POLIGRADO

Este esboço tenta apresentar uma expressão possível de Razão de Estado.

Parte do pressuposto de que a mais originária relação Estado–povo tende à experiência do aprendizado. Formas eventualmente desastrosas dessa relação ao longo da história tenderiam portanto ao sumiço por não poder entender a natureza do aprendizado.

Para nós e desde já, aprendizado é a poética da organização; são os passos no sentido ao chão melhor.

A interface cidadã de avaliação holística – ou Poligrado – pode ser instalada em governos eletrônicos com forte correlação, por exemplo, a descontos na tributação das pessoas. Ao fim de um exercício, seu coeficiente CIT é multiplicado pela possibilidade de desconto no Imposto Agregado (sobre toda sua renda e todo seu consumo).

O usuário pode ser avaliado momento a momento, dia a dia, semana a semana etc, de acordo com parâmetros emprestados à expectativa epocal e às contingências individuais. Pontua de ZERO a UM, em cada um dos sete aspectos (realms da vida social) do poliedro, sendo reconhecido e/ou recompensado pela média simples e dinâmica CIT.

Idade, ocupação, localização, índices fisiológicos, objetivos para o ano (mudar o índice de colesterol, correr a São Silvestre etc) e situação socioeconômica indicam um regime aconselhável para o corpo. Não em alimentos específicos, mas em nutrientes, quantidades e frequências. O desafio é buscar o necessário sem abrir mão da aventura dos ingredientes, seus múltiplos preparos e funções bioenergéticas.

Idade, ocupação, localização, índices fisiológicos, objetivos para o ano (passar no vestibular, curar dores crônicas etc) indicam o trabalho aconselhável para o corpo. A rotina de exercícios para tonificação muscular, resistência, equilíbrio e qualidade de movimentos observada diária e semanalmente é constantemente atualizada a partir das respostas lidas pelo programa. Além da ginástica propriamente, o usuário pode optar por ser lembrado, ao longo do dia, de oportunidades de ‘exercício fora de hora’ que o ajudarão a antecipar a meta de trabalho em ocasiões como a fila do banco (onde é possível ficar num pé só e recrutar a musculatura transversa), a demora de uma ligação ao telemarketing (em que é possível realizar diversas respirações com a contração do abdômen) etc.

Cuidar do corpo, íntimo habitat, leva o usuário a cuidar da casa, corpo do corpo, morada reclusa para restauros, fazeres domésticos, cultivos próprios. Neste pequeno zoneamento, aprende-se a reconhecer as vias da limpeza, do lugar das coisas, da fluidez e da harmonia espacial. Daí se expande, por apropriação parental, um saber afim do apropriado e do leve estar até outros, mais abrangentes perímetros: o condomínio, o bairro, a cidade, a nação, o planeta, o cosmo. Sob o imperativo da necessidade e a resolução da ordem, habitua-se. Trabalha-se em vigência contínua e irrevogável pela saúde dos corpos que nos contêm. Resíduos, descartes, pegada de carbono, economia energética, inovações pela longevidade da casa. Pontuar, em EKO, é entender-se extensão da matéria comum, uno com todos os corpos.

Sua por assim dizer ocupação profissional não é, nem deve ser, o fim do mundo, do dia, das forças, da sensibilidade. O humano do terceiro milênio não é necessariamente filho de hippie com yuppie porque curte aprender e experimentar novidades, desfrutar do tempo livre para tocar o mundo com curiosidade ingênua e andar a esmo atrás de encanto. Mas dedicará boa fatia do dia à geração de renda, tão boa quanto enxuta e libertadora. Seu trabalho econômico, entretanto, é mais largo que qualquer holerite ou retirada. Incluirá as tantas outras trocas sem valor monetário explícito de que seus interesses e possibilidades são capazes. Aprender, ensinar, doar, compensar, realizar, voluntariar-se, projetar, cooperar, reformar, ceder, consertar, ler, reler e testar. O objetivo de um contato menos dinheirista e mais vantajoso com as trocas será limpar o terreno da angústia da ambição para as riquezas eternas.

Partícipe, o usuário nunca está completamente satisfeito com seu círculo. Sobram semblantes, faltam contatos. Discussões empacam em vícios circulares. Preconceitos se ossificam. O léxico enruga, perde o sabor. O que era festa ganha os ares de fastio. Buscar redes novas e próximas, ainda que a partir da postura muda do etnógrafo, torna vital manter ativo e vibrante o pulso da pertença. Investigar tradições que lhe eram estranhas, abrir caminhos e familiarizar-se expandindo de novo e de novo seu círculo.

Não é porque se trata de um experimento imaturo que abandonaremos a democracia americana ao tombo da revolução. Antes, o amigo do Poligrado verá política qual filho perturbado, sempre próximo mas coitado de tanto bullying, de tanto menos quase de tanto bocó. Sobretudo fará se ver em conversas tocando os problemas que nos tocam. Tomar partido é confiar nos cursos das jornadas concordes pelo que elas dão de horizonte, mas é também publicar um seu pensar na redação e na ação. Votar a cada dois anos não pontua tanto.

Perder-se nos objetos de arte que atraem pelo que negam do mundo em si, pelas mentiras que expõem para desdobrarem-se verdadeiros e manejáveis, pela irrelevância que superam dando vales belos a cumes incríveis. Pontuar em FIC é curar um museu para si, ser crítico e poeta a demorar-se, amoroso, não só no prazer que dá viver dentro de deuses mas também no arrepio do charme à procura de uns anjos.

O humano tem certo afã por aperfeiçoar os modos, evoluir as técnicas, entender por que quer o que queremos. Encanta os corpos e objetos na nobreza simples do pé no chão. Não pretende entregar completamente sua sensibilidade aos algoritmos na medida quase mesma em que não pode dar as costas à legalidade da inteligência artificial. Conquanto não despreze a priori nem abrace sem escolha, jogará criticamente com o advento da performatividade ubíqua. Há beleza na recompensa justa dos esforços. Se a organização dos mundos abre-se à poesia da vida, crescemos como a Natureza, sendo nosso melhor possível.

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