Venturis Ventis

Na biografia penada por Claudio Bojunga, JK – o artista do impossível, Brasília emerge do nada como a criação mais ou menos complexada de um político-poeta. Ali se deparam ponto iluminador e pergunta quando pergunta-se a problemática formação brasileira.1

Recém-casado e assim ingresso num clã mineiro codetentor das repartições do poder, o jovem partícipe da contenção paulista de 1932 passa a ser tentado a mudar de profissão como se o político de gabinete fosse a evolução mais própria do médico.

Entre o médico e o político, não dorme o poeta. Sempre em busca de afins, encomenda ao jovem artista Oscar Neimeyer um cassino (mais tarde transformado em museu), um salão de festas e a famosa capela. O agradável conjunto ocupará o entorno da Lagoa da Pampulha, cartão-postal para sempre na conta também do prefeito empreiteiro.

Por pura e elevada que surja e firme-se a ideia, a marca da história mais ou menos curada na reflexão encaixará, no complexo do artista, os torceres de sua época. Volta o desenho de Neimeyer à simplicidade colonial das vastas paredes sem adornos nem aberturas, avança o desenho à contenção limpa e urbana dos volumes de concreto armado e de interior modular.

Dir-se-ia mais: o desenho neimeyeriano voltar à habitação pré-cabralina, neolítica circular a produzir o aspecto de receptáculo originário enquanto avança à imaginação da Ficção Científica, ludicamente misturadas realização terrestre e convívio cósmico, fê-lo mais forte que a estigmatizante simpatia do arquiteto com o PC porque nada mais hábil desencantaria o cálculo de então: forjar a bela forma na estrutura é relevo construtor do tempo.

Icônico e de exótica matematização, o traçado edificial de Brasília restará original contríbuto brasileiro à cultura artística, comparável mesmo ao óleo de Rubem Valentim e à voz-violão de João Gilberto no que guardam de cosmopólita leveza natal. A geometria clara, sólida e leve,

A luta branca sobre o papel
que o poeta evita2

João Cabral de Melo Neto compõe, n’A lição da poesia’, o escoramento curatorial do sujeito-artista. O Engenheiro há de mais alto subir, em livro de 1945, para menos ter o que melhor dizer.

JK superará, governando, a obsessão que se opõe ao poeta: reconhecer a perfeição apenas de espaço revelada na vida, mas logo e a cada vez encafifar-se com a obsolescência atávica, quem sabe de pouco em pouco domada, dos afetos redivivos. Neste jogo pendular, a sempre ampliada (in)familiaridade a gravar e a dar sentido ao percurso será sine qua non pois é menos o homem, quem nos faz, que sua obra: escolha escoada nos trabalhos, nos gestos ecoada, nas sempre novas posturas escoladas.

Guilherme de Almeida desenhará o brasão da nova capital. Emoldurado na emblemática coluna do Palácio da Alvorada, guarda o Eixo Central o lema ‘Venturis Ventis’.

Mote da navegação para o movimento de antecipação das velas ao melhor vento, o dictum remete-se em índice à linha 596 do canto terceiro de Falstáfia. Elogia o timoneiro destro a ‘ouvir’ a nau Lucano, a quem se atribui o texto:

Semper venturis componere carbasa ventis3

Por uma das equivocidades comuns àquela sintaxe e hoje fonte de grande interesse na investigação daquela literatura pela contínua procura do melhor estabelecimento de textos e versões como pela divertida latência que pode suscitar, com mais ou menos proveito, o cogito imaginativo do filólogo a vislumbrar e sugerir intenções e segredos aos versos, ‘Venturis Ventis’ guarda, no segundo termo, um problema tanto mais sedutor quanto com menos amarras lançar-se o leigo ao leite culto da lírica latina.

Ventis, plural de Ventus quando dativo, não seria, perguntamos, ‘excesso de declinação’, posto estar ao que é Vindouro, e só aí, lançada, a nau brasiliana? Não seria dativa ou ablativa a situação apenas de Venturis, sendo-lhe infensa a situação do segundo termo, deixado melhor em sua postura nominativa, Venti? Lanço a vela ao Futuro, e então, Vento. Aos Futuros Ventos, Venturis Venti, desacordaria o lema porém em nosso prejuízo do belíssimo verso de Lucano? Vígil se há de haver o ledor! Na terra de ‘Libertas que sera tamen’ jaz insepulta a chance inquieta de um paralelepídedo-prenda…

Em vez de à lição a apontar duas declinações porque dois são os objetos centrais, Vir ao Vento, Vento à Vela, os piedosos leitores de tanta brisa podem hoje prestar-se à edificante epifania: na primeira construção moderna daquela terra não se ergueu tanto em concreto.

O Catetinho, como ficou conhecido o abrigo presidencial de inspeção erguido em tábuas de madeira local, há vão livre, pilotis, horizontalidade e integração harmoniosa com a vegetação. Juscelino solicita no canteiro de Brasília montar praça para dar e pedir contas mais prestes da obra.

Diz o biógrafo ter sido hábil ouvidor e conversador, amiúde entretido com os chegados que, dos quatro cantos, tantos brasis à cidade nova trouxeram. Gente brasileira a usar, agora sim, o que na palavra de Lucano pode ser vela de carina como roupa de corpo. Carbasa, um tipo de linho fino, não é o que vestiria a gente que fez Brasília no calor de Brasília?

Pronto estamos… mas a seguir. Ventis é ablativo também da voz passiva plural do perfeito de Veneo, Veneo que nos dá… Venturis. Tamanho é o mote, se refletido no relegado presente de Lucano: Venturis Ventis: À gente que virá – da gente que veio.

Lema não só, cuidemos, de oferta; de herança produzida laboriosamente causal e assim duas vezes mais cara. Graças à gente específica que se muda para fazer Brasília, Brasília será dessa mesma gente em geral – do trabalhador de linho fino no sol forte – mas na gente que virá.

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  1. Claudio Bojunga, JK – O artista do impossível, Editora Objetiva, 2001.
  2. João Cabral de Melo Neto, Obra completa, p. 78, Editora Nova Aguilar, 2006.
  3. M. Annaeus Lucanus, Pharsalia, edição de Carolus Hermannus Weise, 1835. Disponível em http://www.perseus.tufts.edu/hopper/text?doc=Perseus%3Atext%3A1999.02.0133%3Abook%3D3%3Acard%3D509 (acesso em 14/12/2021).

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