Nem tão póstumas…

Mencionei, neste dia, o trecho em que glosa Brás Cubas Pandora. De então coubesse aqui, cogitei, mostrá-lo como nele meditar um bocadinho.

Aí vinham a cobiça que devora, a cólera que inflama, a inveja que baba, e a enxada e a pena, úmidas de suor, e a ambição, a fome, a vaidade, a melancolia, a riqueza, o amor, e todos agitavam o homem, como um chocalho, até destruí-lo, como um farrapo. Eram as formas várias de um mal, que ora mordia a víscera, ora mordia o pensamento, e passeava eternamente as suas vestes de arlequim, em derredor da espécie humana. A dor cedia alguma vez, mas cedia à indiferença, que era um sono sem sonhos, ou ao prazer, que era uma dor bastarda. Então o homem, flagelado e rebelde, corria diante da fatalidade das cousas, atrás de uma figura nebulosa e esquiva, feita de retalhos, um retalho de impalpável, outro de improvável, outro de invisível, cosidos todos a ponto precário, com a agulha da imaginação…

Pandora sem Zeus nem Prometeu, Pandora sem a judicialização do mito, Pandora sem o barro nem a borra. Não está senão a manchar o corpo machadiano como um convite à mesura de quem quer que sonhe com isto de tocar juízo à obra lendo e relendo, descendo no trecho o corpo da leitura, nela estando em imersão sem muito foco, como se a investigação sem crime solicitasse um modo postural à experiência estética, esta que enriquece estar aqui.

A miração do verme é licorosa. Credo maciço e bem talhado. Num breve trecho dá matéria de compêndios e vestes de arlequim à pena funda. Do mundo faz palco, das vidas sete e dos nexos milhares do saber clamor turvado em som e fúria, pois que um homem abre os olhos flagelado.

Um homem abre os olhos flagelado e rebelde porque nem a mais real realidade, o tango contínuo do corpo, servirá de fundação. Diligente investiga, constante atende à espera, desnudo considera, senão do intelecto liberto penetra o espaço da dúvida. Cogita a nova ideia se à memória estende a mão. A dor deixada a si, derrui; ao fim o prazer, do túnel, ilude. O fato equívoco da fala diz do parto das horas este tonto esperanto: tic, tac. Impalpável, improvável, invisível, sou matéria aonde penso, fôlego da busca, quase sem anúncio.

Este mesmo narrador-personagem dará à felicidade o epíteto polêmico ‘quimera’. Consulte-se. Traz a historiografia do termo duas ou três cabeças, corpo composto entre as sanjas, dorsos e panças de grandes felinos, caprinos, anfíbios, ora a exalar grunhidos, ora a chamas e crueldade espalhar e confusão. Serão mal entendidas, as duas ou três cabeças, postas em golpes do fio tipo arturial, não raro impiedosamente, ao chão de remoque e chalaça onde buliam. Que a tal quimera, para Brás Cubas,

Ou lhe fugia perpetuamente, ou deixava-se apanhar pela fralda, e o homem a cingia no peito, e então ela ria, como um escárnio, e sumia-se, como uma ilusão.

Luxo de Pandora: um transe da imaginação à ilusão sem que o logro da manhã alivie do abutre bico da desgraça este corpo que perece acorrentado ao prosaísmo.

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