Vigor Vestibular e Progresso

É preciso perguntar se a mais marcante expressão da geração nascida com a República foi seu compromisso com o autoritarismo do Estado Novo. A pressão, que não deixa dormir esta pequena pulga, diz respeito ao que chamaríamos jocosamente propedêutica euclidiana. Simplesmente: teoria dos conjuntos.

Houve esta ambição: generalizar em plano federal os melhores experimentos da inovação escolar dos anos 1920 (citados aqui e criticados aqui).

Quando dissemos, há pouco, “substrato continuado em interesse estético”, procuramos atentar o leitor à causalidade tradicional a unir substrato e floração. Ou dizer que não há erro neste silogismo: de mais ricos solos, mais ricas florações.

Quando o assunto é teoria do ensino, perscruta-se entretanto a compreensão do termo ‘rico solo’ baixo muito mais suor.

Por que teoria dos conjuntos? Porque ‘constitucionalismo’ não está contido em ‘progresso’, mas ‘carro na frente dos bois’ está muito menos. O bem comum não está quando alguns estão praticamente excluídos. Mas o bem comum está muito menos quando alguns estão arbitrariamente excluídos.

Ora, que os paulistas chorassem porque ‘nós que gostamos do povo de verdade’ saberemos o que é melhor não é senão colocar o carro na frente dos bois. Mas o que o choro paulista representa é um conjunto menor a tentar conter um maior: irracionalidade.

Cremos na indução e praticamos a dedução, mas sedução tem limites que sua própria essência brinca de brumar. E por quê? Porque não é de si a procriação, e sim e antes um ganho privado. O princípio da sedução contraria absolutamente a εῖδος República. Demonstra-se, assim, que a expressão mais marcante da geração nascida com a República foi seu compromisso com o autoritarismo do Estado Novo.

Quando entretemos pares de oposição dialética, a primeira e talvez única regra é não entrar comprado no jogo. Não vale, como fez o quase pragmático socialismo brasileiro dos anos 1930, dicotomizar Tradicional–Moderno sem que ambos os termos estivessem considerados integralmente. Num mundo reduzido de saída, a dialética descansa e manda a campo seu simulacro – a velha rinha entre o galo branco e o preto onde um é o bom mas o malvado e perverso é o outro.

O sujeito político é livre para consumir em méthexis aditiva E subtrativa porque interesse estético está contido em ambiência ética. Daí, coincidentemente, diremos não só que estética está contida em ética, mas que interesse está contido em ambiência. Isto porque a εῖδος interesse pressupõe o ‘interesse’ de boa parte dum real que não nos cabe, physis em ὕλη impredicável. Só sabemos de ‘interesse’ o que à limitada humana cultura interessa, enquanto de ‘ambiência’ sabemos com segurança que há muito mais que nós.

Ambiência é amb-ire, sorte complicada de redundância etimológica que se traduziria como ‘ir por aqui como por ali porque vou ir’, ou, talvez melhor, ‘tantas veredas, eu só um’.

Deste adorável prefixo, ‘amb-‘, não é tão curioso apontar seu préstimo a outro termo, ambição.

Ambicionar é mão dupla
Encontro do seu querer
Com outro, meio biruta
Querer do mundo a correr

Nesta pílula ética, Lao Tsé alerta a posteridade dalgo como: ‘seu pai e sua mãe voltarão para puxar seu pé se e apenas se de dentro de si você os livrar’.

Interesse estético a guiar consumo cidadão em meio à variegada floração porque Estado Contínuo é physis*; isto é, a jogo comprado há de tornar jogo comprado*.

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