O enigma de Antonio Pio

No livro I de suas Meditações, compostas entre os anos 170 e 180, Marco Aurélio diz ter aprendido com seu pai adotivo, Antonio Pio, entre outras coisas:

καὶ τὸ ἀπαρατρέπτως τοῦ κατ̓ ἀξίαν ἀπονεμητικὸν ἑκάστῳ

Em tradução de 2002 de Luís Varela Pinto, lê-se

a invariável insistência em que as recompensas devem depender do mérito

Varela Pinto dá ao termo ἀξία a mesma acepção que Barthelemy Saint-Hilaire, em cuja tradução de 1876, lê-se,

l’invariable attention à rendre à chacun selon son mérite

A primeira versão impressa do referido texto, reza o senso comum, foi traduzida, organizada e produzida por Wilhem Xylander em Heidelberg em 1558 a partir do Codex Palatinus, uma das três únicas existentes remanescentes da cópia bizantina do ano 900, mas desaparecida. Nela, ἀξίαν passa ao latim como dignĭtas:

As três escolhas tradutórias acima contrastam com a escolha da versão de George Long, de 1880, que diz,

undeviating firmness in giving to every man according to his deserts

Nela, o apreço assinalado é dado em negativo, uma vez que deserto aponta subtração.

O moralismo soa-nos tradicionalmente bíblico. Em Mateus, 16:27, [o Filho da Humanidade]

dará a cada um, de acordo com sua ação

A tradução de Frederico Lourenço é bastante desafastada do termo usado na bíblia grega, πρᾶξις.

Em 1 Reis, 8:39, porém, semelhante proposição emprega, no lugar de práxis,  caminho. Na Vulgata,

et facies ut des unicuique secundum omnes vias suas

No mesmo trecho, a bíblia hebraica usa, no lugar de vias, מַחֲלֶה, derivada do verbo ‘chalah’, padecer.

 וְעָשִׂ֔יתָ וְנָתַתָּ֤ לָאִישׁ֙ כְּכָל־נֶ֖גַע כָּֽל־ מַחֲלָֽה׃

Os caminhos, desvios e encontros das acepções de ἀξίαν tornam confusas, conforme se pesquisa e procura-se demonstrar, as ideias de merecimento e sofrimento, e o que nos caberia dar, e receber, e se por força, ou obra.

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