Deixar entrar

A história das ideias se confunde com a história das formas de pensar. A diferença entre as duas será hierárquica: a história das ideias parece conter as diversas formas de pensar que, ao longo das gerações, funcionaram.

A imagem nos deixaria em paz se o problema da precarização não cruzasse a atualidade, fazendo-nos desconfiar do progresso bem como das conquistas da época moderna.

Entenda-se por precarização aquilo que abarca sua significação radical, sem que se perca o tino dos usos correntes, a saber, um estado de desespero peticional que desafia o senso comum em apelo à esperança revolucionária.

Que a precarização, seja nas relações econômicas iníquas, seja na saúde mental amiúde refém de purgatórios artificiais, propicie o tom dessa época brumosa, não é mais novidade. A época é brumosa porque a ignomínia dos mal ocultos custos de progressos e conquistas centrais como os transportes e as fronteiras nacionais – aqueles à expensa do ambiente, estas à expensa da paz – não garante a crítica competente de suas processualidades constitutivas. Claro, pois que a ignomínia pretende obliterar cadeias produtivas de passivos fundadores – a biruta do clima e a crise dos refugiados, por exemplo – cujos movimentos coadunar-se-ão à sombra da modernidade via regressos e despossessões em escala global. A novidade, aqui, parece estar na chance de um chamado à face afogada na forma, porque ciosa demais da história, das ideias.

A crítica competende das processualidades constitutivas da época moderna (a construção do Estado Democrático, o reconhecimento do sujeito de direitos, a transnacionalização dos contratos etc) pedirá à sensibilidade, assim, duas atitudes complementares: i) distanciamento da forma; ii) reordenação da história.

Se é verdade que a história das ideias contém as formas de pensar, não será mau lembrar que a forma das formas de pensar, por sua vez, contém a história. 

O grupo abrangente do móbile psíquico capaz da cronologia descritiva será o mesmo, ao fim e ao cabo, capaz de codificar os nexos pragmáticos em vias de deslindes totalizantes – exaurindo a evocação semântica dos acontecimentos – de modo a expor as ignomínias e acoplar, em suas devidas processualidades, os custos antes ocultos que burlavam a responsabilidade de conquistas e progressos de suas consequentes despossessões e regressos.

Curiosamente, as atitudes do distanciamento e da reordenação são mais ou menos naturais ao estágio a que nos trouxe o próprio conceito de pradarias filosóficas genealogicamente encadeadas. Quando o esforço analítico tanto e tão disciplinadamente voltado a si e à dignidade linguística como que num mito originário ancestral fecunda-se e rebenta no pragmatismo da eventualidade, resta à forma atual da interdisciplinaridade aplicada o ensejo lúcido de deitar ao chão o espelhinho de rosto e performar não na linha de frente ou no limiar do movimento histórico, mas antes a dança austera e beneficente que busca reanimar o que eram corpos insepultos, pois não se está diante de fim algum e somos jovens e potentes, e trocar luto por graça e resignação por força e luz.

Em outras palavras, se a história das ideias vinha estática porque demasiado afogadas vinham as faces nossas nas formas de operar a superfície do real em comunicação alerta e repertorial, mas sistemicamente vítima das ignomínias constitutivas de processualidades apenas parcialmente consideradas, as atitudes i e ii, por sua vez, legar-nos-ão a chance de, com as mãos pensas e o pensar desanuviado, procurar à propriedade dos dizeres as competências eventuais E totalizantes dos processos em mais grave inflamação. Que progresso nenhum e conquista nenhuma sejam aceitos ou consumidos sem a devida reflexão da ignomínia que o viabilizou, sem seu reingresso animado e clínico, sua sagração em rediviva e adaptativa adoção. Antes de marcos legais, multas e tributos, aponta-se algo tão simples quanto a honesta descrição da história constitutiva do que ora nos rege, conduz e subjuga – mesmo no aparente conforto.

O mal estar da ignomínia, coisa que se sente em degradê à ofensa, não deve ser confundido com os clichês da ignorância (a maldade paulina) e do esquecimento (a maldade hegeliana). Se contra a primeira criou-se a pedagogia da opressão, contra a segunda o choque de estado, e ambas vêm ajudando no pós-guerra, não é de dentro delas que se caça a ignomínia.

Claro que tampouco dentro dos favores apaziguantes da direita como a combinatória, o volume de metadados e a transparência, esta caça ou query estará domiciliado em campo frutuoso.

De dentro de onde, precisamente, será difícil dizer? O objeto da busca é a ocultação que já pode ter sido não saber, que provável já foi o esquecer, sendo no sentimento de ignomínia o desconforto um desconforto latente mas tácito, inflamado mas formigando.

Por que, por exemplo, a rede hidrológica planaltina (Piratininga) não informou o desenho das vias de rodagem e nem sequer a elas uniu-se em expansão da rede de transportes? Se foi ignorância ou esquecimento hoje é menos urgente dizer que a ignomínia buscar, deste um custo grave que se oculta. Desocultar é o movimento que trará à investigação ou query sua potência humana. Está-se diante de um quebra-cabeças com peças ocultas muitas das quais associadas à sensação de ignomínia quando se percebe a rede hidrológica soterrada a nada de aproveitável senão dejeto transportar. Por que, portanto, a ideia de ‘aproveitar’ a rede para ‘tratar’ os dejetos foi capaz de ocultar o problema do soterramento dos leitos contra seu efetivo uso? Um passo a mais e trago à reflexão um conceito não considerado em sua completude, a saber, o conceito mesmo de dejeto. Não considerado por conceito lateral, no caso da rede viária o dejeto fez da query query incompleta; esta, quase mecanicamente retorna ao investigador uma questão contra a incompetência da própria reflexão, mas dificilmente ingênua: lugar de dejeto é longe?

O conforto de dar descarga e ver o bolo fecal ir embora, por exemplo, ilumina o quê? E se fôssemos pensar a superquadra autossuficiente em tratamento de resíduos, quais seriam as implicações construtivas?

Deixar entrar é dar à combinatória, ao volume de metadados e à transparência a postura de afastamento e reordenação que possibilite novas descrições de antigos problemas.

Queríamos que fosse diferente!

Para Buarque de Holanda em Raízes do Brasil, espanhóis e portugueses seriam diferentes de “outros povos” não pela ganância ou avareza, mas pela “incapacidade (…) de fazer prevalecer qualquer forma de ordenação impessoal e mecânica sobre as relações de caráter orgânico e comunal, como o são as que se fundam no parentesco, na vizinhança e na amizade.”

O defeito torna mais custoso construir o Estado, pois este não é a mera “ampliação do círculo familiar” e não há, “entre o círculo familiar e o Estado, uma gradação, mas antes uma descontinuidade e até uma oposição.” É ao transgredir a ordem familiar, diz Holanda, que fazemos nascer o Estado.

Já Darcy Ribeiro dirá haver por aqui um “velho uso” de “incorporar estranhos à sua comunidade” que fará do parentesco a razão de ser fundamental da gente da terra. Seria o ‘cunhadismo’ nada menos que a “instituição social que possibilitou a formação do povo brasileiro”, prática sem a qual o país seria “impraticável”. No cunhadismo, se caso com uma moça, tenho a mim, no pai dela, um novo pai; e nos parceiros do pai dela, idem. Para Ribeiro, o defeito do costume era um só: acessível demais, a todo e qualquer um, e mesmo “a qualquer europeu desembarcado junto às aldeias”.

O bocado que houver em Holanda de ressentimento teuto ou utopia negativa indignada com o mau desenho dos mecanismos civilizatórios brasileiros, há de em sinal invertido haver em Ribeiro em esperança nativista? Difícil dizer. Ao cabo da leitura atenta e refletida, ambos cumprem certa totalização pendular entre crítica e orientação e funcionam bem, mesmo hoje, como vozes à tarefa brumosa de pescar na turbulência o que é sentido e valoroso.

A “disciplina da concórdia” que marca o sujeito brasileiro cordial e emotivo o fará, na visão do historiador paulista, menos propenso ao raciocínio abstrato, aos raciocínios que “não tenham como fundamento (…) as comunidades de sangue, de lugar ou de espírito”. Para o antropólogo mineiro, no entanto, será abusando desta licenciosidade que o povo aqui criará, com seu cunhadismo, “um gênero humano novo, que não era, nem se reconhecia e nem era visto como tal” pelas famosas três raças e que, instado a deixar para trás sua “ninguendade”, passará a lutar para “construir sua identidade” de brasileiro.

Holanda percebe que “a ideologia impessoal do liberalismo democrático jamais se naturalizou entre nós”. Deste modo, homens e mulheres desejosos de fazer a vida na cidade e nela atuar e operar como cidadãos e eleitores condignos amiúde se frustravam, seja por não conseguir acessar as rodas do conluio, seja por, alérgicos, detestá-las. “Pujança e compostura”, pede Holanda, “grandeza e solicitude”, fazem-se assim misteres incontornáveis para que o Estado respeitável se coloque, e funcione, sem preferência interesseira nem enjeitos, com “harmonia e garbo”, diante de um conjunto complexo marcado por exclusão atávica e privilégios arcaizantes.

Conjunto complexo, lembrará Ribeiro, de “classe dominante de caráter consular-gerencial, socialmente irresponsável, frente a um povo-massa tratado como escravaria, que produz o que não consome e só se exerce culturalmente como uma marginália, fora da civilização letrada em que está imersa.”

A história nos fez, “pelo esforço de nossos antepassados, detentores de um território prodigiosamente rico”, pondera Ribeiro, mas a gente está “metida no atraso” e “sedenta de modernidade e de progresso”. Daí o risco é entregar o assunto e a coisa pública ao nefando “espontaneísmo”.

Este curioso -ismo aparece quatro vezes n’O povo brasileiro, sempre associado ao deixe estar-deixe passar da mentalidade mercantil, esta crente numa sorte de supremacia econômica. Tal espontaneísmo, no entanto, seria atitude abstrata e liberal, em nada sanguínea, em nada pessoal. Se real e brasileira, faria refutar os dois competentes, provados diagnósticos.

É preciso, pois, entender, quando um liberal brasileiro diz faltar mercado no Brasil, que o mercado no Brasil não sobra; entender mesmo sua simples crença de que há mercado e que este mercado sente, deseja e reage. Será similar ao resmungo dos constitucionalistas, nunca enjoativo, de que falta observação à Carta, e não que ela sobra. Falta mercado, portante, é dizer ou lembrar de dizer: não falta urgência à transversal sensibilização diante do sofrimento social encarnado na iniquidade e na carência.

Ora, do ponto de vista do Estado o assunto será tudo menos como gostaríamos, isto é, apenas orgânico e comunal como o afeto familiar da solidariedade. Não há cordialidade que o vença, e não há papai na medida mesma em que mamãe não há. Antes, o tema é um de estudo e mesura. Busca-se visão capaz de ampliar a abrangência de conceitos sim econômicos como a riqueza, e mesmo a igualdade, para aspectos e condições que não estaríamos, talvez, historicamente aptos a notar e valorar. Mas este já é assunto para outra postagem.

Ser de desejo, ser de mediações, o homem encontra nas mediações, isto é, em sua ação, o que nele há de divino. Porque deseja — carente, mediato, movente-movido, imitador —, o homem se diviniza, pois nasceu com a tendência — hormé, oréxis, bóulesis — para compreender e agir. Ou, como dizem as primeiras linhas da Metafísica, “todos os homens têm por natureza o desejo [hormé] de conhecer”, ou, como lemos no primeiro livro da Política, a finalidade [télos] da pólis é a autarquia e o bem-viver e, por isso, “o homem é por natureza animal político [politikón zôon]” e, como repete Aristóteles na Ética a Eudemo e na Ética a Nicômaco, a amizade [philía] é a virtude que melhor imita a autarquia do Bem ou do divino, pois cada amigo supre as carências dos outros e, juntos, tornam-se mais perfeitos do que separados.

Este é um dos trechos que colhi ao ler Desejo, paixão e ação da ética de Espinoza.

Na pequena resenha de comprador no site da Amazon, escrevi:

Em rara destreza na condução da matéria, Chauí dá com originalidade e eficácia pedagógicas o sumo importante dum filósofo que teria propulsionado o pensamento ocidental das amarras da teologia para a aplicabilidade desassombrada do moderno pragmatismo.


Não foi pouco o que realizou a revolução espinosiana, tocando com engenho e humaníssima lucidez problemas difíceis como o do livre-arbítrio, da dúvida alma-corpo, do dilema medo-esperança, da autonomia política do homem numa Natureza que não o reconhece com a excepcionalidade que outrora gostaríamos, etc.

Amiúde repisando genealogias da evolução de sistemas proposicionais com segurança e vigor sintético, de Aristóteles e Plotino a Hobbes e Descartes, sublinhando e conectando o que se salva ou nos serve, a professora cativa e satisfaz mesmo o não iniciado com generosidade de mãe, cadência de poeta, e rigor de inquisidor.


Saímos do livro convencidos da relevância deste lugar de correção de curso que ocupa Espinosa e sua Ética, contribuição de forte e perene influência para a construção da modernidade e surpreendentemente atual para melhor descrevermos e enfrentarmos os desafios, em especial na evolução tecnológica do Direito, que nos espreitam neste um novo milênio de matiz internacionalizante.


Devo chamar a atenção para pequenas diferenças de revisão entre as versões para Kindle e a impressa, mas nada que prejudicasse a leitura.

Você pode ler aqui o documento com todos os trechos colhidos.

Deixar pronta a casa bonita é o que ele quer, mas nem porque apontam troçando rindo que o patamar entortou. Eles acham que eu faria assim, uma casa torta e altinha sem querer? Mas não explica. Confessar dirão pior, olha o viado, já nem uma nem duas vezes, de mim que sou religioso e visito até hoje minha mãe. Mas é capricho no bom sentido. Negociei sobrado e entortei o prumo como coisa calculada de aproveitar melhor o sol da manhã. Beber seu gole mais encheio. Vão dizer do viado que não é hombridade, desarrumar um patamar. Fosse esse o problema. Quer bonita, amarelo gema forte, número em preto grande pra chegar correspondência. Quer fixar conchas brancas arqueando a entrada, pedras e contas desenhando a imitação das ondas nas paredes, e um chão de ladrilho paulista que nem eu vi no facebook fica bonito parece de qualquer jeito mas tem ordem. Isso é depende como olha. Brasa, amarelo e preto. Muitas samambaias, tantas quanto der, pois acha bonito as samambaias. Até que venha pássaro. Por causa das plantas. Ou nem que não venha ninguém. Mesmo assim eu prefiro. Fosse isso de apontarem era isso. Deixar bonita a casa, isso sim. Subi cimento, empilhei tijolo e pisei laje, encimei, e daí que não vieram, dois sobrinhos e o colega funcionário do ex-emprego diz que vinham, dia de jogo, é certo que esqueceram, no outro ameaçou chover, decerto foi cautela. Fosse isso. Agora já durmo. Calcula. Um colchão desses achado em bairro limpinho. Enrolei, baixo do braço, nem notaram. Criança nova nem dois anos, agora eu assim, no chão duro que não durmo. A manta a senhora de idade que às vezes passa deixou na porta. Serve. Sou bom de frio. Decerto ela ouviu da briga na empresa que briguei e da enchente que o senhor castigou, perdi tudo. Uma banqueta, as mudas nas big-coke. Olha. Cada coisa especial. Já já amanhece. Fosse isso né, provar isso, da luz e das plantas. Será durmo mais, e olho o teto. Vou é acabar esse teto assim que entrar serviço. Desço compro material faço gesso rebaixado, coisa fácil de fazer e fica chique. Prendo luzinha led que nem os restaurantes da cidade, você passa olha dentro e cadê as luzes? Guardadas, dando bafinho. Nem usa mais luz no teto, isso acabou, basta ver nas bancas as capas quando mostram casa chique você vê. E os tontos rindo, meteram a mão no bolo da noiva! E riem que a casa ficou torta. E que parece um bolo de noiva torto. Mas olha a luz da padaria. Fria, estralando a vista. Disso ninguém troça. Nenhuma planta no estabelecimento? Nada, nem percepção. Nem troça. Agora, é minha casa que está errada? Mas, né, fosse isso. E essa luz fria, de que que precisa? Vou é dizer isso. Mas nem é isso. Eu tento dormir, olho pro teto. Num durmo. Soergue o corpo magro, veste a camisa verde, mangas curtas alisada no descanso. Vou ali, na janela. E vai. Ó o leste, aponta. E ninguém ouve. É só o sol, só. Coisa pouca. Um sol grande e humilde, distanciado, vermelho, laranja e rosa-choque. Soergue o corpo, veste a camisa do mar alisada no descanso numa noite nunca a mesma, sempre a noite e ele ali. Eu fico aqui um pouco. E fica. Vou sim, diz, deixar bonita a casa. Esquadria de madeira achada, barato e chique. Vão dizer que dá trabalho que alumínio é prático. Eu cuido lixo e provo, ó, as plantas perto, coisa bonita que fica. Quando alguém aqui eu mostro. Aí é casa feita acabada e pronta. Agora é esmorecer os boatos. Pessoal fala muito. Mas nem é isso. Fosse isso, né. Olha o sol. Pura lentidão. Olha a largueza dum sol. Hoje eu tivesse material, né, continuava. Vou aonde.

Janela sem fumaça

A CRISE DA Ciência está exposta quando o chefe do Poder Executivo de uma democracia moderna faz pouco dos alertas pandêmicos e contraria as recomendações sanitárias. Vivemos, fica a impressão, um absurdo desmentido dos últimos 300 anos de Luzes.

O impulso ingênuo da crítica será indicar algum incesto, culpa da religião, a atravancar o progresso. No varejão jornaleiro, vênia à arte do quarto poder que ora flui melhor nos camelôs digitais de zap, o produto é nímia, obsoleta bruma.

Estaríamos diante de um mágico de crianças enquanto o grosso da conversação sitiada nas distrações do performer deixa o truque passar em branco?

E se houver, digamos, boa chance de não haver truque?

Nem procederia, assim, o arrependimento bolsonarista (este arrependimento seria uma ficção à wishful thinking), nem seria possível desqualificar a seriedade e a responsabilidade da equipe econômica (vide sucesso de terapias setoriais, arranjo juro–câmbio, articulação condigna do Renda Brasil, tonificação fiscal via austeridade organizacional etc).

Então será encanto? Um tanto amargo à inércia árida da reclamação tradicional, dramatúrgica, da etiqueta política, mais ou menos alienígena à fraternidade brasileira?

Arrisco um palpite.

Para tanto usarei duas metáforas, uma dentro da outra.

Nesta fotografia banal, um acontecimento chama a atenção.

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O porta-livros, objeto K, reflete-se na porta de vidro do armário. No objeto K’, segundo porta-livros, este que se vê no espaço refletido, incide, atenção, a imagem da janela original. Esta imagem, um quadrado de luz, que, nesta perspectiva, K’ reflete, não incide entretanto em K. O objeto K’, para este observador, exibe portanto a forma de K, mas numa luz nova. O reflexo na folha de vidro deixa sua condição inane, por assim dizer, simulacral, e ganha a condição de realidade virtual. Isto porque, apesar de ser forma, ‘age’, ou responde, como matéria. Sua potência, ao prolongar o espaço e colher luz nas mesmas condições mecânicas da realidade concreta, dá-se em Revelação ao observador. Este pode ver, sem se deslocar, um mundo maior; ou, pode ver K e K’ em situações diferentes.

Um plano reflexivo disposto no espaço pode dar ao observador mais que um inane simulacro; pode dar uma realidade virtual. A potência desta realidade virtual será Revelação ao observador em tal ou tal posto situado; será, isto é, enriquecimento inopinado de sua experiência.

Se quisesse conhecer K a refletir o quadrado de luz da janela, o observador teria de se deslocar a um novo posto.

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Aqui, vê-se, em K incide a imagem luminosa da janela. Mas eis que se perde a visualização de K’. Há, no movimento, emprego de energia e empobrecimento da experiência.

Eis comum façanha da caneta vermelha, no Brasil, esta capaz de trair a família real sem ter o que colocar no lugar. É preciso no entanto perguntar se nossa obra será capaz de estudar enquanto os pais trabalham.

Posso olhar para o plano reflexivo, dimensão concretamente formal mas mecanicamente material, como quem olha para a história?

DE ONDE ESTOU, olho para a crítica social, objeto K, com as mãos para trás. Percebo-a dura, monotemática, assertiva, praticamente unânime. A leitura desta opinião não me seduz, intuitivamente, em seu engajamento. Seu temps de bouche é aligeirado e suas notas me levam ao resmungo estético que empanzinou a pseudo-polarização PT-PSDB. Sua negação, no entanto, bloqueia-me certa lealdade nutricional: quem a profere come à mesa da estirpe urbana que me deu de comer. Aliás, verdadeiramente republicana. Resisto à diatribe; volto-me ao studium. Na história, 60 anos atrás: eis K’.

Plano Nacional de Educação, III Conferência Nacional de Saúde, relações comerciais com a República Popular da China, intercâmbio com países africanos, Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura e Estatuto do Trabalhador Rural, Código Brasileiro de Telecomunicações, sistema Eletrobrás, Usiminas, porto de Tubarão, Companhia Siderúrgica Paulista.

Nem a auesteridade fiscal do ministro Furtado foi entretanto capaz de iluminar a crítica, que insistia teimosamente no descabido populismo (ou seria um delirante medo da ameaça vermelha?) da empresa goulartiana.

A forte contrariedade opinativa que sofreu o governo Jango, ou K’, exibe a confusão interpretativa que hoje não se dá à luz devido as contingências do acontecimento Bolsonaro. A novidade deste acontecimento, e sua eficácia em distrair os apressados, vem roubando a análise de seu bojo, a ciência de sua dignidade ontológica.

Quando escancara a fraqueza do Presidencialismo e nos deixa antever a caducidade inerente da expectativa meramente estética diante de uma organização especialmente empresarial como o Poder Executivo, Bolsonaro não convida ninguém ao oblívio da habilidade negocial, da acuidade em diagnóstico, e do comprometimento autêntico que destravaram as atualizações trabalhista e previdenciária, tímidas porém frescas diante do pântano.

Posso, como observador, empregar energia sem perder de vista a história.

Dar à atualidade participação situacional sem importe categorial (ou predicativista) redutor do escopo epistêmico.

Ser analítico e pragmático ou nada dizer e voltar-me, mãos para trás, à história. Aí sim, solicitar à Ciência sua excelência e propor ao ensaio crítico contribuição geracional. Algo bem diverso de dar a última ou ‘mais verdadeira’ palavra sobre o que quer que seja, este deslize de domínio que ilude a participação de um discurso com a imposição e o juízo da própria Lógica. Antes, testo metódica e comparativamente hipóteses interessantes porque posso ver K’. E porque vejo também K, dirijo-me à atualidade em contrição urbana, em observação poética do que está porque o estudo crítico deixa.

Preâmbulo a ‘Duas Sicílias’

ANTES DA IDADE Média, ascenção religiosa, o império da técnica despertaria nos agrupamentos culturais sobreviventes e potentes o amargo deste esquivo desafio: se primor familiar nenhum conterá o escândalo da barbaridade, haverá guerra tamanha que permita produzir, no ofício dos netos, nossos ofícios?

A questão pode parecer solícita, mas tão grave mexerá nas tramas e raízes dos assentamentos letrados indoeuropeus que sua contínua atualização verterá o dilema do encontro dos povos na semente conceitual da aldeia global. Isto é dizer, o signo mesmo da potência generativa, crença mais cara às comunidades ciosas de suas raízes ou origens a partir do neolítico, que tão à vontade bailava nas pontas dos dedos e nos destros manuseios procurados pelo advento do Instrumento, internalizar-se-á, antecipatória e então urgentemente, nas construções enigmáticas, abstratas, teróricas e ferramentais do invisível pensamento.

A prática oracular do vaticínio, gênio dos eleitos, contemplava-a com mais ou menos lealdade o patrocínio dos conselhos sociais. Pensar seria outro pensar quando o saber fosse labor divino, expresso em carme e ludo na prática mercurial do poeta. Assim os governos, ciosos do que abarcavam em égide e pátria, far-se-iam sócios especialmente cordiais dos artesãos da revelação, ora albergando-os, ora expulsando-os.

A errância, apenas arbitrariamente essencial, responderia entretanto à história do trauma do exílio abrindo a via instituinte do método. Barganha, ao vate amealhava a urbana chance: provar ser humana, a ciência; ou: matéria de instrução. Tradições da Ásia ao Lácio erigiram o albergue do aprendiz de coisa alguma, coisa alguma que não a saga virtual do dínamo psíquico vertido ora não mais no assomo órfico, se antes em acomodação descritiva, inspetora, crítica, comunal, da física, da natureza, da tragédia, da república, do cosmo. Pois.

Museu marcará a transição da antiguidade para o mundo religioso ao sofrer o câmbio categórico de alcunha autoral para guarda nutricional. Novo edifício, servirá tal complexo do que espelhou e esculpiu o pensamento. Mínimo cosmo, cura fractal dos nomes, das alegorias, dos rastos consequentes. A novidade maior da ascensão será o convívio fazer viável, do juízo diversificado, este expresso em alternativas curatoriais não exclusivas; e, porque tornadas à história, também não diretivas. Aprenderemos com ela, num longo percurso de luzes e sombras, sombras e funduras, que é coeva à voz da saudade o primor da experiência. Coadunam-se.

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LIMPAR O TERRENO é sinal de contemplação anual. O câmbio sazonal e os tênues arbítrios das quatro imbricações a tela do arado os penhora na graça da terra. Esta os por assim dizer avançará a uma e cada semente, que então sofrerão duas vezes a cor local. Aquela da história do solo; aquela que confirmará no crescimento não ser outra a sua história. Os ciclos sublunares termoexangues não disporão, em regra, a dotes exóticos o plantio. Cada futuro estará guardado onde cada futuro idem. Sedibus urbem será o dizer, passo de um passo, antes que passo do passo, passo do quero, passo do passo do nada.

Acampamentos, jardins, academias, liceus. Florescerão tais imos nas fímbrias dos povos com divulgação e característica. O tipo trocará rapsódia por palestra, mas acabrunhará o mesmo conselho que diante do poeta sorria acomodado. Os guardadores de nomes e valores testemunharão, das margens para o centro, diversa, incontrolável produção na medida mesma em que se dista a controlar, incomodamente difusa e no entanto contagiante. Os feitos serão irregulares, deslocados, ruidosos, até que a voluntária fisiocultura componha novo fator de confusão, posto escravos e guerreiros terem bons belos corpos desde sempre, mas estes ora erotizados magos sem fama nem dívida, não. Porque restou difícil exilar a flor essencial da cidade, seu modo cativo e transitável – institucional –, a sanja estatal ali penetrará quesitos. Ser parte de um corpo, ao cabo, é ser corpo ao corpo mesmo. Encastelada pelo processo, a realidade do aedo-cientista crescerá e padecerá verões de gruta e invernos de fuga, os mesmos a que aliás apontara o antigo vate reduzirem-se sutis nossas empresas.

Matizes chocantes híbridas e parturientes alargarão porém o escopo do pensável. A maneira do edifício firme e nítida vai aos sulcos, salas de tábuas, rolos e volumes que tangem eirando as guarnições dos museus dos palácios e dos grêmios, silos em camadas empilhando, vistas e pórticos organizando.

Diante dos poetas o público é não poeta, mas a seu modo, em sua própria oficina ou família, será poeta a valer. Ante o fantasma erudito seremos apenas leigos. A chave da ascenção religiosa forja-se pois na sombra incogitável dos que dela para as luzes se doavam. As intrigas entre escolas, o comércio excludente das tutelas, a empáfia da inércia sofística, o escárnio goliardo das paródias destrutivas devolverão os conselheiros ao sono policial dos mores armados sobre a turba. Um novo império, protocolar e extremoso, ganhará da técnica o rubi e o cetro da redução.

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ANTES DA PRENSA, ascensão do comércio, o império da religião despertaria nos agrupamentos culturais sobreviventes e potentes o amargo deste esquivo desafio: se primor salvífico nenhum conterá o escândalo da descrença, haverá guerra tamanha que permita produzir, no ofício dos netos, nossos ofícios?

Se diante de alternativas há o capaz de optar pela pior, será preciso temor à lei a procurar temor à consequência. Neste estágio, o antigo artesão da voz, amigo das musas, fez-se caso de loucura. O denegrido bibliófilo é indexado na polícia. Administrada, nasce a modernidade. Seu sucesso é testemunho da atitude ignária. Variegadas na escala, serão as prendas a curar a loja, a roça, a escola, a oficina; valores valerão amiúde mais que a técnica; solicitada, a crítica revigora.

Dorme neste mundo organizado a premência belicosa da hierarquia. Palavras são: palavras de ordem. Juntos ou separados, a repressão nos conduz quando o milagre não convence. Aos senhores do conselho restará as novidades de semblante de uma arte univocamente espiritual. O capricho, a machetaria, os altares trabalhados. O assunto inflacionado será o da desinflação humana. No horizonte do maná abscôndito, as doações, a verve persuasiva, o doce recontar, e generoso, de uns simulacros de insânia e desespero. Orfeu, mas imitado.

Amargará ver no entanto que por mais trauma, é sem ruptura que ela galga. A história. Ora nos enfada, aprisiona e entristece o equívoco da desonra. Então desejaríamos um grave buraco no chão. Rasgar o chão aliás imputará engenho ao trunfo paupérrimo da cruz. Proceloso, emaranhado e alto em rios purpúreos haverá, desta cessão imaginada e descumprida, de chegar a mastro soprado o massivo nascituro à voz do povo?

A cônscia mansidão avessa ao caos pregará no exemplo extemporâneo da técnica. Mãos juntas, pescoço oblíquo, comiseração. Mesura elementar endividada. Estar nem lá, quando era deslumbre, nem cá, no instante interessado da penumbra.

À urbana chance servirá um burocrático evangelho. O chaveado livro-caixa, a lúgubre listagem, a confecção minuciosa do contrato, o custo marginal de produção, a tendência a investimento, a taxa de juro, a barreira de entrada, o dumping, o cartel – signos que da andança civilizacional tecem o ritmo no dito seguro e inclusivo da matéria meritosa. O indivíduo será todo para membro ser; o todo será corpo para contínuo gradar. E a nave vai, organizada, fazendo sempre nova a oração que nos livra da praga.

Duas Sicílias, zine que escrevi na Quarentena imposta pela crise sanitária internacional, fala da cópula. Procurei, em hipótese, inúmeros modais de matéria, toda ela viva. Do que fui capaz de elencar, a totalidade se melhor deu a dois, acredito. Melhor escrever um poema para comemorar a pesquisa e a luta empenhada no livreto a sair quando a situação melhorar:

Um ser será dois
infinitamente?
Dos dois,
um surgirá?
E neste, serão
dois para noutro
ser um?
Algo me inquieta.
Um nome à espreita
vence. O ser que cogito me re-
quer, donde não basto; o paço
do querer se dá à luz,
e às frondes
da chuva mas essas
correm. Há, creio,
dentro de mim
o que não tenho.

O IMPÉRIO DO comércio engendrado foi na unívoca conclamação à caritas, encarnada esta na urbana multiplicidade em convívio. Caro se nos haverá de ser não mais do sangue a efígie, do suor a expensa, mas deste o estrênuo próprio, daquele a chaga comum, secos e indistintos por chupados pelo barro que é só um.

Ora a passos de ócio temeroso, ora a torto passo ébrio, eis as luzes voláteis da modernidade a tencionar o mundo à saudosa concreção do Direito Natural. No alvará da loja, da escola, da roça e da oficina, lavrada está em vida a força tênue do verbo:

VOSAUTEMDIXIAMICOSQUIAOMNIA
QUAEAUDIVIAPATREMEONOTAFECIVOBIS

O espanto engendrou o poeta; a inveja, o crítico. Sobrevivente e potente, é no labor social do indivíduo que afim e judicioso o espiralado dito da aldeia global vingará. No ritmo acostumado, o ora cidadão-consumidor cultivará em si a marcha ingênua do homem novo – poeta-crítico –, signo fresco, continuador deste a nós eterno dual.

Ali vão baldes, vassouras, ferramentas de pequeno porte, lenços amarrados a pedaços de pau, estratos de candeias onde óleos, bumerangues silvos remos, bingos, tamancos qual sem par a minérios dezembrinos, chapéus de palha e sarja, de cânhamo e de lata, três ou quatro bengalas de porta de ótica, tráfico de gente a essa altura do século a brumados arquipélagos a esfíngicos globinhos se trocam navegar valor humano por coisas que usamos sem dar tino de gente, coisas são que servem se caprichos e apetites são de gente, não é verdade ? ergo tanta gente como nós tem na distância do recato a discrição da reverência mesma ao íntimo da conversa, deixe meu braço, licença, mais caloroso é meu regaço, senhor, na copa do navio a pelejar milagres tácteis num xadrez indistinguível, a meio da partida deixe a grande armada negra ser servil sem preferência, vontades de um açor desesperado e de outro rei conquanto os filhos, runas dignatárias do poder, não julgassem o balé como se filhos meio à margem do balé do tabuleiro, forâneas peças, crinas não eram senão da virtude das ovelhas pressionadas cabras depois de atravessar tantas mazelas a reunir-se e a organizar a vida nova longe das falésias surrealistas, já quase como sem palavras ao pé do forno aceso em dengoso tapete de brasas estalando pois perdiam, paladinas num torpe confronto sem contrários, o calor benevolente das tristes do apetite e repeti baixinho estrênuo, visai, maternal e condoída, contingente e rejeitada, lutai contra a virose desgraçada de uma imagem, tirai do coelho móvel afeita lua, dois brutos rubis travos olhos cavos e a tal crassa, tácita contumácia de nora a devorar peões em bispos, rainhas em cavalos, torres lídimos faróis em nívios sóis com o olho na barriga _