Nota a uma canção

A exiguidade e a repetitividade nesta peça desviarão o leitor moderno, sôfrego por pipocações, de um foco prático e atual ali velado?

Servem, exiguidade e repetição, de manejáveis à então operosa conduta ética do rei-autor, soldado-padrão, filósofo-trovador?

Esta conduta, por seu turno, substancia o dito foco prático que ora escape à lida frágil, pouco vígil, do consumo aligeirado dos textos de toda monta nesta uma época de contratual desassombro? Época em que não por acaso o poema vem ceder à ruína para apequenar-se e pertencer? Dizer: conduta cuja ética – magnânimas obrigações, obtenções magérrimas – sucederá em poética?

O procedimento que guardará o princípio da trova em questão é o do enxerto e da extração, procedimento dos intercalados ocultamentos entre compromissos rimários, quando abre-se em jogo o que a transformação mínima das cópulas encerrará em sentido.

Eis a canção (fonte: ‘Cancioneiro‘ de D. Dinis; Org. de Nuno Júdice; Lisboa: Editorial Teorema, 1998; B 568; V 171)

Ai flores, ai flores do verde pino,
se sabedes novas do meu amigo!
Ai Deus, e u é?
                                                            
Ai flores, ai flores do verde ramo,
se sabedes novas do meu amado!
Ai Deus, e u é?
                                                            
Se sabedes novas do meu amigo,
aquel que mentiu do que pôs comigo?
Ai Deus, e u é?
                                                            
Se sabedes novas do meu amado,
aquel que mentiu do que m’há jurado,
Ai Deus, e u é?
                                                            
Vós me perguntades polo voss’amigo?
E eu bem vos digo que é san’ e vivo.
Ai Deus, e u é?
                                                            
Vós me perguntades polo voss’amado?
E eu bem vos digo que é viv’ e sano
Ai Deus, e u é?
                                                            
E eu bem vos digo que é san’ e vivo,
e será vosc’ ant’ o prazo saído.
Ai Deus, e u é?
                                                            
E eu bem vos digo que é viv’e sano,
e será vosc’ ant’ o prazo passado.
Ai Deus, e u é?

‘Amigo’ e ‘amado’ copulam (encaixam-se ou rimam, ou conjuntam-se; evitaremos, por tautológico, o conceito de ‘paralelismo’) com ‘verde pino’ e ‘verde ramo’. Amigo e amado perseveram, das estrofes I e II às estrofes III e IV, mas deixam cair o apelo às flores. O ponto de partida que situa – é primavera? – já não bastará qual motor dramático? Enxertam-se, nas vagas ou rimas perseverantes de pino e ramo – outro passo –, da natureza exterior para a natureza ingênua, ‘pôs comigo’ e ‘me há jurado’. De amigo a amado – binômio essencial do poema – há um passo do vulgar ao íntimo, do conhecer ao saber. De pino a ramo, óbvio idem, da formalidade à verdade. Por mais que o verde persevere, olha-se um pino de longe; vê-se um ramo como à mão. Quem põe comigo o faz na grande e laica economia. Já quem me há jurado, quem sabe eu não veja lá fora. Consiste, pois, um passo, e o passo se faz, quando compõe, princípio. Enxertos e extrações vão velando o que só sua leitura mais tocante desvela. Tentâmen: rogo a Deus saber se a espera que se cumpre antes da morte estará – só? – dentro de mim. E u é?

Perseveram amigo e amado nas estrofes V e VI. Aí o poeta não folga, mas dá-se nalgo de lúdico, que enigmático: quiasma. Manobra crua, não fosse sugestiva. Será o poeta Poeta quando enfático seu dito cantado, o for de certa ideia decantada? Sano e vivo é o amigo – nós – posto tantos vão e vêm mas é o corpo historial do Outro – um povo? – quem persevera. Portanto sano, amigo, e então vivo. Vivo e sano é o amado – Eu – este estando aí em lugar nenhum senão ingenuamente, este quando em mergulho e retração vejo vindo a ser. Portanto vivo, eu, e então são. Nas VII e VIII, extraem-se amigo e amado para que a morte – prazo – enxerte-se com nada a definir antes da espera que é de todos. E ao poeta faz-se a espera o compasso principal. Antes que do prazo ‘saído’ (seja tu), será teu o amigo que não era. Antes do prazo (em si) passado, será teu, ainda, o eu que era sempre.

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