sedição é chance: nota sobre a crise espanhola

Conforme escrevo, a gente catalã está fechada à vontade do Reino de Espanha. Acabo de assistir, num streaming em tempo real, a uma plácida e alegre caminhada dos bombeiros da Catalunha, em prol da autonomia indepedentista nacional. Trens, metrôs, ônibus, portos e estradas estão parados, num ato de represália à violência policial de Madri do domingo passado, quando o mundo quedou-se um tanto estarrecido ante as cenas de idosos e mulheres arremessados ao chão e chutados por enormes agentes da força espanhola. Numa das fotos mais belas, centenas de tratores, encaminhados das zonas rurais da Catalunha, fechavam as vias de acesso ao centro de Barcelona no domingo do referendo, de modo a impedir a chegada de novas tropas do batalhão do Reino.

Mas o que quer, afinal, a gente catalã? E por quê? E o que quer, por seu turno, o Reino de Espanha? E por quê? Ainda: por que tal evento, cujos desdobramentos restam imprevisíveis, é importante para nós, cá no Brasil?

Como toda gente, a gente catalã quer curtir a vida. Seria inacreditável se não fosse assim. Por seu turno, o Reino de Espanha não deseja desmembrar-se, desejo que tampouco chega a ser exorbitante a um organismo cuja identidade se expressa na união de suas partes. A crise atual acusa incompatibilidade entre os modos de propor os desejos de um e de outro lado.

Converse com um estudante catalão. Ele demonstrará, serena e lucidamente, que sua narrativa independentista está correta. Converse então com um agente do governo de Madri, ou mesmo com o editorialista do periódico El País, e eles demonstrarão, serena e lucidamente, que sua narrativa é legalista e, portanto, correta. No meio das conversas, uma e outra parte afirmarão o pacto democrático, a vontade popular, a soberania, o cristal teleológico do dínamo contratualista a reger a configuração política da convivência. Dois lados, nenhum deles errado. Como proceder?

A saída será uma de cálculo projetivo, estatístico e poético (posto que expresso em narrativas ansiadas), a partir do fio vermelho que teceu a nossa história. Numa leve e funcional distorção da fábula hercúlea do labirinto, seria o caso conjurarmos a prudência de Ariadne – não por retornar por onde entramos, mas para adivinhar e fazer o melhor dos mundos a seguir. O cálculo não é só estatístico: é também poético. Isto quer dizer: entre os vários cenários possíveis e queridos de desdobramento, a eleição se dará também em chave quente e apaixonada, sanguínea e vibrante, de uma confabulação de sonhos cruzados e ingenuidade imanente.

Leiamos por um instante o poema ‘Oda a Espanya’, do poeta catalão Joan Maragall (1860–1911), em tradução de Fábio Aristimunho Vargas:

Escuta, Espanha, a voz de um filho
que fala em língua não castelhana:
falo na língua que me legou
a terra áspera:
língua em que poucos já te falaram;
na outra, demais.

Mais te falaram dos saguntinos
e dos que pela pátria morrem;
das tuas glórias, tuas lembranças,
lembrança e glória de coisas mortas:
viveste triste.

Quero falar-te de outra maneira.
Por que verter o sangue inútil?
Dentro das veias o sangue é vida,
vida de agora e dos que virão;
vertido, é morte.

Muito pensavas em tua honra
e quase nada em tua vida:
teus filhos, trágica, à morte os davas,
te saciavas de honras mortais,
e os funerais eram-te festa,
ó triste Espanha!

Eu vi os barcos zarparem cheios
de filhos dados por ti à morte:
iam alegres a seu destino;
e tu cantavas à beira-mar
como uma louca.

Cadê os barcos? Cadê teus filhos?
Pergunta ao Poente e à onda brava:
perdeste tudo, não tens ninguém.
Espanha, Espanha, retorna a ti,
dá teu pranto de mãe!

Salva-te, oh! salva-te a tantos males;
faça-te o pranto fecunda, alegre e viva;
pensa na vida que te rodeia:
ergue a cabeça,
sorri às sete cores que há no arco-íris.

Não te vejo — onde estás, Espanha?
Não ouves minha voz tonitruante?
Não sabes esta língua que te fala entre riscos?
Desaprendeste de entender teus filhos?
Adeus, Espanha!

Agora, leiamos as estrofes 18, 19, 20 e 21 do ‘Cántico’ de San Juan de la Cruz (1542–1591):

¡O ninfas de Judea!,
en tanto que en las flores y rosales
el ámbar perfumea,
morá en los arrabales,
y no queráis tocar nuestros humblares.

Escóndete, Carillo,
y mira con tu haz a las montañas,
y no quieras dezillo;
mas mira las compañas
de la que va por ínsulas estrañas.

A las aves ligeras
leones, ciervos, gamos, saltadores,
montes, valles, riberas,
aguas, ayres, ardores,
y miedo de las noches veladores:

Por las amenas liras,
y canto de serenas os conjuro
que cessen vuestras yras
y no toquéis al muro,
porque la esposa duerma más siguro.

Ora, o que temos aí? O que temos aí senão a celebração dialógica de uma cultura antiga e forte, tão radical quanto dinâmica? Nós, no Brasil, somos pelo menos 33% Ibéria, e a Ibéria é nada menos que o Brasil da Europa, tendo lá amalgamado, antes de nós, África, Roma, Arábia e Saxônia. No entardecer do Império brasileiro, Pedro II e seus conselheiros viam brotar no tabuleiro do território miríades de manifestações similares, revoltas carentes, sedições separatistas. Tanto nos faz pensar o que carrega de Recife, Barcelona. E como a força nacional foi capaz de superar os desejos de separação, impondo-se muitas vezes não como um pai responsável, mas como um irmão invejoso. Sempre que volto aos registros das revoltas que antecederam a República, penso, ao lado de Joan Maragall, que cabe ao governo central a postura paternal e responsável — olhar suas regiões como filhos, calando-lhes quando suas demandas são imaturas, sentando-lhes à mesa quando soarem persuasivos. Filhos que crescem, amadurecem e desenvolvem projetos de autonomia, mais dia, menos, dia, conversam de igual para igual. Se o Império Romano seguisse apenas seus anseios, não haveria Espanha. Espanha é filha de Roma, que soube crescer, desejar e falar por si.

Os Estados Nacionais nasceram graças a uma ruptura, mais ou menos pacífica, a depender do caso, dentro dos sistemas feudais e absolutistas. Hoje, no seio da globalização tecnológica, testemunhamos a expressão rediviva do orgulho local. As cidades, e não mais as nações, estão crescendo e se afirmando como pólos de inovação comercial e política. Em mais ou menos tempo, as culturas nacionais serão resíduos simbólicos, expressos e cultivados em seus mais honrados produtos. Nos lembraremos deveras do cinema espanhol de Buñuel e Almodóvar, da guitarra espanhola, flamejante e virtuosa, do queijo da Mancha e da paella de Valência, da cava, da pata negra e do tempranillo, mas não mais visitaremos um país, e suas antigas fronteiras serão meras curiosidades historiográficas. Visitaremos Córdoba, Madri, Barcelona e Oslo, ou nomes todavia insuspeitos, pois é alegremente amalucada a toponímia da quarta revolução industrial. Os países, cedo ou tarde, cederão à lei internacional, à licença autônoma das diversidades regionais, e à alegria dos fazedores dos primeiros dias dos muitos novos mundos. Assim aponta a maturação do Direito, e da expressão política popular.

Vejo a sedição catalã como uma oportunidade. Sob o topos amargo da desavença, dá-se à Espanha uma chance de ouro. Assumir as rédeas e tornar nobre o desenlace é o que se espera de uma cultura que legou ao mundo tamanha Arte, tamanho Ritmo, tamanha Política. Que mantenha-se altiva e imperiosa, e não ceda nem rebaixe-se aos queixumes tonitruantes de um filho sufocado e irritadiço. Há 40 anos talvez não fosse a hora; hoje, talvez, seja. Hora de sentar e ouvir a voz do filho que, enfim, se quer tão pai quanto.

Nada apagará da História as façanhas espanholas. Ao contrário: a cultura planetária dedicar-se-á a contemplá-la e a consumi-la, repetindo seu Nome em admiração e pesquisa, quanto mais motivos tiver de dela se orgulhar. Este orgulho hoje depende da condução augusta e serena, não ressentida nem orgulhosa, muitíssimo menos violenta, da crise que se desdobra em chance de ouro. Condução de quem raciocina junto a um filho bem nutrido e capaz, com ele arrazoando os novos termos de su desejada e nova autonomia, morrendo para não morrer, como pediu Santa Tereza, amando-o e bem querendo-o, con llama que consume y no da pena.

brasil no limiar

É tempo de darmos espaço à urgência do resgate da dimensão política de nossas vidas. Parar um instante com os projetos e atribulações familiares ou profissionais, frear grandes viagens e investimentos. O solo está instável, os ventos confusos.

A dimensão política de nossas vidas amofinou, dissipada pela frustração. Resgatá-la é urgente porque só ela terá a força capaz de reequilibrar o jogo. Jogo que estamos perdendo, e de lavada, para nossa própria incapacidade de comoção diante da história recente.

A arte, a religião, a ciência, o direito, o império dos sentidos, as redes e a economia – tais modos de existir e ver o mundo são importantes, mas aceitar a pobreza da dimensão política de nossas vidas torna cada um desses modos consequentemente mais pobres. Paulatinamente, e sem que percebamos com clareza, viver torna-se mais enjoativo, a felicidade mais artificial, o amor mais cínico. Vamos fugindo de nós, de nossas potências e identidades, para abraçar paraísos inexistentes, fantasias de segregação e perseguição, violências que nada resolvem, gozos e consumos que nada satisfazem.

Resgatar a política é fazer um esforço para que o campo geral da vida volte a conspirar a nosso favor, frutificando nossos sonhos, celebrando nossos diferenciais e as potências de nossa gente.

Mas o que é, a dimensão política de nossas vidas? E por que estaria ela amofinada?

A dimensão política de nossas vidas é a forma com que organizamos e acessamos o poder. Poder para 1) decidir o que é importante, e 2) realizar o que foi decidido. Você é dono de seu corpo e, se tudo correu mais ou menos bem, de sua reserva doméstica, sua casa. Aí, é você quem preside e legisla. Você determina o que é importante, e você realiza o que foi decidido.

A vida, entretanto, acontece no encontro de muitos corpos e casas. Entre os corpos e as casas, existe tudo aquilo que é nosso, que sempre foi e sempre será nosso. As ruas e rios, o pôr e o nascer do sol, a brisa e a paixão. A faculdade de estender a mão a um irmão, de levantar uma festa, de lutar por direitos. O canto dos pássaros, a copaíba e o jatobá, o calor de um abraço, o sorriso de uma coincidência. A vida acontece feliz ou infelizmente graças à dimensão política com que nos ligamos e nos reconhecemos. Se deixarmos esta consciência esmorecer, murchar, enfraquecer, a alternativa será a estupidez nada confiável da lei do mais forte, dos espaços restritos e privados, do acesso à alegria da cidade reinventada apenas a poucos glutões.

Se a lei do mais forte não fosse estúpida, Homero, frágil e cego, jamais cantaria. A palavra de Jesus e de Confúcio jamais teria corrido o mundo e erguido milagres de fé e solidariedade. A escravidão jamais teria sido abolida. Os direitos trabalhistas jamais teriam sido criados e tornados lei. O Brasil jamais teria declarado independência.

Hoje, o poder está mal organizado, e nosso acesso ao poder é praticamente nulo. Tal situação, tensão que só faz aumentar, pede um redesenho republicano que torne os exercícios deliberativos e administrativos do poder mais atinentes às possibilidades e desejos atuais.

O Brasil é uma terra rica e abundante, mas somos um dos países mais desiguais do mundo. Quanto mais desigual o país, mais insignificante é curtir a vida. Eu pretendo curtir a vida. E você?

As urgências especificamente brasileiras, da União e de suas cidades, foram soterradas. Em seu lugar, opera-se nas câmaras legislativas e nos gabinetes executivos um teatro insosso de revezamento partidário, funcional até o momento em que o grande capital monopolista passou a ser ameaçado pela promotoria pública. Mas o grande capital, mesmo o monopolista, colocará sempre a razão na frente do orgulho. Já os partidos políticos, em tempos de convergência abundante e de superação das diferenças, tornaram-se repetidores intrinsicamente orgulhosos e incapazes de despertar confiança. É hora de ocupar o que é nosso, sem o ressentimento da máscara, sem a raiva do ofendido, mas com o orgulho e a força de quem conhece e zela e luta pelo lugar onde nasceu.

Em seu proveitoso livro de intervenção, Só mais um esforço, Vladimir Safatle diz:

Neste momento em que alguns se inclinam a uma posição melancólica diante dos descaminhos do país, há de se lembrar que podemos sempre falar em nome da primeira pessoa do plural, e esta será nossa maior força. Faz parte da lógica do poder produzir melancolia, nos levar a acreditar em nossa fraqueza e isolamento. Mas há muitos que foram, são e serão como nós. Quem chorou diante dos momentos de miséria política que este país viveu nos últimos tempos, que lembre que o Brasil sempre surpreendeu e surpreenderá.

esboço a uma teoria de estado, parlamento dinâmico, executivo tecnocrata

Vejo, à esquerda e à direita, oportuno campo comum de descrença na expressão oficial da política. De um e outro lado, irritam-nos as reações pouco pragmáticas e inerciais, afinadas a seus trejeitos históricos, e não à solução.

A esquerda poetiza ruturas vingativas, exibindo discurso irresponsável ou, no mínimo, tecnicamente falho. A direita aceita mudar a paisagem, pelo amor de suas filhinhas, desde que não perca nada no caminho, enojando assim a ampla população sofrida e trocando união por desconfiança. Fiquemos com a oportuna descrença de parte a parte e desprezemos seus vícios. Os vícios, afinal, não são, neste caso, tanto de personalidade quanto de lesão cognitiva por movimentos repetidos.

O futuro será diferente? Não resta dúvida. O que a gente às vezes esquece é que ninguém o fará diferente por nós. Que repetir um movimento ou tradição não necessariamente significa aproveitamento biomecânico otimista. E que a velocidade da mudança é função direta da força dos nossos compromissos, mesmo quando dizemos Não. Esta breve postagem tem por objeto levar a público um desenho novo de configuração democrática. Precário em sua simplicidade, mas possível mexer.

As repúblicas democráticas não são estágios definitivos da convivência. São um movimento. Hoje expressas em estados-nação, já foram reinos, feudos, guetos, ducados, pântanos, cidades-estado. Tais instrumentos de concreção política, ou de comunhão produtiva das diferenças, assumirão ainda muitas impensadas formas, melhores ou piores que as atuais.

Nossa vigilância e nosso debate servem para manter aquecida e alerta a preocupação com a evolução. Proponho, como plano de fundo a meu desenho, uma teoria bastante simples do Estado. Conquanto mudem as configurações da convivência, creio no Estado como uma ideia conceitual suficiente para restar qual ponto de fuga quase religiosamente permanente. Porto onde sempre voltar antes de amanhecer um novo traço no mar alto das paixões. Neste desenho, o plano de fundo do Estado é um bocado total.

Todos os seres expressam o Estado em sua instância primária, que coincide, não por acaso, com a simples presença. Devemos superar a noção, a meu ver retrógrada, do par insistência estatal / existência cidadã. Nem o Estado deve insistir, nem o cidadão existir. Mas todas as presenças são e dão a ver o Estado em seus bocados totais – favor fractal da vida insólita. Tranquilizadas da antiga tensão entre Organismo Insistente e Numéricos Existentes (não há dentro do Estado / fora do Estado), as presenças deixam de competir os privilégios da alocação, para confluir nos privilégios do estar. É como se não houvesse, mais, um lugar enfim onde chegar, mas apenas circuitos de tantos fluidos sabores.

Dito isso, e lembrando sempre da função de elo de todo desenho que se propõe evolutivo, há que retornar ao cenário atual e construir, paciente e coerentemente, sobre e desde as disposições legais e culturais dadas ou à vista, e nunca ‘do zero’.

Dos três poderes da teoria clássica do Estado, o Judiciário provou-se o mais autorregulável, parecendo hoje o menos adoentado. O Legislativo e o Executivo, fontes reais e mitológicas da presente aversão coletiva pela política oficial, encontram-se entre a sobrevida e a putrefação. Inúmeros intelectuais públicos e especialistas convidados têm se manifestado, pisando o sobredito campo comum da descrença, sobre quetais e senões da problemática da representação, este conceito-chave da república democrática. Comecemos, aproveitando a onda, pelo Legislativo.

Proponho a figura do Parlamento Dinâmico, e a troca dos prepostos ‘direto’ , ‘indireto’, ‘real’ e afins por ‘graus de separação’ no exercício do voto. Um parlamento dinâmico tem por ideia central a vacância permanente dos assentos. Seriam, a título de exemplo, 700 cadeiras completamente vazias. Um Congresso Nacional sem dúvida aberto, mas teimosamente vazio. Uma pauta, digamos, que trate de bioética, ganha o chão da casa: a edição genética dos descendentes feita por empresas particulares deve ser compartilhada com o banco de dados da União? Em alguns segundos, o Congresso Nacional é ocupado por 700 parlamentares credenciados previamente para assumir o grau zero ante esta pauta específica (gente cuja formação e trabalho assim a habilita). Ali, eles discutem, formam times, rivalizam cenários, aprofundam estudos, propõem emendas, vetos, restrições e revisões, criando uma dezena de tópicos passíveis de voto. Em seguida, abre-se a votação. Neste momento, todos os adultos emancipados residentes no território referente àquele Congresso podem e devem votar, resolvendo as eventuais ignorâncias pela guarda da trilha dos graus de separação a um dos 700 parlamentares. A depender de sua situação, você pode estar a um grau de separação de um legislador, o que dará a muitos de seus amigos, familiares e colegas que confiam em suas relações a possibilidade de um segundo grau. Assim por diante, até que todo o território se manifeste sobre o tema e exerça o voto. Em cada votação, registra-se não só a atribuição eleitor–voto, mas também a trilha que o levou ao voto. Por que você disse ‘sim’ a este tema? Porque minha esposa tem uma comadre cuja filha trabalha com o avô de um parlamentar que aconselhou o sim. Todas as trilhas são publicizadas.

Trata-se de uma figura, admito, ainda bastante crua, mas que parte da premissa de que parlamentares fixos, por mais ecléticos, honestos e voluntariosos, são atraso de vida ante as possibilidades atuais. Cada assunto específico merece, no grau zero do Congresso, as melhores cabeças disponíveis. Sem partidos que não os que aquele assunto mereça. Partidos cujos nomes e slogans se formam não previamente, mas em consequência dos dilemas tangíveis e tecnicamente defensáveis. Trocamos o circo do marketing insosso e as representações pétreas com orgulho de clã, pelas disputas concretas do dinamismo útil e do lastro universal da gnose comparada.

Já ao poder Executivo, proponho a configuração fria da tecnocracia meritocrática extrema, sem qualquer espaço para conversinhas, favores, arranjos. Um conselho formado por seis homens e seis mulheres nobelizáveis dos quatro cantos do território, todos entre 65 e infinitos anos – conselho por assim dizer ancião – escolhe, por meio de manhas próprias (que podem incluir mas não se resumir à magia), o Chefe do Executivo, um realizado Gestor, ilibado e disposto a dedicar um período de trabalho voluntário ao país, sem benesses nem privacidade. Este chefe responde pela escolha de quatro Diretores. É, ainda, porta-voz do Conselho Ancião e Secretário das reuniões deste. As quatro Diretorias do Executivo são: Ecologia, Economia, Redes e Educação. A cada uma, uma breve descrição a seguir.

Ecologia: aquilo que dizíamos Defesa, e antes Guerra. Os saberes profundos da casa, as visualizações de todo e cada curso e recurso, em todo e cada mapa imaginável. A cartografia da matéria no bojo e na composição do território. A garantia dos acessos e das liberdades acordadas. A guarda e o resgate, o cuidado e a recuperação. Uma diretoria com alma feminina.

Economia: Fazenda, Tesouro, Títulos, Reservas, Fluxo de capitais, trocas internacionais, bolsas de futuros, derivativos e Regulação. A hierarquia dos nomes da casa, para que não se trate o valoroso como o vagabundo, nem o caro, como barato. Os regimes de trabalho, e os regimes de compensação. As cobranças, e as cobranças das cobranças, pois não há nem deve haver jamais um almoço grátis, na medida mesma em que deve haver graça em toda e cada refeição. Nunca é só a economia, mas é ela a interface a impedir que nos tornemos estúpidos. Uma diretoria de mão masculina.

Redes: Aquilo a que outrora dissemos Infraestrutura, e antes disso Departamento de Obras Públicas. As viabilizações dos movimentos (engenhos), a viabilização das vias, do dado à energia, bem como suas manutenções e renovações. Os fundamentos práticos de toda e qualquer operação no território. Algo fora da rede é algo impraticável. Uma diretoria da ‘Inteligência Artificial’.

Escolas: A estratégia otimista dos saltos geracionais, no que torna a vida sempre melhor, e nunca pior. A escola é una e é pública, obrigatória e quase ditatorial em sua mania de excelência alegre e laboratorial, da tenra idade às pós-especializações. Uma diretoria jovem–anciã.

Eu espero com isso ter contribuído, um pouquinho, com a necessidade premente de novos desenhos a acudir, sem ressentimento, raiva, revanchismo nem malícia, o esgotamento amplamente observado da conjuntura ora disposta.

um diagnóstico: retorno

O texto de ontem [um diagnóstico] não gerou muito impacto de visitas. A geração predominante na internet (pós-gêneros 14 a 24) deu ao post a tag TLDR, abreviação em inglês para ‘Muito Longo, Não Li’, e preferiu passar o olho nas sinopses. Os leitores mais velhos, no entanto, acharam razoável, mas parte expressiva caiu na armadilha que armei bem armada.

Um deles, aposentado que descobriu a militância política tarde na vida mas nem por isso se deixa desmotivar, escreveu ecoando um cacoete bastante desagradável da esquerda formalista, que eu justamente pretendia ver sair da toca: “criticar a corrupção, no fundo, é meio cafona”, escreveu.

Esta esquerda, encantada numa insularidade duplamente antipática (diminuição moral do mercado, de um lado, e nojinho ante a vida comum do trabalhador naturalmente de direita (cioso de suas posses e das leis escritas), do outro), prefere ser conhecida como ainda acidulante a perder os charmes sessentistas missionários da boina preta e dar as mãos pra gente que trabalha e não fala nem faz questão de falar francês.

É uma pena, pois muitas nobres inteligências brasileiras hoje estão assim infectadas sem saber, desvirtuando jovens com pretensões intelectuais. Algo triste: ver um jovem que já foi pobre mas no segundo ano de uma faculdade pública de humanas qualquer se deixa levar pela figura do protótipo do reclamão teórico, quando o que ele deseja, em seus fundilhos, é não pegar no batente para se dedicar à ‘luta’ e aos ‘estudos’.

Pode ser natural, mas é muito irônico, que justo a produção de ideias da esquerda fique, ao fim e ao cabo, mais distante da realidade do trabalhador comum do que 5 minutos de palestra de um vendedor de esquemas pirâmide. Este fato, cujas consequências talvez nem tenhamos começado a ver, adormece o Brasil.

A cafonice de criticar a corrupção sempre existiu na crítica da esquerda. Afinal, a corrupção é, como gostam de dizer desde Rousseau, da hipocrisia da ’natureza humana’, e o importante é vencer o Capital. Mas ela foi exacerbada com os paneleiros canarinhos de 2013, os tais que supostamente derrubaram o PT. Compreensível?

Odiada por ter apenas coletâneas de MPB, e nunca os discos originais do Caymmi, a classe média deste país sofre injustamente na mão das crias da ciência política importada da Europa. Sempre atacada por sua estreiteza estética (o shopping da Barra, as casual fridays da Vila Olímpia, a festa de Barretos, dizer ‘eu fiz Itália, Grécia e Espanha’ e nunca ‘eu fui/estive/viajei a Itália, Grécia e Espanha’ etc), esta classe média tornou-se um alvo-joão bobo, quem sabe inexistente, e passou a constar nas cartilhas como pré-requisito nas manifestações públicas da redação engajada. Prova cabal de que a esquerda conversa entre si, cultivando piadas internas e pagando os dízimos à patrulha, e nunca conosco. Outra ironia: o discurso de transformação social, oriundo da Academia, e nunca das barricadas, hoje tem menos impacto prático do que a fala de qualquer pregador, de qualquer religião, dirigindo-se sinceramente a seus devotos sobre a bondade na vida.

Quando um termo como ‘corrupção’ ganha os holofotes, é importante não se enrolar nele. Uma das tarefas, para tanto, é praticar o distanciamento, saindo dos jornais diários e buscando sua longa duração na história. As duas raízes indo-europeias que o compõem (*kon-, ‘junto’, e *reup-, ‘ruir’) indicam a união para o estrago. Um trabalho coletivo de negação. Seu antônimo preciso é ‘construção’, um trabalho coletivo de afirmação.

Um exemplo bastante autoevidente de corrupção pode ser visto neste esquete dos irmãos Marx:

Ao observar a evolução do emprego dos dois termos, corrupção e construção, no corpus livresco da língua inglesa (não há, ainda, a tecnologia de aferição lusófona, infelizmente), notamos a curiosa figura:

Ora, a tendência parecia boa até 1977, quando morre o Groucho e estreia Star Wars. Daí em diante, ‘construção’ vem caindo e ‘corrupção’ subindo. Mas isto não indica, necessariamente, que a corrupção vem crescendo e a construção diminuindo. Talvez a sociedade, de quem os escritores de livros são antena, esteja mais acostumada, da morte do Elvis e da estreia dos Sex Pistols para cá, com a construção, e mais alerta para a corrupção, donde esta ocupar mais os livros que aquela. Pode ser. O que não explica, mais uma vez, o cacoete da esquerda brasileira a repetir que criticar a corrupção é pactuar com a cafonice dos muambeiros de Miami.

Como eu apontei no diagnóstico de ontem, o Governo deve ser uma empresa exemplar, e não existe absolutamente nada que distinga a gestão pública da gestão não pública. Orçamento é orçamento, custo é custo, recurso é recurso e retorno é retorno, seja ao vender iPhones, seja ao fazer uma ponte. Quando criticamos a corrupção, criticamos, sobretudo, o trabalho voluntariamente pior do que poderia ser. Não se trata, estritamente, do aspecto policialesco da corrupção. O crime de colarinho branco, aliás, é outro fetiche da esquerda intelectual que ela gosta de projetar na classe média trabalhadora, esta que só quer ficar em dia com os impostos, gerar empregos e curtir a vida honestamente. Se entre duas opções de contratação ou compra de materiais, a pior escolha é feita, deu-se corrupção da função gestora-executiva, importando menos se alguém desviou ou foi desviado.

O mercado, o dinheiro e a concorrência são inexpugnáveis da realidade, na medida mesma em que são melhoráveis, quanto menos e menos corrompidos forem a gestão e os processos. Tanto o Governo quanto uma empresa não pública são admitidas em nossa realidade mediante uma razão de ser e um contrato acessível. A integridade das pessoas jurídicas pressupõe a aceitação e o de acordo do organismo social, e toda corrupção é uma forma de traí-lo e sujeitar-se a boicotes, sanções e penas, das cármicas às judiciais.

Limpar a corrupção, para repetir o clichê, é um trabalho sem fim, mas começa cedinho, todo dia, em casa.

um diagnóstico

Aos 38 anos, tendo convivido, em âmbitos variados, do profissional ao festivo, com as gerações anterior e posterior à minha, com classes de ofício várias, das mais comprometidas com o estabelecimento, às mais sedentas pelo novo, e tendo passado por um treinamento razoável, ainda se autodidata, em coleta etnográfica e organização taxonômica, sinto-me livre e seguro para compartilhar com meus leitores um diagnóstico preocupante.

O diagnóstico diz respeito ao organismo social, corpo sem dono cuja inteligência compomos e compartilhamos a cada e todo instante, mediante cada e todo gesto e fala que produzimos. A inteligência do organismo social não é suprema nem infalível. Mas é tão alta quanto o mais alto de que formos capazes. E cresce, também, conforme crescemos. A viabilidade das conversas incessantes com os ruídos, da fluidez perspectivista, e da atualização ligeira no uso das gírias prova isso.

Não há nada de predestinado no organismo social. Nada fatalmente inscrito. Nosso livre-arbítrio, entretanto, é produto da rede histórica dos desejos de todos os homens. A rede histórica dos desejos de todos os homens, infelizmente, é invisível. Visíveis, graças às ferramentas de manipulação material, são os desenhos dos homens. No começo, éramos poucos. Multiplicamo-nos e formamos uma grande família planetária. Nossos desejos encarnam-se em desenhos, desenhos que hoje constituem e representam o organismo social.

Não há liberdade fora do organismo social, e o organismo social não tirará a liberdade de ninguém. Por que lutamos? Porque sofremos. Por que sofremos? Porque muitos dos desenhos, lá atrás fixados em instituições, em crenças, e em processos, são às vezes garranchos, rascunhos trepidantes, indevidamente aceitos como desenhos finais. Quando sofremos ao constatar uma falha sistêmica aqui e ali, não é, necessariamente, que alguém foi absolutamente malicioso. É que muito desenhamos conhecendo pouco. E a matéria, em sua miríade de durezas, seduz e engana.

Gosto de imaginar que, tal e qual guarda meu corpo um coração, meu bairro guarda minha casa, a cidade guarda meu bairro, e meu país guarda minha cidade. Não ligo para as unidades federativas, a não ser em concursos de sobremesas (um bom doce baiano, um notável doce mineiro etc). Mas sim, o diagnóstico é:

estamos rodeados por problemas reais, difíceis mas não raro gostosos de resolver, dispondo como dispomos destas tantas engenharias. Mas muita gente que encontro prefere desconhecer tais problemas, apenas para criar novos problemas. Muita gente que encontro prefere dar as costas a tais problemas, apenas para ‘jogar o jogo’, como dizem. Os primeiros muitas vezes se dizem revolucionários, quando agem, boa parte do tempo, e em que pese certa elegância tática, como autênticos tapados. Só um tapado para desconhecer um problema real, criar um problema imaginário e espalhar por aí que está mudando o mundo. Os segundos muitas vezes se dizem ‘da ordem e da lei’, quando agem boa parte do tempo, e em que pese certa transparência de raciocínio, como autênticos canalhas. Só um canalha para ignorar um problema real, criar o problema imaginário do medo e da insegurança e espalhar por aí que a ordem e a lei são crias exclusivas do medo e da insegurança.

Peço desculpas pela simplificação. A gente é bem mais variada e diferente do que isso, e decerto temos todos um bocadinho de revolucionário e de jogador da lei e da ordem dentro de nós. O diagnóstico, contudo, é importante. Continua sendo importante. E não deixará de ser importante. Ele pode ser resumido assim, o diagnóstico:

nossa lista de problemas reais, nossa lista de coisas importantes, e para não deixar nenhum querido de fora, vou chamar essa lista, ao menos por enquanto, de lista brasileira (quem estiver a ler desde outro território, sinta-se à vontade para fruir de nossa lista conosco sempre que viajar pra cá, temos ótimas praias e chapadas carregadas de vivacidade mineral), pois, nossa lista de problemas reais, nossa lista de coisas importantes, parece-me bastante atrapalhada. Ou há supostas listas conflitantes, o que seria logicamente incabível, posto que o território brasileiro é único. Prefiro acreditar que é uma lista atrapalhada. Negligenciada. Ou mofada, para usar um termo que ficou célebre na Constituinte de 88.

‘Buraco negro’ foi outro termo celebrizado na Constituinte de 88, a certidão de nascimento da Nova República. Era como apelidava-se uma pauta inalcançável aos dois lados politicamente organizados (‘sistematização’ e ‘centrão’, nomes psicodélicos a tanto revelar nossa falta de rigor categórico).

Os buracos negros de então (o conteúdo e o mérito não importam, pois a Constituição de 88 é formalmente uma lenga-lenga) eram zonas de tensão entre formas de pensar historicamente antagônicas. Naquela Constituinte, gestou-se a polarização que vivemos hoje, informada menos por cálculo que por testosterona de machinhos (entre os quase 600 constituintes de 88, havia míseras, vergonhosas e indesculpáveis 5 mulheres) que se queriam do lado certo e irremediável, sempre.

De uma parte, procurava-se garantir que as traumáticas marcas de uma colonização racista e economicamente ineficaz cedessem à razão da justiça igual e das oportunidades iguais para todos. De outra, procurava-se garantir que a aristocracia improdutiva da ameaça comunista não voltasse a bagunçar o país e ludibriar o povo.

Assim, sabendo-se o bastante de justiça e de bagunça apenas para arrumar desafetos e brigas (acreditem, havia constituinte andando armado), desenhou-se a Constituição de 88, cujo produto essencial é a Nova República.

A Nova República nos brindou com o fim da hiper-inflação, e com o abraço de inédita generosidade da União ao pobre. Mas foi incapaz de iluminar e tratar os vícios coloniais da corrupção e da exploração indevida, com suas muitas formas opressoras de coronelismo, compadrio, mandonismo e filhotismo (aberrações a nos brindar hoje em dia com o mimsafismo e o qualquercoisismo, tópicos de um post futuro).

Eu não quero falar da Constituição de 88 porque ela tenta me explicar e me sujeitar a termos estapafúrdios como o que eu posso ou não ingerir. Mais um pouco, ela tentaria me explicar o que é um pires. Eu não preciso, nem você, nem ninguém. A gente tem o google pra fazer inhame empanado na tapioca e biohacking, sinceramente.

Volto ao diagnóstico, e volto a pedir desculpas por perder nosso tempo com a Constituição de 88, da qual não quero e não pretendo voltar a falar. Outro dia me informaram que não tínhamos computadores na época da Constituição de 88, e que boa parte do pré-projeto foi feito na tesoura e na cola. Mas é mentira. Tínhamos computador sim, e não usamos, eis mais um triste índice do natimortismo da de resto ricamente intencionada Carta. O diagnóstico, se o leitor tiver paciência, eu gostaria, assim, de enunciá-lo:

hoje o brasileiro tem mais motivo de vergonha do que de orgulho de ser brasileiro. Quando um povo tem mais vergonha que orgulho da situação atual de seu território, a conversa política perde calor e cai no cinismo. O debate e a discussão essenciais para elucidarmos os problemas reais e concordarmos numa lista única de coisas importantes cede, de um lado, para lamúrias catastrofistas de uns poucos alarmados sinceros, e, de outro, para os niilismos egoístas e estabanados dos ditos players. No meio, sobram proto-samaritanos esclarecidos a convergir no desperdício triste do silêncio. Depois, os problemas reais, soterrados pelo cinismo e pelo egoísmo, vão piorando. E tudo piora para todos, mesmo para quem acha que está se dando bem. Em 2008, participei da produção desta pequena peça política, como redator e locutor:

Não ouvi falar, passados dez anos, que a qualidade do combustível melhorou. Alguém ouviu? Quem terá, portanto, motivo para celebrar qualquer coisa?

É triste conversar com um jovem hoje que, ao menor sinal de concatenação de um problema real, como a poluição dos dois grandes rios a cruzar a cidade, exibe, no escapismo de suas redes, o fato trágico de que a maioria da população brasileira não confia no Congresso Nacional, onde gestou-se a Constituição de 88. É triste conversar com um empreendedor hoje que, ao menor estímulo a seu orgulho nacional, exibe, no escapismo de suas redes, o fato trágico da desqualificação de nossa força de trabalho, do garrancho de nossas leis fiscais, dizendo não sentir culpa ao comprar tecnologia e fabricação asiáticas, ou exportar as melhores partes da colheita para os europeus.

Que fazer, diante de tal diagnóstico? Não sei ao certo, mas estou a investigar. Seria talvez salutar, a partir de um autoexame cauteloso, e com os dois pés no chão, praticarmos a leitura da história em sua longa duração, sem insistir na criancice de que cada dia é um novo mundo de zero a zero. Não é. Há pouco, éramos uma colônia escravagista de exploração latifundiária de monocultura. Por quase 400 anos fomos isso. E temos hoje pouco mais de 500 anos. Sabe o que isso significa? Que hoje, andar livre em roupas gostosas e consultar um smartphone comendo uma boa bisteca e tomando bons drinques é quase um milagre. Um milagre que devemos agradecer SEM PERDER A NOÇÃO do movimento histórico dificílimo que o viabilizou. E por fim entender: o trabalho de maturar a democracia brasileira não só não acabou, como está apenas começando. Neste começo, é crucial conhecer e valorizar cada pequena conquista, cada injustiça resolvida e iniquidade amenizada.

A Constituição de 88 tem muitos méritos. Nunca na história brasileira tanta gente foi ouvida, tanta proposta popular foi colhida dos quatro cantos do país. Houve, de fato, abertura, progresso e disposição positiva naquele Congresso. Formado que sou em Administração, acho que as empresas devem ser as primeiras a dar o exemplo. Toda empresa é um coletivo revolucionário em potencial. Se duas ou mais cabeças pensam e fazem pior do que uma, então era melhor não existir. Se somam inteligências, têm a obrigação de ser melhor que nós, de nos dar o exemplo.

No Brasil, a empresa mais importante é o Governo. Se ele não der o exemplo, uma longa e viciosa cadeia de jeitinhos e escusas seguirá. E teremos de ouvir a arengada, eis o Congresso que a gente merece, os jornais que a gente merece, as quitandas que a gente merece etc. É injusto forçar nossas crianças a escolher entre ‘jogar o jogo’ das planilhas egoístas ou tornar-se um rebelde que nega tudo isso que está aí. Justo seria trabalhar para que elas sentissem orgulho de nossa história e decidissem aqui ficar e estudar para desenhar nossas leis, nossos smartphones, nossos jipes.

Não haverá humanismo eficaz sem a participação lúcida e ativa, nossa, dos problemas brasileiros atuais e urgentes, e não haverá meritocracia sem vergonha, nossa, sem igualdade de oportunidades e de informação.

nota política

A cada nova geração de consumidores do noticiário político, renova-se a necessidade de revisitarmos os conceitos por trás do par esquerda–direita. Revisitar como quem dá uma passadinha, abre as janelas para deixar circular o ar, rega as plantas e tira o pó.

A premissa segue a mesma, a saber, temos TODOS a direita e a esquerda a compor nosso equilíbrio – e mais realizados seremos quanto mais firme e forte nos restar o equilíbrio.

O experimento da Nova República (1985–2017) submeteu ideias da esquerda e da direita às falhas de nosso sistema político, insuficiente em sua representatividade, vicioso em sua gestão. Nem o Legislativo falou por nós, mais interessado em assuntos particulares, nem o Executivo fez a contento, mais interessado em dar à máquina pública imprópria agência eleitoral.

Jovens cabeças boas que poderiam contribuir com a política, diante de um quadro que avexa idealismos sinceros e solidários, foram para a iniciativa privada, para as artes abstratas ou, no caso de cientistas e engenheiros de tecnologia, para o exterior.

Se até o final do século 20 entendia-se a direita como a preferência pelo Estado mínimo, e a esquerda como a esperança no Estado salvador, como estariam, hoje, suas formas?

Considerando as posições ultrapassadas de esquerda e direita como patologias capazes de normalizar a imaturidade institucional, o diagnóstico seria: a direita tinha vergonha do Estado como quem, diante de um parente negligenciado e ‘defeituoso’, preferia escondê-lo das visitas, fingir que não existia, tirar sarro etc; a esquerda era apaixonada pela imagem de um Estado papaizão, tão parrudo quanto possível, enfim capaz de tirar a gente desse sofrimento horrível, sofrimento que só a gente (nunca vocês) sabe que existe.

A direita diminuía o Estado porque, sem um competidor, ele seria um arremedo de gente, antro de preguiçosos, vagabundo que não merece dinheiro. A esquerda inflava o Estado porque, protegido único da traição da selva, só ele teria olhos para as injustiças históricas, para as compensações estruturais, para a saúde contra o consumo sem freio dos vampiros.

Mas eram visões infantis de si mesmas, encarnadas a sério por homens e mulheres poderosos que levaram o planeta à beira da exaustão ambiental e do abismo nuclear.

A atualização das virtudes discursivas da esquerda e da direita pressupõe o alisamento terapêutico destas arestas nostálgicas ou orgulhosas, da lida recalcada com o dinheiro e com a liberdade individual, bem como a cedição irrestrita diante dos ossos da desrazão separatista. Há, em qualquer território cuidado por nós, coisas e práticas a se conservar, e coisas e práticas a se eliminar, lembrando, sempre, da intocabilidade de tudo, pois tudo se transforma conquanto vivamos ao redor.

Nossa direita é mais pródiga em perceber os alvos da conservação, e nossa esquerda, da eliminação. Um governo ideal compõe-se de uma direita forte e de uma esquerda forte, não sendo casado com uma e amante eventual da outra ou vice-versa. Seus compromissos não serão herdados das conjecturas do apartheid irracional da guerra fria, e tampouco da futebolização que infantiliza assuntos importantes, trocando conquistas duradouras por triunfos efêmeros.

Por exemplo: os ativos da União, se sofrerem avaliações esquerdistas (não venda nada) ou direitistas (venda tudo) à moda antiga, darão na repetição lamentável do signo maior da Nova República, a saber, a superação dos interesses nacionais por ideologias pouco pragmáticas, fossem elas ingenuamente, ou maliciosamente, espúrias.

O império do caso a caso, a dureza da avaliação técnica transparente, a conversa pública com as várias instâncias de interesse constantemente acessíveis, um Executivo cujo organograma se assemelhe a uma empresa ágil, aberta, metódica e rigorosa, e um Legislativo que substitua o bem bom carreirista por um quadro apostólico das melhores cabeças disponíveis em nossa geração seriam o começo de uma nova conversa, uma capaz de nos lembrar que somos todos, sem exceção, donos de uma direita e uma esquerda a anunciar, a cada passo da história, o tino insuperável da necessidade.

um post sobre política

Supondo um Brasil só, excetuadas as mãos autoritárias, tendo conhecido um partido desde o Império. Que seu nome, Poder Moderador, servia tal prática utópica da mente necessariamente sã do regente tencionado a exemplificar a ordem constitucionalista do governo possível e não a disputar showmícios como encantador midiático, como fazem, em graus e estilos variados, a totalidade dos quadros eleitoreiros. Não deixando de contar com o encontro utópico, não do ponto de vista de vocabulário, mas outra vez da prática (da ética), entre as gestões públicas dispostas não a remediar doenças locais sem que se germine ou ative o orgulho patriótico com as boas práticas empresariais em situações mais ou menos normais de competição, escrutínio societário e regulador. Que tal partido tomou de empréstimo, nas sucessivas idades democráticas da República, chavões ideológicos exógenos pouco depurados por uma intelectualidade também estilisticamente confusa e assim inócua na lavagem cerebral da classe política, chavões estes que resultavam em grandes intervenções pouco acuradas no efeito reformador apesar do calor narrativo eventual (protocomunismo, 50 anos em 5, banho de lucidez, salvacionismo, nossa vez, país nos trilhos etc). Que a mais recente polarização pós arrefecimento da híper-inflação entre os dois socialismos quasi-brasileiros mas literalmente de meia tijela posto ter o PSDB reservado metade da sua tijela à velharia do PFL e o PT metade da sua ao anarcocapitalismo incompetente apenas fez confirmar a tese da batalha naval mediada por dissonância cognitiva e pouca libido por vitórias profundas, quando errava-se o alvo, nos projetos públicos de grande escala, baixo o pretexto desleal de produzir oportunidades de discurso eleitoreiro contra ‘o outro time’. Que a exaustão de crédito das ruas à representação partidária incorre em risco grave de niilismo epistêmico e de desengajamento paulatino especialmente das gerações mais novas. E que tal tendência desdobra-se em círculos viciosos de distanciamento do crucial sentimento de orgulho pelas coisas da terra e do caráter do país, em relativismo de subsistência carburado pela estética mercadológica da superficialidade do jogo sem passado e sem futuro, e consequente brutalização do leque de desejos e aspirações a trocar o norte da construção por absurdos e repetitivos jorros de ansiedade por segurança escatológica, este weblog compromete-se a:

1) não admitir amigos ou colegas não fluentes em Esquerda e Direita no que a primeira pretende reinaugurar e a segunda preservar, e fluentes não para arrogar certezas entusiasmantes de nada mas para provar sustentável a habilidade de agir na discussão, e antes de agir deliberar, e ao deliberar ouvir e processar, bater termos e falas nas rodas do evento com os nós e rios da sua não meramente observadora mas partícipe experiência de vida e, só então, falar;

2) não ver na ruína do sistema político-partidário interesse de restauro;

3) não ver na ruína do sistema político-partidário interesse de ainda mais demolição;

4) entender o conteúdo de verdade produzido por disputas de discursos como só possíveis quando os partícipes nela não entram com nada fixo, isto é, nela entram esvaziados de Verdades prévias de qualquer sorte mantendo evidente a sanidade e assim abertos para as mesmo insuspeitas maravilhosas surpresas das novas formas de felicidade humana graças à resolução de mais um problema comungado;

5) não cansar de dizer que disputas pré-programadas de discurso não dão em nada;

6) levar adiante que a eleição popular de cargos para representação não precisa, como se treme um e se range outro lado da mesa arcaica, deixar de existir por um bom tempo, do mesmo modo que a eleição do Poder Executivo da noite para o dia pode não ser mais popular, e simplesmente técnica por agregado de notório saber e aleatoriedade da nossa gente;

7) reclamar que estamos gastando nosso tempo ao falar de recomeçar do zero, pois o medo é tão cafona quanto a crença adolescente de que amanhã tudo vai ser do nada diferente. Pior que a preservação além da conta e a revolução indevida, só a terceira postura, demagoga, niilista, cínica, orgulhosa, de desprezar o comum;

8) disputar com a narrativa de que a democracia brasileira pode largar a mão de fixações menores que o orgulho de ser brasileiro. Este podemos ter mais ou menos em medidas salutares e germinativas, e daí virão sensações fiáves de desgosto ante a injustiça e a desigualdade;

9) lembrar de que estar no mercado pode ser excitante mas lembrar que, antes, urge-nos cuidar do corpo despreparado do Estado ou nada será excitante;

10) lembrar: enquanto houver entrada de receitas e saída de custos fixos e variáveis a política pública qualquer uma será às claras de portas abertas, nos termos correlatos dos envolvidos (realizadores e comunidades afetadas em concerto);

11) perguntar sempre, se o agente pode tanto fluir na poesia do mundo que virá, quanto na poesia do mundo que vem ficando porque assim queremos, dobrar-se ao cinismo do não engajamento ruidoso e melancólico não fará brotar um fardo alienável?

tampouquismo, script kids, a falácia da sofrência

São estes os três assuntos a circundar o atual. Folha em queda ou pétla também caída, enxume de enxofre a optar pelo anti-íon e besta praga ética jamais confirmada pelos franciscanos firmes, não lhe tanto interessam quanto a geração de energia local e a ergonomia dos objetos que ao mundo para nos servir, nunca atrapalhar, para ficarmos em apenas dois exemplos do topo de sua cabeça.

Não interessa tanto, no entanto, não basta. Se é para falar a língua iluminada, dirá também que depedram injustificadamente a produtividade resolutiva da atividade. Comprimem a potência, o que já é questionável em si, mas somam ao estrago a ausência vergonhosa de um propósito nobre que seja. E acabam, sempre, num rol de cento e poucos termos – todos, sem exceção, representando a nada excitante altercação binária. É apenas isso. O tampouquismo não é isso. O tampouquismo é outra coisa.

O tampouquismo é uma conversa outra, nobresilenciosa e ancha no que não define. Êhf, você pode dizer, soltando o ar, num modo expressivo avançado. É que o tampouquismo muito antes de ofertá-las em formicas vai a palavra reduzindo à fome. Desnutrindo o conhecido a fome e ainda: sem surpresa. Êhf – você não precisa saber antes que dirá daqui a pouco você não mira em ninguém (tampouco não não mira), mas encosto, aqui, não é partir de cima para atalhar o gostinho do poder; não é, atenção, empurrar o pescador para, então, alertar que caiu o pescador e você não. Assim faz o script kid: ele quer, um dia, programar o mundo que já vai a lhe cansar neste tacanho formato caixa. Mas não pode porque ou não se esforçou ou não quis ele ou a maldita sorte que lhe quis e pode mudar desde fenômenos muitos, a leitura deste post inclusiv se ele ler, e respeitar os mestres: assim o script kid sairá de seu infortúnio patológico ao qual Lacan ele mesmo denotou, em estudo antigo, a partir do caso dos beliscadores a rodar, desnecessário dizer BELISCANDO, quem lhes desse na telha, nos coletivos de Paris.

Paremos com isso, porém, para falar da falácia da sofrência. Vamos ver como dá pra viver sem violência “branca”. Porque não é possível. E porque, cuidado, desarranjar o cosmo é ação seriíssima (e deveria estar reservada). Vamos ver como dá pra governar a atribuição de stress – sem implicar os inocentes em negativíssimos ciclos cármicos que eles tampouco merecem? Vamos ver e vaiar quem otariamente brindar ou submeter-se ao exótico mistério da dor, atenção, ingovernável por quem quer que seja – “regra” (ao modo do teste da dureza entre materiais, ou seja, nem tanto constituída por nós). Pede o poeta a coragem de abandonar do fogo dos foros o apego a termos do meio, abandonar aos montes donde o foco em recrutamento e seleção [você, um possível gênio; ela: acha lâmpada e não mais as brincadeiras da mamãe do imperativo SEMPRE passivo como forma de agradar sendo que agora, é resolver: não há vitória em vista: pequenas vitórias não existem, não carece de uma; tampouco das derrotas de prickster: quem delas precisa?) Necessidades do corpo da pessoa humana e saúde: há entulho nas mandingas, nas alcovas, nos diagnósticos, nas prescrições. Entulho é esse acúmulo de termo do meio que gera ‘Pull Out’, isto é, o leitor mentalmente médio ‘sai’ do texto porque não enxerga, na argumentação da mandinga, da alcova, do diagnóstico, da prescrição – todas entulhadas –, relações muito práticas com os achados mais recentes da casa do saber (é o caso entender ciência aqui não só como a ciência incorporadas, mas também a relevantíssima independente e, ainda também, a marginalizada ela ora sob milícia do bem crescente). Como se trata de necessidades do corpo da pessoa humana e saúde, deveríamos evitar argumentações furadas com ‘Pull Out’ sob o risco de perder e, eventualmente, arrastar uma indústria consigo.

Um dos principais fixadores da falácia da sofrência é a iconografia do fracasso cristão. Via certas bandas, via certo skate, via proto-ocultismo de cuia meia (nem os ‘caras-feias’ riam imunes ao devir-script kid) e outras coisas, ela hoje produz adesivos que incentivam toda sorte de irracionalidade. Uma pena, isso sim é a simplificação simplória do excitante. Não se fala de moléculas, basicamente, ou de ‘zão’ eletromagnético. Qualquer participação, seja em mandinga, seja em alcova, seja em diagnóstico, seja em prescrição, sem tais campos léxico-conceituais iniciados e recomendáveis ao formado mentalmente médio afim apenas para citar dois exemplos do topo etc resulta tosco ruim de improdutiva então a dita.

Não no tampouquismo: não. Tampouco é tão definitivo – tente: veja, se não abre uma m   a  n-d   a-   l  a. Tampouco perderá, vencerá. Tampouco é tão certo, dizem os tampouquistas, e tampouco nunca mais, teu palco é pouco, ah, lindo, lindo é isso do tampouco, tampouco ou quase; ou, antes: tampouco é isso: nunca mais; não mais pois tampouco né? é, beijo. Não é tampouco. Tampouco é quase, poderíamos assumir?, ‘tampouquear’ diria, rindo uma jibóia dentro, como quem brisa à oblíqua sem má-fé, e já no tampouquismo a utopia que havia mineiraram; acabou. Poderíamos, sim, ter todo aquele todo adelliano: o todo de que trata Adelle. Êhf. Tampouco temos, contudo, porque vocês estão brincando. Na polifonia ético-perspectivista dos engendrados no barroco tampouquista, sobra pouco

à dor a venda ao total dela pouco sobra, diz tampouco, vendo, o tampouquista, seu corpo entre dois nortes, para uma sorte de conluio: dá azar dá azar. Tampouco entrega(o). Tampouco deixa de roubar seu dom quando soe-lhe um skito mais zum. Êhf.