de boa sombra.

Ou ainda (ao Senhor):

Leva-me a escalar as alturas
Para vencer com a Sua canção

Em Habacuc, tudo se passa como se o ékstasis da perseverança trouxesse a força que habilita as próprias alturas escalar, ganhando da negativíssima experiência da maturação a cabeça partida dos poderosos, e dela um tremor nos ossos, horizonte estuporado agilizando, e carruagens apropriassem para que o ir fosse este ir como o dos justos, o ir como o dos necessários.

 

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Flâmeo e cardinal – energizado e transido –, regido pela forja da luta Marte, Áries é o signo do ano 2020, no outonal equinócio iniciado. O fazer originário e entusiasmado ocupará a fronte dos projetos de vida com afinco tocados. Porque traz 2020 todavia Saturno em Capricórnio, este fazer será desviado da livre-iniciativa libertária e empurrado à premência das problemáticas nacionais. Isto porque o cansaço saturnino, animado no torque caprino, torna o fogo ariano (saturninamente) não a sobra que enfeitiçará a messe, mas a salvação da lavoura que houver. Num contexto de sobrepujante internacionalização, sobe a bandeira da mirada interior. O Brasil é pobre de espírito comunitário, o que faz tantos astrólogos pisarem a atenção dum tal #saturno2020:  Cronos – Saturno – antiquíssima entidade e pai primevo, provou tanto dos segredos agrícolas quanto dos vícios das vilas; hoje, empenha a foice como quem sabe escolher. Dignificá-lo será dar ao estandarte ariano o empenho dum juízo desperto, discernido à primeira paixão – esta República.

Se Vênus, por que Diana?

Numa falta de teatralidade típica simplista, a comitiva do Planalto mirou no zen, mas acertou a reunião de pais e mestres sem mestres. Ato inócuo senão pelo homogêneo do efeito, pela saudosa perseverança em orientar, sem ser só isto pois que dando a entender que o filhotismo estatal sumiria e entretanto ambicionando cuidar, como pagens. A resposta à pergunta em pauta, ‘O que quer conosco a Covid.19?’ resumiu-se à manipulação orçamentária, sem grandes surpresas além dum marasmo redundante que deixará em maus lençóis a reputação liberal do governo caso seu corpo não tome o quanto antes prumo felídeo, resguardo canário, crueza d’água e pátina de mordomo. Por que tantos ministros numa simulação de resgate se o senso de resgate há de estar mecanicamente estruturado numa república nova e fragilizada, desigual e débil? Um porta-voz e o relógio voltado à sociedade, sem aceitar perguntas, fariam o trabalho.

‘Ser-lhes vacina’ – a resposta da Covid.19 – pressupõe da população este entendimento: a inteligência simbiótica não será, por finitude tautológica, propriedade de uma espécie, e não da natureza. Antes ao contrário. Caídos ainda do excepcionalismo antropomórfico ao formular a próxima pergunta flexionando os joelhos (pois levantávamos?), seguiremos à brumosa, culposa cláusula que arde e preme o andamento do certame: ‘Mas onde, caro vírus, achávamos ser fortes e não somos?’ (continua)

‘Diana caçadora’ | The Frick Collection

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Num poema dedicado ao fundador do português brasileiro Padre José de Anchieta, Haroldo de Campos ninguém sabe como se imita, melhor que si, e se apresenta, excelentemente, sem por milímetro deixar de carregar o que no corre do poema vai juntando. Instala-se e cresce ciosa do que disse, a peça que versa sobre o vertical encantatório da linguagem e o horizontal da história que à poesia pede explicações. A satisfação é brisante como em suas melhores traduções. Impressionam no transe das cinco partes o cuidado sistêmico dum João Cabral e certo orientalismo taoísta dos hippies giroflex. O conjunto, estância em canárias, está no livro Crisantempo – no espaço curvo nasce um, de 2004.

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Às vezes é a fase que a pessoa está passando mas você não pode potrar sem dúvida diante dos filmes e livros que circulam por causa da uberização, achar que ela é sinônimo apenas de precarização quando ela tensiona, num movimento histórico, à direção saudável da emulsão capital–trabalho. Quando afinco e me sinto afiada numa certeza, ela deve enganar certas sombras donde funciona meu círculo, não enganando outras. Por mais certa, você pode perder a discussão a depender de onde vai e com quem fala. Das duas, uma: ou você topa circular um mundo diminuído, ou você cresce e larga a mão de não andar com as mãos para trás quando tocarem-lhe os tinos do saber revelador. Melhor assim, ganhando assim um mundo do tamanho do mundo. Nasce toda discussão dessa e nessa forma de aprendizado, e nasce assim também a discussão da uberização. Pergunta: a uberização esconde em agilidade jurídica sua mesmice organizacional? A situação estar desqualificada do ponto de vista da seguridade social não me deixa ser desonesta em vão em não notar quando se eleva, o trabalhador que nada tinha, que tudo perdera, que pouco daquele desejado emancipar-se conseguiria, à digna jornada dum dia ganho honestamente na dureza paulistana? O diabo é que nossa normalidade econômica por muito foi troada na displicência patronal, no ocaso jurisprudencial. Cá o capital vingou bancando a burocracia conivente, menos que consciente, e resultou daí a pouca eficácia da musculatura econômica. O jeito é organizarem-se, trabalhadores de aplicativo, num movimento de sindicalização.

Exame de convivência

Do século 20 ao 17 antes da era cristã seriam as edubbas esta instituição escolar na Babilônia Antiga. O que a pesquisa arqueológica traz é pobre, fragmentos que incluem cartas de advertência (não vá o aluno zanzar quando deve estudar), um mestre a tachar um discípulo de incompetente, súplicas à deusa Nisaba que a redação fique boa etc. Não é fácil nem rápido compor a suposta mecânica escolástica de um dos mais antigos berços da prática, do cultivo e do ensino da escrita, mas não é errado supor que muito material soterrado ainda virá à tona.

O assunto da escola babilônica causa febre no meio dos grafólogos. Parece contudo aliado inconteste de uma resfriada frustração, tão antiga quanto a busca. Uma equipe é destacada, incentivada, equipada, vai a campo e passa anos no labor minucioso de sondar e desentranhar os membros de uma família narrativa que não nos supôs e não nos suporá deveras; mas quiçá saibamos nela perceber um veio direcional da grande cultura – eis a mão na massa da história. A frustração documentada é: o time acredita ter achado uma escola, faz o cartaz, a notícia cativa interessados, mas não se confirma. Não era uma escola.

Um caso famoso está numa sala do Palácio de Mari. A presença de bancos paralelos bastaram para que o arqueólogo anunciasse o achado de mais uma edubba. Mas bancos paralelos para o estudo seriam novidade na tradição referencial do que indica ou não indica uma escola babilônica. Além do que, o espaço entre um banco e outro seria demasiado estreito, e aos alunos caberia mais o contorcionismo que a leitura e a escrita.

Conhecido como a pseudo-escola de Mari, o sítio ganhou a atribuição mais provável de depósito de vinhos. Entre o que seriam bancos, guardava-se jarros largos da bebida. As poucas tábuas encontradas não exibiam diálogos entre mestre e aprendiz, exercícios ou lições, mas um monótono controle de estoque. Pode ser, como a frustração de Mari ensinou, que escolas nunca houve em palácios babilônicos. Mesmo as edubbas, pensadas institucionalmente, talvez sejam wishful thinking modernizante, e os achados se restringissem a casas de escribas a ensinar o ofício a pupilos capazes interessados nos poderes de exorcismo, da divinação e da influência régia.

O caso consta em Lire et Écrire à Babylone, uma das muitas fontes que nos botam a pensar na virtude do vírus da escrita. Se a língua é viva, se ainda grafamos o latim transmutado e colecionador, se a profecia é tão atraente quanto a planilha apesar de indisponível às máquinas, por que não escrevemos para a Covid-19, perguntamos o que quer ela compor conosco, em vez de brindá-la com o medo da pandemia?

Inti Samba

Era absurdo zoar o estilo popular de Lula. Porque vinha de onde vinha, isto é, de um dos mais importantes movimentos progressistas do século 20, o sindicalismo, e por coparir o primeiro Partido brasileiro genuinamente trabalhista, o PT, a gente esclarecida policiava a gente mais espontânea quando esta tossia sua frustração pequeno-burguesa projetando-a num homem supostamente sem preparo, sem elegância, sem noção, improvisador, aquém da altura, enfim, do cargo que ocupava. A gente esclarecida enquadrava qualquer opinião ofensiva à imagem de Lula como ignorância histórica e cegueira social duma classe médiazinha branco-sulista que se confunde com o próprio atraso do país. 

Mas não se tratava de ir ou não ir com a cara do Presidente. Sim de aceitar que, aos trancos e barrancos, Lula dava sequência mais ou menos meritosa à atualização republicana de Itamar e FHC. Se gambiarras imediatistas marcaram algumas das transformações mais importantes de seus dois mandatos, não foi diferente nos anos do PSDB. A própria estabilização da moeda foi (ou não foi?) um ajuste inusitado e arriscado cujo sucesso é esta sorte de alvorada rediviva a nos querer mais maduros do que, até aqui, a história ela mesma nos permite.

Incompetência, pressa, afasia teleológica, rabo preso, orgulho partidário e corrupção repetem-se amiúde baixo os mais neuróticos disfarces. A lição zero um da administração pública, a de que gastamos, nós o Estado, nem muito nem pouco, mas mal, é a mais resfriada das platitudes políticas deste falso paraíso, e bamboleia, clichê mofado ou peça sem encaixe, ao largo dos diagnósticos críticos da situação. Confundimos estratégia e visão de longo prazo com vontade de subir nas pesquisas, vencer discussões, rebater jornalismos, mostrar pra eles como se faz – porque o estágio desta infanta democracia assim requer, ou assim permite. (Mas quem permitirá mesmo não seremos nós, o Estado, quando o emprestamos ao despreparo e ao assalto em nome da governabilidade – este vício medonho que leiloa a razão e envergonha as gerações futuras?)

O mundo deu lá suas voltas, e hoje a gente esclarecida precisa zoar o estilo popular de Bolsonaro contra o absurdo de sua falta de preparo, de elegância, de noção, seus improvisos e sua altura, enfim, aquém do cargo que ocupa. Não zoá-lo é enquadrado como ignorância histórica e cegueira social da classe médiazinha branco-sulista que se confunde com o próprio atraso do país. 

Bolsonaro vem no entanto de um dos mais importantes movimentos republicanos do Brasil, este que, antes mesmo de 1889, acordava cedo, acampava, exercitava o corpo, enfrentava intempéries e temeridades para salvar um rascunho pátrio – nem que a golpes (ou não foi?). Que um dia, garantidas substância e extensão, firmar-se-iam as gerações capazes de vingar a dor, a exploração, o mando perdulário dos que aqui aportavam para tirar para si e para fora sem comungar com parceiros colonos a devoção pela terra. Somos filhos de Lula, este tipo que se vê em quase cada esquina brasileira, o quanto o somos de Bolsonaro, este tipo que em quase cada esquina brasileira se vê.

Retórica filosófica rende mais no Direito

A modernidade, período entre a revolução da Idade Média e a internet caracterizado pela cessão, da Religião à Organização, da fábrica dominante de vocabulários e valorações, pôs três desafios à filosofia: tratar da saúde mental com a psicanálise, desmistificar a política com a sociologia, simplificar o Direito.

As duas primeiras tarefas estão resolvidas. Muito do que era problema mental passou à materialidade da terapêutica preventiva. Paralelo, muito do entulho ideológico rendeu-se à organização empresarial da agência pública.

O desafio diante de nós, desde as profundas raízes filosóficas até seus duvidosos semblantes, agora, é a codificação da vida comum.

Vale a pena ler, em Cinco Nomes Brasileiros, a visão da personagem Gonçalves Ledo sobre a evolução jurídica. Não vou me repetir, mas numa casca de noz sua tese é a de que um Direito que nasce belicoso, adensa-se natural e matura contratualista, pode rumar, tecnologicamente, ao lugar novo do ‘universalismo estimulante’.

Cansado das ineficiências do prestidigitacionismo e do punitivismo (as fraquezas da fala que teme muitos erros e fantasia punições), esta importante ferramenta que garante a prosperidade na complexidade pode exercitar a possibilidade de, sem deixar de balizar, estimular em primeiro lugar.

É importante entretanto que a ânsia não se imponha à espera aplicada.

Pendularmente falando, será ora mais da ponta escolástica da exegese católica que a cadência virá. Ou, mais natureza e ecologia, menos cidade e economia.

A retórica, produto citadino, é um dos objetos que saem perdendo para viver.

O que era um desafio, assim (largar os vícios da psicanálise e da sociologia), viram dois (largar os vícios da psicanálise e da sociologia + fazer sucesso com o filho do Homer Simpson). Não porque de repente ele é capaz de ameaçar, mas pela oportunidade aceleracionista inoculável conforme aproximações felizes aos fluxos hipertextuais.

A perda maior da fala filosófica é a ironia. Toda e cada ambiguidade inoperante assim as acusam bandeiradas graças à prevalência da maior inteligência nas redes neurais.

A segunda perda advém da intolerância deste Espírito Santo que se tornou a inteligência nas redes neurais. Está castrador viver fora do camelô, numa casca de noz.

Então, quando anunciam coordenação de espelhos no espaço para mensurar a massa escura, ou quando pousam robôs em cometas, cada homem e mulher questiona à noite em sua solidão tremenda e bela no milagre da vida o que o camelô teve que ver com tais façanhas.

Nosso poder tocaria projetos tão difíceis? Influenciar estudos de décadas e bilhões nas mãos de poucos, é coisa nossa?

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A fixação pelo poder de não morrer e prosperar (grandes achados da psicanálise e da sociologia) fez a gente confundir, graças ao Direito defensivo demais de um mundo que cresceu, no temor das diferenças, conquistando, soberania do sujeito com chance de submeter: será pela decadência do outro que restarei eu contente.

A culpa é da fala do Direito, cuja maturação em má postura talhou a transgressão à imagem do desejo.

Não é segredo para ninguém que num país como o Brasil, ou se segue as leis certinho, ou se tem muito dinheiro. Nenhuma das duas coisas não dá.

Tal clichê é sintoma da inoperância (erro, excesso, ou bug) deste incesto: as leis são a sala de espera do mercado.
De tudo o que a cultura inventou, o mercado escolheu a menos imaginativa das falas para desenhar seu círculo de giz. Dentro, pode brincar conosco. Fora, vença-nos. Por quê?

Porque quando herdou o mundo religioso, a organização econômica comprou, na lebre da influência, o gato do militarismo.

Este ‘fora’, enquanto ‘fora da lei’, não raro sucede, em nosso imaginário, no ferramental militar da execução, da sujeição e da conquista.

O Direito, guarita da vida na cidade, dá forma aos sofrimentos do medo radical de morrer e de ser passado para trás na tensão reta e binária, hierárquica e sumária, entre gozo e transgressão.

Fecha-se, assim, a tríade marmórea, ou material da arte filosófica moderna.

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Dissociar o Direito de seu quadrado romano, porém, não será apenas regredir a conversa ao encantamento da intelectualidade mística, por mais voga que essa contracultura hoje cultue. Será, inclusive, ler nas utopias contemporâneas os futurismos esforçados em fazer mais com menos.

Método, disciplina, mensuração, controle, eclodem dos mosteiros à burguesia mas aqui esmaecem. Por quê? Porque vulgarizam-se quando associados às ansiedades?

O romance, quando equivalente ao Netflix, nasceu didático e não resistiu à decadência e à autoimplosão. Sua jornada tão rica pode ser lida também como sintoma: a tristeza do poeta (o espírito do tempo) diante da apropriação econômica da nobreza das campanhas de conquista de mercados e aculturação via consumo era uma traição militar. Por isso recolheu-se à símile da loucura e do abandono, o romance, até sumir.

O que nem os poetas, no entanto, poderiam imaginar naquela altura, é que a nobreza do Cruzado se safava naquilo tudo o que, em verdade, precedia as campanhas mas nunca as acompanhava. Aquilo tudo que São Inácio vê quando pendura as armas e vai à obra: proceder é

com ordem e concerto, e com a faculdade íntegra para fazermos constituições entre nós, segundo nosso modo de viver julgar mais conveniente

Para que entendamos a importância de se aplicar hierarquia não nas distrações, mas naquilo que importa, leiamos com calma o que diz São Inácio.

Ordem e concerto são o princípio desta recomendação, recolhida de correspondência pessoal datada de 1539, quando nascia a Companhia de Jesus. Conceitos indisputáveis a qualquer razão, ordem e concerto frequentam os cumes da relevância ocidental e também eurasiática e oriental — prova de um universalismo, pretendido ou não, real.

Em seguida, predicado e verbo indicam as duas colunas do engenho civilizacional: apenas o discernimento ideal tirará da ação o bom fruto.

Por fim, um misterioso açular, também confundido, mas sem inoperância, com a facilitação ou o estímulo: nem final, nem teórico, o moralismo do dia a dia é sobretudo contextual.

Lembremos: apontar um sítio não é chegar lá. Jornada é gozo contínuo, mas confronto tende ao elogio da burla.

A espera a que nos guardará a revolução do Direito na era da internet será esta de passos rumo à bioconstrução dos códigos universais, termo a termo, linha a linha, Estado nacional a Estado nacional.

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Da família: capítulo II.3

Na seção II, dedicada ao arquétipo da Mãe, o terceiro capítulo (Mãe Bahia) traz um texto dramático sobre a Insurreição Praieira. Como introito e pano de fundo, comentários sobre o poema Auto do frade, de João Cabral de Melo Neto.

LEIA AQUI O CAPÍTULO II.3 do livro Da família: um longo ensaio imaginativo